domingo, 13 de dezembro de 2009

Direita pós-Pinochet testa nas urnas hegemonia da esquerda chilena

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Políticos conservadores se renovaram para atrair eleitores de centro; o direitista Piñera tem 44% das intenções de voto

Ruth Costas

A direita chilena desafia hoje, nas urnas, duas décadas de hegemonia da Concertação, a coalizão de centro-esquerda que governou o Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-90). Não é a primeira vez que os grupos conservadores têm a chance de voltar à presidência após a redemocratização do Chile. "Nas eleições de 2000 e 2006 a direita já se mostrou bastante competitiva. A diferença é que agora todos os institutos de pesquisas indicam sua vitória no primeiro e no segundo turno", disse ao Estado o respeitado comentarista político Tomás Mosciatti, da CNN Chile.

Também serão renovadas as 120 cadeiras da Câmara e metade das do Senado, de 38 membros. Mas, segundo analistas, o resultado da votação legislativa não deve mudar o equilíbrio que os grupos governistas e conservadores mantêm desde 1990 nas duas Casas. A única novidade é a possibilidade de retorno do Partido Comunista, afastado desde o golpe de 1973.

Segundo o Centro de Estudos da Realidade Contemporânea, na corrida pela presidência o empresário Sebastián Piñera, da direitista Aliança para a Mudança, deve obter hoje 44% dos votos, e o ex-presidente Eduardo Frei, da Concertação, 31%. No segundo turno, que será em 17 de janeiro, Piñera teria 49% e Frei, 32%. Mas a Concertação ainda tem alguma chance de virar o jogo atraindo votos de candidatos que deixaram a coalizão oficial para lançar candidaturas próprias no primeiro turno - o socialista Jorge Arrate e o independente Marco Enríquez-Ominami. Arrate já se mostrou disposto a apoiar Frei. Mas Ominami resiste às propostas de reaproximação e dá sinais de que até pode flertar com a direita.

"A questão é que, mesmo que na última hora os três grupos se unam e consigam derrotar Piñera, a Concertação terá de se reformular se quiser sobreviver a essa nova fase da política chilena", diz o historiador chileno Joaquín Fernandois, professor da Pontifícia Universidade Católica do Chile. No caso de uma derrota, analistas não descartam a possibilidade de uma fragmentação da coalizão oficial após a eleição.

Um dos motores da redemocratização chilena, a Concertação vem passando por um processo de desgaste há alguns anos. Se até pouco tempo atrás a simples lembrança das atrocidades cometidas na ditadura Pinochet - foram 3 mil mortos em 17 anos - era suficiente para a esquerda garantir a vitória direita nas urnas, agora uma fatia cada vez maior do eleitorado exige propostas novas e soluções para problemas do dia a dia.

DIVISÃO

O Chile nunca deixou de ser um país dividido - e durante o período democrático a direita manteve uma votação tradicional de cerca de 40%. Agora, cada vez mais há uma migração constante entre a centro-direita e a centro-esquerda que pode fazer a diferença nas urnas.

Os políticos conservadores se renovaram para atrair esse eleitorado de centro, incorporando um elemento social e promessas de uma gestão dinâmica e eficiente em seu discurso - embora isso não queira dizer que boa parte deles tenha deixado de defender o legado de Pinochet. Sua primeira grande vitória foram as eleições legislativas de 2008.

Piñera tenta ser a cara dessa "nova direita". Com um patrimônio de mais de US$ 1,3 bilhão, é considerado um empresário agressivo e bem-sucedido, apesar de ter respondido a alguns processos judiciais por irregularidades em seus negócios. Além disso, se beneficiou da dificuldade da presidente Michelle Bachelet em transferir sua popularidade, de 80%, para Frei.

Ele não só é uma figura pouco carismática, como durante seu governo (1994-2000) a gestão da crise asiática foi considerada desastrosa. Até líderes da Concertação admitem, nos bastidores, que talvez não tenha sido o candidato mais adequado.

A repórter viajou a convite da Fundación Imagen de Chile

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