domingo, 14 de junho de 2009

Sem antiamericanismos

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Há uma preocupação grande entre as autoridades envolvidas nas negociações dos Brics de que esse movimento não seja entendido como de oposição aos Estados Unidos. A reunião dos chefes do Estado de Brasil, Rússia, Índia e China, da próxima terça-feira em Yekaterinburgo, na Rússia, pelo impacto de ser a primeira, e pelos temas que estarão em discussão, como a reformulação dos organismos internacionais ou a análise do dólar como moeda de referência internacional, tem potencial para ser polêmica, mas o objetivo é que seja o início de uma ampliação de espaço para os emergentes, mas não de confronto.

Mesmo porque neste novo mundo geopolítico que está sendo desenhado pela crise internacional, ainda há muitos avanços a serem feitos pelos Brics. O professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira, em recente palestra sobre os Brics, ressaltou que os Estados Unidos continuarão a ser o centro de elaboração do capitalismo liberal, baseado na inovação e nos novos métodos de organização de empresas e trabalho.

A Europa será cada vez mais a mediadora entre os Estados Unidos e a China, com relações intensas com o chamado “segundo mundo”, especialmente a Rússia e a América do Sul.

A China, com seu liberalismo econômico e autoritarismo político, transformará o Triângulo do Pacífico, formado por ela, Japão e a Australásia, no eixo econômico mais rico do mundo.

Neste novo mundo, Brasil, Rússia, Índia e outros países do “segundo mundo” serão fundamentais para o equilíbrio mundial, mas com ressalvas importantes.

O equilíbrio institucional interno é forte no Brasil e na Índia, mas ainda está em construção na Rússia.

O desenvolvimento tecnológico e a capacidade de inovação são fortes na Índia e na Rússia, e estão em construção no Brasil. A capacidade de evitar o isolamento político e estratégico, ou “soft power”, é forte no Brasil e na Índia, e fraco na Rússia.

Para o ministro do Planejamento Estratégico, Mangabeira Unger, seria muito natural que os Estados Unidos suspeitassem de qualquer iniciativa dos Brics, e reagissem contra, como se o objetivo maior dos movimentos dos emergentes fosse conter a ascendência americana. “Mas isso seria uma miopia”, já advertiu a interlocutores do novo governo de Barack Obama, de quem foi professor na Universidade Harvard.

“Deveriam ver nossos movimentos como uma genuína tentativa de reconstruir a ordem do mundo num sentido que atenderia também aos interesses de longo prazo dos Estados Unidos”, analisa.

Mas Unger admite que há uma distância grande entre o entendimento teórico dessa nova situação, que Barack Obama tem, da prática.

“É preciso observar que essa ambivalência é muito antiga nos Estados Unidos, que sempre quiseram se considerar uma potência revolucionária, mas hoje há razões para eles aceitarem essa mudança no mundo multipolar”.

Aos Estados Unidos pode interessar o avanço em direção a essa nova ordem mundial que dá mais espaço para experimentos, especula Mangabeira Unger.

Mas ele diz que ninguém nos Brics quer institucionalizar novos fóruns de decisão, nem criar regras que engessem as relações internacionais.

Ao contrário, o que se busca são maneiras novas de alcançar um desenvolvimento includente.

Também o embaixador Marcos Azambuja, que como representante do Centro Brasileiro de Relações Internacionais tem participado de diversos encontros com representantes de “think-thanks” de Rússia, Índia e China para discutir uma agenda comum, defende uma agenda mínima, com temas como meio a m b i e n t e e s e g u r a n ç a energética.

A ordem é “não criar uma instituição excessiva, não ser anti alguma coisa”. Ele destaca as afinidades de uma diplomacia presidencial: os quatro líderes que estarão reunidos na Rússia já se entendem diretamente, e estão saindo dessa crise mais fortes do que entraram, “alegando com razão que não foram responsáveis por ela, são vítimas e talvez um pouco salvadores da lavoura”.

Ele acha que “foi a crise que nos revelou e vai nos projetar”. Mas também admite que são países “de extraordinários avanços e extraordinários atrasos”. Seiscentos milhões de indianos vivem em condições de pobreza incompreensíveis para nós. A China tem centenas de milhões de pessoas na miséria, precisam trazer para a cidade 900 milhões de pessoas.

Mas os quatro países estão entre as dez economias do mundo pelo critério de poder de compra, e a reunião deles “tem a força de uma realidade que uma vez revelada é irresistível”.

Na avaliação de Marcos Azambuja, o Brasil é o mais avançado institucionalmente dos quatro, os três outros, os Rics sem o B, “têm uma tradição de rivalidade, de enfrentamento, três países mais em rivalidade do que em cooperação”.

Algumas vantagens comparativas dos países democráticos dentro dos Brics são ressaltadas pelo embaixador Azambuja: “Todas as eleições de todas as democracias europeias juntas não dão os 750 milhões de eleitores que votaram na última eleição da Índia”.

Mangabeira Unger admite, porém, que há um problema nos Brics “que não dá para sonegar”: dois dos países ou não são democracias (China) ou são democracias muito limitadas (Rússia). “E a falta de democracia é um imenso impedimento para o desenvolvimento de alternativas”.

Quase-lógica revisitada

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ainda no decorrer do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio da Silva, a cientista política e pesquisadora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) Luciana Fernandes Veiga fez um rápido estudo sobre os improvisos do presidente e concluiu que não adiantava cobrar dele precisão de raciocínio nem coerência dos argumentos.

Treinado na linguagem do cotidiano, cujos instrumentos se sustentam basicamente em ditados populares e juízos de valor a partir dos quais o senso comum estabelece suas verdades, Lula, dizia ela, não tem nem pretende ter compromisso com a exatidão, muito menos com a lógica formal.

"Pedir a Lula que seja mais preciso em seus improvisos é pedir que mude seu modo de argumentação e persuasão, construído no campo da linguagem cotidiana."

Luciana Veiga estava certa na constatação que o tempo acabou transformando numa imensa - talvez a maior - vantagem comparativa de Lula em relação aos seus pares na cena política.

O presidente não apenas continuou na mesma toada de obviedades, raciocínios desconexos e argumentos imperfeitos, como se aproxima de completar seus dois mandatos sendo celebrado por ter uma comunicação popular de eficácia inquestionável.

Não obstante a qualidade para lá de questionável no que tange à elevação dos padrões gerais no trato do idioma e no exercício do melhor pensar para aperfeiçoar a capacidade de discernir.

Fosse outro o padrão educacional do País, as falas de Lula muito provavelmente pareceriam desprovidas de sentido. Como a premissa preponderante é da obediência a deduções simplificadas, o discurso não perde credibilidade.

Da mesma forma como no início do governo Lula criticava "os de cima" por acharem que "pobre tem que ser pobre a vida toda", mais recentemente culpou "os louros de olhos azuis" pela crise econômica mundial e contou aí com a colaboração da fantasia da divisão social tal como se dá no imaginário corriqueiro.

"Lula consegue estabelecer acordos tácitos com o público sobre as premissas e pressupostos do discurso porque comunga com a crença e os valores de seus interlocutores", analisava a professora.

Quando do tsunami que atingiu a Ásia, o presidente transformou o maremoto em "vendaval" e deu sua versão "quase-lógica" da tragédia: "A natureza é inofensiva e boa, mas quando é desrespeitada reage à altura."

Segundo Luciana Veiga disse na ocasião, semelhante afirmação é aceita porque soa verossímil aos ditames do cotidiano histórico - "a natureza quando desrespeitada reage" - e do cotidiano moderno - "estão desrespeitando o meio ambiente" - das pessoas.

Pelo mesmo critério, aos ouvidos da maioria possivelmente pareceu plausível a declaração de Lula de que o Brasil encontraria os destroços do acidente com o avião da Air France porque "um país que acha petróleo a 6 mil metros de profundidade no mar, acha uma caixa-preta a 2 mil metros".

As diferenças de circunstâncias, de procedimentos e o mau gosto da comparação simplesmente não são levados em conta.

"Sem muitos recursos cognitivos e com um custo alto de informação, os homens comuns tocam a vida assim, se comunicam com os instrumentos que têm à mão", explicava a pesquisadora, sem entrar no mérito sobre os recursos mentais e verbais do presidente.

O objetivo dela ao estudar o assunto não foi criticar nem elogiar a oratória do presidente, mas apenas expor as razões pelas quais considerava perda de tempo cobrar de Lula uma mudança nos paradigmas adotados ao longo de toda vida, "porque ele não tem a pretensão de ser preciso. Busca apenas chegar à consonância com o público, assim como se comporta o seu João na conversa no balcão do bar ou a dona Maria no portão com a vizinha".

Revisitada a teoria à luz de seis anos transcorridos, a questão que se põe é a seguinte: que proveito poderá tirar o País e quem serão os beneficiários desse legado de comunicação eleitoralmente competente, mas indolente do ponto de vista educativo.

Por ora não é possível perceber ganho algum a ninguém que não seja o próprio Lula.

Tem dono

Ato falho ou voluntário, fato é que na sexta-feira o presidente da República se apropriou da oposição, à qual antepôs o pronome possessivo "minha" ao discursar em Sergipe.

"Minha oposição fica zangada", disse, informando assim aos adversários que passam a fazer parte de seus pertences.

Negócios à parte

Parceria combinada na eleição presidencial, nem por isso o Democratas pretende se pôr à disposição do PSDB em todos os palanques estaduais de 2010.

Vai concorrer em faixa própria onde enxergar possibilidade de vitória. Por enquanto, no mínimo em três Estados: Distrito Federal (José Roberto Arruda), Tocantins (Kátia Abreu) e Bahia (Paulo Souto).

Haraquiri no Senado

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O Brasil é surpreendente, nem mesmo o presidente Lula que se gaba com tanta frequência de conhecê-lo tão bem, percebe suas nuances e domina suas sutilezas. O País desafia, desmente e ilude todos os estadistas, poetas, cientistas e filósofos que se apresentam como seus intérpretes. Não é uma nação, é uma pessoa, um ser nacional autônomo, tem vida, desígnios e traços próprios.

É mais esperto do que a soma das espertezas individuais. A melhor prova desta astúcia orgânica está sendo escancarada através do noticiário político. Enquanto os políticos fingem que retomam a velha discussão sobre a reforma política e admitem até eliminar a função do suplente de senador como primeiro passo para acabar com o sistema bicameral eis que o próprio Senado se adianta e se autodissolve num inédito suicídio institucional.

As revelações, quarta-feira, dos repórteres Rosa Costa e Leandro Colon, do Estado de S. Paulo sobre os 300 atos secretos do Senado e ampliadas nesta sexta por Gerson Camarotti do Globo para 500 bandalheiras sigilosas configuram uma improbidade de proporções calamitosas. Com o agravante da duração: a ilegalidade está funcionando há 10 anos e tem servido para nomear parentes, criar cargos, aumentar vencimentos e pagar horas extras ao funcionalismo.

As ilicitudes foram praticadas conjuntamente pelos beneficiários, pelos agentes beneficiadores diretos (membros da Mesa Diretora e diretores administrativos da casa) e também pelos agentes indiretos – todos os senadores que conviveram com esta aberração por tanto tempo.

Previsto no artigo 37 da Constituição onde se determina a obrigação de dar publicidade a todos os atos, de todos os poderes, de todas as instâncias em todo o território nacional, o crime se agiganta quando transcende o aspecto moral e se configura como verdadeiro atentado político. É uma autêntica ação subversiva contra o Estado, contra o regime e contra a República. Seguindo a inércia dos processos de marginalização, o Senado foi cometendo suas pequenas e irrisórias infrações até colocar-se integralmente fora da lei. A Câmara Alta e suas 500 malandragens foi convertida num distrito clandestino, algo semelhante à milícia mercenária, cosa nostra protegida pela rigorosa omertá.

Como sempre acontece, a imoralidade criou uma burocracia altamente sofisticada: como os atos eram sigilosos e não poderiam ser noticiados no Diário Oficial, eram registrados no boletim administrativo, Diário Oficial Não-Oficial, um D.O. do B., amplamente manuseado pelo funcionalismo senatorial. A socialização do butim fez-se à custa do silêncio e do pacto de lealdade. Todos se regalavam, ninguém estrilava.

O senador José Sarney que presidiu a Câmara Alta duas vezes ao longo do período, não poderia estar alheio ao novo veio de escândalos, conviva obrigatório: um neto de 22, sequer formado, chegou a ganhar cerca de R$ 8 mil reais e uma nora transitória também transitou pelos porões desta república clandestina. Sarney não é o culpado. Com sua infinita elasticidade espiritual e inquebrantável devoção ao relativismo, o atual presidente do Senado é apenas o símbolo da decadência de uma estrutura política à qual serviu em todas as circunstâncias – de líder civil da ditadura militar a vice-rei de uma república popular.

O Ministério Público e o Tribunal de Contas da União já foram convocados: todos prometem agir, punir, demitir, exigir a devolução do dinheiro recebido indevidamente. O mal está feito, a república brasileira está ferida: a parte mais vistosa de um dos seus poderes, desencaminhou-se, tem códigos e costumes diferenciados e outra noção de decoro. É parte daquele país inesperado, rebelde, que fez-nos o grande favor de antecipar a reforma política e mostrar a inutilidade de uma de suas câmaras.

O Senado romano foi cenário do assassinato de um imperador. O Senado brasileiro é palco de um haraquiri coletivo.

» Alberto Dines é jornalista

A matemática dos palanques

Marcos Coimbra
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Para quem acha que as coisas funcionam bem atualmente nas relações entre o governo e os partidos, pode ser até barato deixar tudo como está e ganhar alguns minutos selando uma “aliança” com o PMDB. Quem, contudo, desconfia que as coisas precisam mudar deve avaliar com cuidado o que está comprando.

Os dicionários brasileiros mais famosos não registram o sentido moderno da palavra palanque. No Houaiss, por exemplo, a primeira acepção nos leva a pensar que ela é quase um arcaísmo. Palanque seria um “tablado com degraus para participantes e/ou espectadores de eventos ao ar livre”, coisa que já não existe mais, a não ser nas mais simples cidade do interior. Onde ainda se empregam tábuas para fazer estruturas como essas?

No Aurélio, a definição é praticamente igual: palanque é um “estrado de madeira com degraus, construído para os espectadores de uma festa ao ar livre”. Nele, como no Houaiss, registram-se outros sentidos da palavra (tronco para prender cavalos, poste para amarrar potros para curar bicheira etc.), mas nenhum se aproxima do que tem hoje em dia, especialmente nas discussões políticas.

Nelas, ela é utilizada para descrever o lugar onde ficam aqueles que falam ou, por metonímia, os que sobem nesses “estrados” para se dirigir aos espectadores de comícios. É nos palanques que os políticos discursam.

Hoje, ela designa duas coisas distintas: os palanques propriamente ditos e os “palanques eletrônicos”. Só que, no Brasil, do modo como funcionam o sistema político e as campanhas eleitorais, os primeiros perdem, a cada eleição, importância, e os outros ganham. Os comícios querem dizer menos e a televisão mais. Basta fazer as contas. Em uma eleição presidencial, em qualquer dia normal de veiculação da propaganda eleitoral, os programas dos candidatos têm uma audiência potencial (medida pelo número de aparelhos ligados) que equivale a uma cobertura de cerca de metade do eleitorado, ou seja, de mais ou menos 65 milhões de pessoas.

Se considerarmos a audiência efetiva (domicílios onde pelo menos uma pessoa assiste a pelo menos parte do programa), ficamos com 30 milhões e, mesmo se quisermos apenas a audiência ativa (onde alguém assiste, com atenção, à maior parte do programa), temos 15 milhões. Agora façamos uma especulação sobre uma campanha que fosse capaz, nos 90 dias permitidos, de fazer um grande comício por dia, com 20 mil pessoas em média (sem artistas e sem atrações), apenas para ouvir os candidatos. Nessa hipótese altamente improvável, ela levaria 1,8 milhões de pessoas a eles. Ou seja, perto de 10% apenas da audiência ativa do programa em um só dia. Isso para não falar das inserções, que atingem 130 milhões de eleitores diariamente.

Existem dezenas de estudos que mostram que, se há uma coisa que desagrada ao eleitor na TV, é ver desfile de políticos. No programa de Dilma, por exemplo, abusar da presença de personagens pouco ou nada conhecidos fora de seus estados só faz com que ninguém queira vê-lo. Mesmo onde atuam, sua aparição rouba o tempo da candidata, que precisa de várias coisas, menos de patronos demais. É igual para o candidato que ela enfrentará do PSDB.

A importância da televisão é tão grande que alguns estrategistas acham que qualquer concessão vale a pena, na busca de coligações partidárias que aumentem o “tempo de antena” de uma candidatura. É o que faz com que o PMDB seja tão cortejado, tanto pelo governo, quanto pela oposição. O cálculo dos benefícios não é simples, no entanto. Se um partido tem, sozinho e com seus aliados tradicionais, tempo suficiente para ser notado pelo eleitor, a vantagem da maior exposição pode ser pequena.

Há, além disso, o problema do preço. Para quem acha que as coisas funcionam bem atualmente nas relações entre Executivo e Congresso e entre o governo e os partidos, pode ser até barato deixar tudo como está e ganhar alguns minutos selando uma “aliança” com o PMDB. Quem, contudo, desconfia que as coisas precisam mudar deve avaliar com cuidado o que está comprando. PSDB e PT já ganharam eleições sem o PMDB. Quanto a Serra, já perdeu com ele.

Campanha eleitoral de 2010 chegará à internet

Carolina Brígido e Isabel Braga
DEU EM O GLOBO

Presidente do TSE defende uso da rede nas eleições para atrair jovens e democratizar as doações financeiras

BRASÍLIA. Os candidatos às eleições de 2010 têm chance de contar com uma ferramenta decisiva de campanha: a internet. Não só para divulgar propostas e apoios, mas para receber doações financeiras. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, tem defendido essa bandeira junto a seus colegas de tribunal, citando o sucesso das doações de pessoas físicas para a campanha de Barack Obama, nos Estados Unidos. O ministro Joaquim Barbosa, que presidirá o TSE no ano eleitoral, já manifestou a colegas simpatia pela liberação total das campanhas virtuais.

Intenção é permitir pequenas doações pela rede

Sempre que pode, Ayres Britto elogia publicamente a campanha feita por Barack Obama. Costuma dizer que é melhor ter muita gente doando pouco, como ocorreu com os financiadores do presidente americano, do que pouca gente doando muito, como aconteceu com o presidente Lula, nas últimas eleições. Nos Estados Unidos, é possível doar apenas um dólar pela internet. No Brasil, são mais comuns doações de grandes empresas, sem participação direta do cidadão comum. Ayres Britto quer mudar isso:

- Nos Estados Unidos, o candidato democrata Barack Obama recebeu mais de US$1,2 bilhão em doações pela internet. Lá, o cidadão pode doar um dólar acessando a rede.

Um dos objetivos da proposta de levar a campanha para a rede é atrair os mais jovens para o debate político. Alguns políticos ainda resistem a esse contato direto com os internautas, quando a vida pública fica muito mais exposta.

O cientista político e professor da Universidade de Brasília Lúcio Renó considera que a internet é um instrumento eficaz de comunicação e já é um mecanismo muito presente nas campanhas eleitorais das democracias mais avançadas. Para ele, é inevitável o aumento do uso dessa ferramenta, o que considera positivo para candidatos e eleitores:

- O eleitor ganha. Qualquer ganho de fonte de informação é muito bom. Isso é essencial na democracia. E sou a favor do uso livre, quanto menos restrição melhor. É preciso, no entanto, mecanismos de proteção dos que se sintam prejudicados.

Câmara quer votar novas regras este mês

DEU EM O GLOBO

Mas restrições para a pré-campanha deverão continuar

BRASÍLIA. O cientista político Lúcio Renó destaca que hoje já existem mecanismos para os que se sentem ofendidos, como recorrer aos tribunais, mas que novas regulamentações podem ser aprovadas. Renó também é favorável à doação via internet:

- Fica mais transparente. Vai exigir cadastro e deverá ser feita por meio de cartão ou boleto, coisas que criam rastro e aumentam a transparência.

Na Câmara, os líderes partidários anunciaram que votarão este mês projetos de uma pequena reforma eleitoral. O texto, do deputado Flávio Dino (PCdoB-MA), que já foi juiz, define regras para a campanha, incluindo o uso da internet. Dino pretendia liberar o uso da internet antes dos três meses da campanha eleitoral. Para ele, a internet é um instrumento acessível a todos os candidatos e uma ferramenta democrática. Não houve consenso sobre a proposta.

Alguns deputados, como o baiano Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM), entenderam que tal medida poderia passar a impressão de autorização de antecipação das campanhas eleitorais. Só concordam com a divulgação de prévias partidárias nos sites dos partidos, desde que não haja pedido de voto.

- A internet será livre nos três meses que antecedem a campanha. Na pré-campanha, os sites dos partidos poderão divulgar prévias. Mas nada de manifestações individuais dos pré-candidatos - disse ACM Neto.

TSE resistiu a regulamentar o uso na campanha passada

Até o ano passado, o TSE resistiu em regulamentar o assunto. No julgamento de uma consulta proposta ao TSE, em plena campanha para as eleições municipais, Ayres Britto defendeu a liberação total da rede para campanhas eleitorais. Mas a maioria do tribunal preferiu não disciplinar o tema, deixando para julgar caso a caso eventuais abusos. Com o tempo, alguns ministros se convenceram da necessidade de fixar regras.

Atualmente, os dois possíveis obstáculos à proposta são os ministros Marcelo Ribeiro e Arnaldo Versiani. Os dois são vistos como formalistas por integrantes da Corte, dispostos a não regulamentar o uso da internet pela ausência de previsão desse tipo de propaganda em lei. Se for mesmo regulamentar o tema, o TSE é obrigado a publicar resolução ainda este ano. Segundo a legislação eleitoral, não se pode criar novas regras de campanha em ano de eleição.

Se a internet for liberada para as campanhas no ano que vem, os candidatos poderão anunciar em páginas de notícias, enviar mensagens eletrônicas a eleitores e manter blogs. Hoje, os candidatos podem fazer campanha na internet apenas em páginas oficiais da candidatura.

Subida de Dilma em pesquisas inquieta oposição

Adriana Vasconcelos
DEU EM O GLOBO

Demora na definição do candidato do PSDB, que será escolhido entre Serra e Aécio, preocupa seus aliados

BRASÍLIA. O crescimento das intenções de votos em favor da candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff, registrado nas últimas pesquisas, começa a tirar o sono da oposição. Primeiro, porque o PSDB não conseguiu fechar consenso entre seus dois pré-candidatos, o mineiro Aécio Neves e o paulista José Serra. Segundo, porque já percebeu que a intenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é transformar a próxima disputa presidencial numa espécie de plebiscito sobre seu governo, estimulando os quase 80% dos brasileiros que aprovam sua gestão a votarem em Dilma.

PSDB dificilmente terá definição este ano

A despeito da pressão do DEM e do PPS para que os tucanos antecipem logo a escolha de seu candidato à sucessão de Lula, o PSDB dificilmente conseguirá ter uma definição antes do fim do ano. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, já comunicou à direção do partido que pretende insistir em sua pré-campanha pelo menos até outubro, quando promete fazer uma avaliação sobre a viabilidade de seu nome. Caso considere que tem alguma chance, insistirá na realização de prévias.

Mesmo liderando com folga pesquisas sobre a sucessão presidencial de 2010, o governador José Serra resiste a assumir sua candidatura e mais ainda à hipótese de ter de se submeter a uma disputa interna no partido para garantir a vaga de candidato. Ele tem evitado participar dos seminários promovidos pelo partido para discutir a plataforma de governo que pretende apresentar ao país em 2010.

- A oposição não pode ficar imobilizada. Precisa estruturar a campanha, ainda mais quando vemos Lula defendendo abertamente a candidatura de Dilma - advertiu o líder do DEM, senador José Agripino (RN).

Diferentemente do que imaginavam os oposicionistas, o câncer linfático enfrentado pela ministra Dilma, em vez de abalar, teria ajudado a consolidar sua candidatura, até porque colocou seu nome no noticiário nacional e de forma mais humana.

Sem consenso, PSDB cuida dos palanques

DEU EM O GLOBO

Serra fechou acordo na Bahia, e Aécio recebeu apoio do PDT

BRASÍLIA. A demora na escolha de seu candidato à Presidência e as perspectivas de o Brasil superar em pouco tempo os efeitos mais danosos da crise econômica mundial estão levando oposicionistas a admitirem, desde já, que terão uma disputa eleitoral duríssima pela frente.

De qualquer forma, os oposicionistas acreditam que Dilma continua sendo a candidata mais fácil de se enfrentar. Pesariam contra sua candidatura a falta de consistência do ponto de vista intelectual, uma arrogância criticada até por aliados e o fato de nunca ter sido testada nas urnas. Isso, enquanto o mais forte nome da oposição, o governador paulista, José Serra, desponta em pesquisas qualitativas como o segundo político mais admirado do país, perdendo apenas para Lula.

Enquanto Serra e o mineiro Aécio Neves não chegam a um consenso, os tucanos planejam reforçar os palanques estaduais de seu futuro candidato à Presidência. Neste campo, Serra tem trabalhado com afinco. Ele teria tido participação decisiva, por exemplo, no fechamento de um acordo entre tucanos e democratas na Bahia, o que deverá ser decisivo para o lançamento da candidatura de Paulo Souto, do DEM, ao governo baiano no próximo ano.

A avaliação da oposição é que essas coligações regionais poderão ser decisivas em 2010, até porque Dilma não tem o carisma do presidente Lula, e o PT é muito ruim na hora de fechar alianças.

Aécio tenta mostrar trânsito entre partidos da base de Lula

Já Aécio tem tentado mostrar seu trânsito com legendas que integram hoje a base aliada do governo Lula. Nas últimas semanas, por exemplo, recebeu declarações públicas de apoio do presidente licenciado do PDT, o ministro Carlos Lupi, e do presidente do PTB, o ex-deputado Roberto Jefferson. A habilidade do governador de Minas agrada a parte da cúpula tucana, que, mesmo ciente de que a candidatura de Serra seria mais competitiva, admite que Aécio teria potencial para se sair bem numa disputa nacional, por suas características de articulador político e seu enorme jogo de cintura.

Paralelamente à estratégia de cada um de seus pré-candidatos, a cúpula tucana estuda a melhor forma de neutralizar dois fatores que poderiam desequilibrar a eleição em favor de Lula e sua candidata: o medo dos eleitores de que o PSDB possa acabar com o Bolsa Família e a possibilidade de o PT ressuscitar o discurso de que os tucanos só sabem privatizar, a exemplo do que aconteceu em 2006, que acabou levando o candidato Geraldo Alckmin a receber no segundo turno menos votos do que no primeiro. O PSDB já ensaia o discurso em defesa das políticas sociais.

Em busca do equilíbrio institucional

Luiz Orlando Carneiro Raphael Bruno
Brasília
Entrevista Flávio Dino
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Autor da proposta de reforma eleitoral, deputado explica o que muda para 2010 e diz que TSE não pode ir além da lei

Derrotada, mais uma vez, a proposta de reforma política que estabelecia o financiamento público exclusivo de campanhas e o voto em listas partidárias fechadas, os deputados se mobilizam para realizar uma última tentativa de aperfeiçoar a legislação eleitoral antes da disputa de 2010. Autor do anteprojeto de "minireforma eleitoral" o deputado Flávio Dino (PCdoB-MA) detalha nesta entrevista exclusiva concedida ao JB que o objetivo primordial, agora, é retirar da Justiça Eleitoral parte dos poderes reguladores que ela, segundo Dino devido à "omissão" dos parlamentares, exerceu sobre os últimos pleitos.

O senhor acha que a minirreforma eleitoral será aprovada a tempo para valer em 2010?

Há tempo por duas razões: a primeira é que nós temos aí, três meses. Mesmo que na Câmara nós consumíssemos todo o mês de junho, ainda teríamos agosto para o Senado apreciar e eventualmente, se houver emendas, retornar para a Câmara para que a gente vote as emendas até setembro.

Qual proposta que gerou mais polêmica?

A chamada lista fechada. Em segundo lugar, e tão polêmico também, é o do financiamento de campanha. Cada um tem um modelo na cabeça. Foi em razão disso que a gente inverteu o procedimento. Em vez de buscar medidas de maior impacto e reunir forças políticas para aprová-las, agora o Michel Temer (presidente da Câmara) inverteu. Apresentei essa proposta metodológica de consenso progressivo, começando dos temas que mais unem indo até os os temas que mais dividem a Casa e a sociedade. Então nós estamos tratando, em primeiro lugar, dos temas referentes a campanha eleitoral, propaganda eleitoral, e aí abrangendo um conjunto de tópicos, como por exemplo o que pode, o que não pode, se pode ter placa, se pode pintar muro, se pode ter cavalete, se pode fazer carreata na véspera da eleição, se pode usar internet, como pode usar internet, se pré-candidato pode dar entrevista, se pode ter blog, se podem existir prévias partidárias.

O financiamento público não estaria necessariamente atrelado à da lista fechada?

Essa é uma teoria que eu chamo, brincando, da goiabada com queijo – uma coisa só funciona com a outra. Quando na verdade você pode comer goiabada e comer o queijo e ambos são bons. Não existe esse casamento em lugar nenhum, nem no Brasil.

Como seria o financiamento público sem a lista fechada?

Como já é hoje. Nós já temos financiamento público de campanha com lista aberta. Só que não existem normas para esse financiamento público. O financiamento no Brasil já é misto. Você tem o financiamento público representado pelo fundo partidário e pelo horário eleitoral gratuito e você tem o financiamento por empresas e o financiamento por pessoas físicas. Então como é que você calibra isso? No fundo partidário hoje são mais de R$ 200 milhões por ano. O fundo partidário é usado, sim, no financiamento de campanhas eleitorais – e fortemente. Só que não tem critérios. Ninguém sabe exatamente como é feita a distribuição nos Estados.

É possível impedir totalmente o financiamento por empresas?

Hoje é uma medida necessária porque o modelo está saturado. Primeiro, hoje o cerco ao chamado caixa 2, as doações ilegais, é crescente, em razão do aprimoramento dos mecanismos de fiscalização e controle por parte da Justiça Eleitoral, cruzamento com dados da Receita Federal. Agora, recentemente, o TSE fez um convênio com o Tribunal de Contas da União. Então as doações ilegais, felizmente, tendem a minguar. As doações legais sempre enfrentam problemas, sejam políticos, sejam jurídicos. Politicamente, vou dar um exemplo recente – a CPI da Petrobras. Vocês jornalistas levantaram que senador tal recebeu dinheiro da empreiteira "X", que presta serviço para a Petrobras. Logo ele tem interesses pessoais, digamos assim, na CPI.

Então se for feito um esquadrinhamento do mundo político a partir dos seus doadores, isso cria uma espécie de suspeição, ainda que todos digam "não, eu recebi dinheiro da empresa, mas a empresa não manda em mim", mas aos olhos da sociedade não funciona assim. Esse é o problema político maior que eu vejo. No jurídico, recentemente o Ministério Público instaurou procedimentos e representações contra mais de 4 mil empresas que fizeram doações declaradas em 2006 e 2008. Ora, a tendência é que essas representações indo adiante, o empresário recue, porque diz "vou contribuir para isso aí e ter a minha empresa, depois, metida em confusão, sendo questionada, sendo apontada, sendo investigada". Então qual é o quadro que se projeta?

É que serão cada vez menos empresas e somente as muito grandes, grandes bancos, grandes empreiteiras, que irão se dispor a participar do jogo eleitoral. E isso, evidentemente, tem uma implicação gravíssima, que é poucas empresas definirem, de modo substantivo, o perfil da representação política no Brasil.

Não existe o receio de que essa minirreforma seja vista como uma maquiagem superficial?


Esse risco, há, mas eu não concordo com essa leitura. O Brasil não é um país de ruptura, é um país, pelo contrário, de grandes transições. Não que eu goste disso, é uma constatação sociológica histórica. Então, eu sempre encaro a reforma política como um processo e não como um momento. Se nós olharmos, no passado os candidatos não prestavam contas, não existia urna eletrônica, não existia um cadastro de eleitores confiável. Isso tudo vem dos anos 90 para cá.

Não se joga mais urnas nas lagoas e rios...

Conheço um caso no Maranhão que a urna foi aberta e foi encontrado um crustáceo dentro – para ver como é que as urnas eram manipuladas. Em 1995 foi votada a lei dos partidos, em 1997 a lei geral das eleições, em 1999, a lei chamada de captação lícita de sufrágio para compra de votos, em 2006 foi votada a Lei 11.300, que pôs fim à distribuição de brindes – camisetas, bonés, showmícios, etc. Temos aprimorado as regras eleitorais no Brasil. E também o Poder Judiciário veio dar uma contribuição importante, muito especialmente com a aprovação da fidelidade partidária, agora em 2007. É uma reforma política em curso, com todos os seus problemas.

O ponto principal da minirreforma é a questão da liberação de campanhas na internet?

Esse é um grande tema, sem dúvida, porque não é apenas a questão da atualização das regras às novas mídias. É o impacto que essas novas mídias tem no barateamento das campanhas e na democratização da circulação de ideias. Qual é a grande virtude da internet? É que ela é um meio substantivamente mais barato de campanha do que qualquer outra mídia, ela é de acesso praticamente universal. Hoje nós temos cerca de 40 milhões de computadores. Quer dizer, a exclusão digital no Brasil está se reduzindo, portanto é um meio que possibilita que o candidato tenha uma relação direta com o eleitor.

Existem especulações de que um grupo de deputados teria receio de uma atuação mais rigorosa do judiciário em relação as campanhas com o ministro Joaquim Barbosa na presidência do TSE em 2010. Esse receio procede?


Esse debate da chamada judicialização da política e da excessiva interferência do TSE já vem de alguns anos, com alguns episódios de alta voltagem, como a história da verticalização, a própria questão da fidelidade. Há uma questão institucional acerca de quem comanda o estabelecimento das regras do jogo do processo eleitoral e há uma percepção do Congresso de que, em razão das omissões nossas, o TSE acabou agigantando a sua função normativa. Uma coisa é a função regulamentar. Essa, sim, pertence ao TSE, que é a dimensão do como fazer. Mas o que fazer quem tem que estabelecer é o Congresso, em razão do princípio da legalidade. Como o Michel Temer tem insistido em nós fazermos uma legislação que detalhe as regras do jogo, exatamente para diminuir os vazios, e ao mesmo tempo, esclarecendo, regrando melhor o eixo chamado poder regulamentador do TSE, dizendo, em primeiro lugar, o óbvio de que o TSE não pode inovar na ordem jurídica, não pode criar regras novas, não pode criar sanções, punições onde a lei não prevê. Então não é uma questão fulanizada, mas é uma questão, sim, institucional. É um debate democrático, aberto, com um outro poder, para que a gente encontre um ponto de equilíbrio adequado.

A propaganda em faixas e cartazes volta a ser autorizada. Significa um retorno àquelas campanhas marcadas pela sujeira nas cidades?

Nós estamos mantendo a proibição de que em bens públicos de todas as espécies é proibida a propaganda eleitoral. Antigamente você olhava um poste de iluminação pública, na época da campanha, existiam placas fixadas nele inteiro, quase até à altura do fio. Isso vai continuar proibido. Nós estamos estendendo uma proibição que está na resolução relativa a árvores, jardins, que é proibido também. Agora, você permite algumas coisas, no caso faixas, placas, cartazes, em bens particulares. Eu diria que há um equilíbrio. Nós estamos liberando determinados meios de campanha, porque você não pode clandestinizar candidaturas. Não pode ser uma festa sem regras, mas também não pode ser um cemitério.

Campanha já está na internet

Clarissa Oliveira, Roberto Almeida e Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
Seguidores lançam na rede virtual seus candidatos favoritos; partidos comemoram, mas negam ingerência

Proibida pela Justiça Eleitoral no mundo real, a campanha para a Presidência da República de 2010 transcorre livremente na internet. Graças à ajuda de simpatizantes, os principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto já são tema de blogs, comunidades e mensagens trocadas na rede mundial de computadores. Isso tudo a mais de um ano do início do prazo legal para que as campanhas sejam efetivamente colocadas na rua.

Partidos negam qualquer responsabilidade por slogans que se multiplicam na rede. Na prática, a ordem é não criar obstáculos, já que a manifestação de simpatizantes é liberada. O que a Justiça veda é o uso disso por partidos e candidatos.

Dessa forma, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), já tem pelo menos seis blogs em apoio a sua candidatura. Ela supera os dois pré-candidatos do PSDB, os governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. Cada um deles é tema de quatro blogs.

Serra é campeão de registros no site de relacionamento Orkut, servindo de tema para 139 comunidades. Destas, 35 têm por objetivo atacá-lo. Já Dilma conta com 63 comunidades, sendo 11 contrárias a sua candidatura. E Aécio aparece em 111, 18 contra ele.

Serra também lidera a audiência na rede social Twitter, que virou febre ao permitir a troca de mensagens rápidas numa espécie de miniblog criado para cada usuário. Apesar de haver apenas 9 registros com seu nome, contra 15 de Dilma, o tucano atrai quase 12 mil seguidores - pessoas que acompanham em tempo real todas as mensagens postadas por um usuário. Nos registros em apoio à petista, há menos de 1.000 seguidores. Já Aécio tem 500 seguidores para dois registros.

O sucesso de Serra deve-se, em grande parte, ao fato de ele próprio ser o autor das mensagens postadas com o login joseserra_. Desde 18 de maio, quando foi criado, até ontem, seu miniblog tinha quase 7 mil seguidores. O governador nega qualquer interesse político-eleitoral. Política é assunto proibido no blog. Em resposta a um de seus seguidores, Serra mandou um recado. "Política, não, @ca_freitas", twittou.

AUTORES

Tanto no lado petista quanto no tucano, o apoio virtual vem de longa data. O movimento pró-Serra na rede começou em 2007 com um blog ativo até hoje. O de maior popularidade, entretanto, é o mantido pelo Movimento Eu Quero Serra Presidente. De iniciativa de jovens ligados à Juventude do PSDB e DEM, ele existe desde janeiro.

Em 2008, o servidor Daniel Bezerra, que trabalha no governo do Ceará, criou o Blog da Dilma.

Hoje, cinco pessoas atualizam diariamente a página. "Mas ninguém recebe nada por isso", garante o editor, que usa o codinome Daniel Pearl, em homenagem ao jornalista americano sequestrado e morto no Paquistão. Bezerra já conversou em mais de uma ocasião sobre o blog com o presidente do PT cearense, José Ilário Gonçalves Marques. "Ele disse que o partido não iria ajudar, nem atrapalhar." Ilário diz que Bezerra lhe pediu ajuda financeira e promocional, mas garantiu que a resposta foi negativa. Ainda assim, o blogueiro levantou R$ 10 mil para pagar adesivos com o slogan Dilma Presidente. "Fizemos uma vaquinha", diz.

Além de mensagens de apoio e publicidade aos atos de seus candidatos, alguns sites realizam enquetes. Em uma das páginas em apoio a Aécio, a pergunta colocada é "Quem deve ser o candidato a presidente do PSDB (Aécio ou Serra)?". Um outro pergunta: "Quem deve ser o vice de José Serra ?".

Outro site em apoio ao mineiro, o www.aecioneves2010.com.br, é mantido por uma equipe liderada pelo estudante Ronaldo Terra. A página é resultado de seu projeto final de graduação em marketing. "Aécio tem uma ?presença web? muito mal administrada", criticou.

A suspeita de que esse tipo de movimentação tenha por trás os partidos é logo rechaçada por dirigentes do PT e do PSDB. "São iniciativas dos próprios internautas, que não têm nada a ver conosco", afirma o secretário de Comunicação do PT, Gleber Naime. "Não podemos ter qualquer relação com isso. Mas acho que eles retratam a filosofia da internet. Aparecem, se desenvolvem espontaneamente", diz o vice-presidente do PSDB nacional, Eduardo Jorge.

De qualquer forma, tucanos e petistas já se preparam para utilizar a internet na campanha do ano que vem. O PT torce por uma mudança nas regras de uso eleitoral da rede. Se for liberado, o plano é contratar um time especializado e estudar mecanismos de arrecadação online. "Vamos ter que contratar gente para fazer frente a essa guerrilha", afirma Naime.

Já o PSDB montou um grupo de trabalho e vem estudando as ferramentas a serem exploradas na eleição. "O próprio Serra e o Aécio cobraram do partido uma presença mais forte na internet para divulgar as ações do partido. Não podemos ficar para trás", diz o secretário-geral do PSDB, deputado Rodrigo de Castro (MG).

Resolução do TSE é o entrave

Roberto Almeida
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), editada pelo ministro Carlos Ayres Britto, é a baliza intransponível dos candidatos que almejam uma superexposição de campanha na internet nas eleições do ano que vem.

O texto, do dia 10 de setembro de 2008, avisa que "a propaganda eleitoral na internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral e na do partido político".

Ou seja, nada de Orkut oficial, Twitter oficial, Flickr oficial, entre outras ferramentas tão necessárias na visão dos marqueteiros políticos, que pensam em 2010 como um espelho da campanha de Barack Obama à Casa Branca. Obama twittou até o dia da vitória, seguido por milhões.

A esperança de alterar a legislação parte de uma iniciativa do deputado Flávio Dino (PC do B-MA), ele mesmo dono de um perfil oficial no Twitter. Dino reforça em seu miniblog a necessidade de uma reforma eleitoral - o que inclui mudanças nos entraves do mundo virtual.

De acordo com seu projeto, o uso da internet ficaria liberado para campanhas eleitorais. Candidatos e seus seguidores teriam a possibilidade de se manifestar em blogs, redes de relacionamento e outros aplicativos na internet.

O aparelho e a lei

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Demorei tanto para tratar do mais recente escândalo do Senado que acabei sendo "furado" pelo editorial desta Folha, que usa uma expressão ("Senado secreto") quase igual à que pretendia usar ("Senado clandestino").

A demora não se deve, creia-me, à preguiça, à desatenção ou ao desejo de preservar o colega do espaço ao lado nas sextas-feiras, o senador José Sarney, ao contrário do que suspeitam alguns leitores.

Deveu-se à mais pura incredulidade. Mesmo no Brasil, onde as mais exóticas jabuticabas florescem impávidas, parecia impossível que o que antigamente chamávamos de "Casa das Leis" caísse na clandestinidade. Caiu.

O que há mais para dizer sobre um caso dessas proporções? Xingar a mãe? A Direção de Redação proíbe. Arrancar os cabelos? São tão poucos que já nem dá para agarrá-los. Produzir o enésimo libelo? Justo, mas sempre haverá alguém a dizer que se trata de "moralismo udenista", o que é uma baita tolice, mas aparece, sim, senhor.

O fato é que o Senado se tornou, sim, um aparelho clandestino, controlado por altos funcionários, ante a omissão e/ou conivência dos senadores. Já nem sei se cabe usar a muleta "com as exceções de praxe", porque os pais da pátria parecem empenhados em destruir o lugar-comum segundo o qual toda regra tem exceções.

Senadores despreparados e/ou omissos dependem de funcionários preparados para entender as regras, os regulamentos, o regimento, as entranhas da Casa. São obrigados a depender de tais funcionários até para os atos legais, inclusive os mais comezinhos. Imagine então como é fácil praticar atos ilegais ou clandestinos -ou ambos ao mesmo tempo.

O pior é que não tem saída, porque a saída depende dos próprios senadores, cúmplices, por ação ou omissão, do aparelho clandestino que era uma Casa de Leis.

PT submete Estados a interesses do PMDB nas eleições de 2010

José Alberto Bombig
Da Reportagem Local
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Plataforma de corrente hegemônica dentro da sigla defende enquadramento de petistas que contrariem aliados de Dilma

Proposta da CNB de formar palanques unitários esbarra nas intenções políticas de líderes do partido em SP, RJ, RS, MG, PE e PR

A proposta da corrente hegemônica do PT para comandar o partido na sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva formaliza a submissão dos Estados aos interesses da pré-candidatura Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto e define o PMDB como principal "força de centro" a ser conquistada.

"A base da unidade é a o entendimento da centralidade da eleição da companheira Dilma. Ela deve subordinar todas as esferas da disputa e orientar todos os movimentos políticos do PT da mesma forma que a eleição de Lula submetia todas as nossas ações", diz trecho da plataforma da CNB (Construindo um Novo Brasil) a que a Folha teve acesso.

Na prática, significa que, caso prevaleça a hegemonia da corrente, conforme ocorre no partido há pelo menos uma década, a nova direção trabalhará para "enquadrar" as pré-candidaturas petistas nos Estados que contrariam o interesse de eventuais aliados de Dilma, especialmente o PMDB, na eleição para o Planalto.

As eleições internas do PT estão marcadas para dezembro deste ano. José Eduardo Dutra, ex-senador (SE) e presidente da BR Distribuidora (subsidiária da Petrobras), é o nome da CNB para comandar o partido.

"A construção de palanques estaduais unitários é uma exigência desse objetivo, independentemente de o PT estar na cabeça de chapa", diz outro trecho da tese da corrente, que, até o dia 18, estará aberta para receber emendas e sugestões.

O documento, tratado em sigilo no partido, também deixa claro qual deverá ser a sigla prioritária no que diz respeito às alianças: "A continuidade do nosso projeto político em 2010 está vinculada à capacidade de solidificar um bloco de esquerda progressista no país. Dependerá também da capacidade de agregar forças políticas de centro, principalmente o PMDB".

É justamente no desejo de contar com os peemedebistas e aliados de outros partidos em torno de Dilma, ministra da Casa Civil, que esbarra o projeto de alguns líderes petistas, entre eles nomes do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, de Pernambuco, do Paraná e de São Paulo.

Nesses Estados, a chapa da CNB para a direção nacional do PT já estuda subordinar suas pré-candidaturas majoritárias (governos e Senado) aos aliados.

Historicamente, ações nesse sentido causaram fissuras e traumas no PT, como o ocorrido em 1998, quando a direção nacional proibiu Vladimir Palmeira de concorrer ao governo do Rio em troca do apoio do PDT à candidatura Lula.

"Muitas vezes, é mais importante você ter um petista no Senado para garantir uma governabilidade à nossa candidata em caso de vitória", afirmou Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula e um dos membros da CNB.

Em outras correntes, no entanto, a proposta é rechaçada. "Não consigo entender. Por que o PMDB exigiria que o PT não tenha candidato em dez Estados? Em nome de quê isso? Não tem cabimento de argumento", disse Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre (RS), da corrente Mensagem ao Partido, que ainda estuda lançar uma chapa para presidir o PT.

O deputado federal André Vargas (PR), da CNB, diz acreditar que todo o partido estará unido.
"Hoje, a maioria tem a compreensão de que a candidatura Dilma é mais importante, tanto que os congressos estaduais do PT serão feitos depois do congresso nacional no ano que vem", disse.

A aliança entre produzir e pensar

Ubiratan Brasil
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO – Caderno 2

Em O Artífice, o sociólogo americano Richard Sennett revela a harmonia primordial entre a mão e a mente

Fazer é pensar. A partir desse pressuposto, o sociólogo americano Richard Sennett estrutura, em O Artífice (tradução de Clóvis Marques), a instigante ideia de que o trabalho manual não industrializado, no passado e no presente, sempre esteve e está conectado a valores éticos. Com isso, desenvolve o raciocínio de que é possível cada um aprender sobre si mesmo através do ato de produzir.

Professor da London School of Economics e um dos mais importantes especialistas da atualidade em temas como classes e cidades, Sennett estuda, com impressionante agudez, o conjunto de transformações sociais ocorridas ao longo dos últimos séculos. O espaço urbano é o ambiente ideal para sua pesquisa, que busca compreender como funciona a sociedade contemporânea. Resultam daí obras como Carne e Pedra, A Corrosão do Caráter, Autoridade e A Cultura do Novo Capitalismo.

Neste O Artífice, Sennett expande o conceito de "artesanato", uma vez que entende o trabalho manual como o melhor termômetro para as reações de satisfação e frustração provocadas pelo desejo de fazer as coisas da melhor maneira possível. Para ele, artesanato está presente tanto nas formas mais rudimentares de se executar um trabalho como no exercício de atividades de maior complexidade, como a medicina, a música e a arquitetura.

"Habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho bem feito por si mesmo", escreve Sennett na apresentação do livro, no qual revela ainda que este é o primeiro de três volumes dedicados à cultura material - o segundo vai abordar a elaboração de rituais para enfrentar a agressão e o fanatismo, enquanto o terceiro pretende explorar as aptidões necessárias para criar e habitar ambientes sustentáveis.

No livro ora lançado no Brasil, o sociólogo parte de um argumento surgido no século 19, quando escritores como John Ruskin e William Morris lamentaram o desaparecimento do artesanato como prática de trabalho, suplantado pelos processos industriais. De Hegel e Marx até uma professora bastante especial de Sennett, ninguém menos do que Hanna Arendt (1906-1975) - uma das pensadoras de língua alemã mais influentes no século 20 -, muitos simpatizaram com a ideia de que o trabalho manual é uma das qualidades do bom cidadão. Daí a certeza de Sennett de que o artesanato não é uma arte extinta, mas que migrou para outros empreendimentos humanos, especialmente aqueles que necessitam de uma forma delicada de cooperação. Ou seja, o esforço que antes era utilizado na construção de uma catedral agora permite o surgimento de sofisticados programas de computador.

O homem iluminista talvez seja, no entender de Sennett, o símbolo do artífice perfeito. E o pensador francês Denis Diderot desponta como exemplo revelador: com os 35 volumes da Enciclopédia, publicados entre 1751 e 1772, ele ensina os leitores a criar abelhas, produzir cidra e curar tabaco. "A Enciclopédia buscava arrancar os leitores de si mesmos e conduzi-los às vidas dos artífices artesanais para em seguida esclarecer a natureza do bom trabalho propriamente dito", escreve.

Sennett observa que o primeiro encontro da modernidade com a força das máquinas gerou uma cultura densa e contraditória. "As máquinas recheavam aquela cornucópia de produtos que começaram a se formar antes. Materialmente mais bem-dotado, o Iluminismo idealizava agora os seres humanos como capazes de se autoafirmar, a ponto de descartar a submissão à tradição", observa. E, mais adiante, conclui: "Uma sólida avaliação da maquinaria é necessária em qualquer boa prática artesanal. Fazer as coisas direito - seja na perfeição funcional ou mecânica - não deve ser uma alternativa quando não nos esclarecer sobre nós mesmos."

A mão e a mente estão intimamente associados: a harmonia entre ambos serve para Sennett relacionar homem e máquina, consciência material e experiência de longo prazo (segundo seus cálculos, são necessárias cerca de 10 mil horas para alguém atingir a mestria em uma atividade). E a unidade entre a mente e o corpo do artífice pode ser encontrada na linguagem expressiva que orienta a ação física. Assim, o ato de cozinhar um frango ou de planejar construções são formas de pensar por meio do fazer, permitindo reconfigurar o mundo material através de um longo processo de metamorfose.

Os perigos do "pior já passou"

Yoshiaki Nakano
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Se houver uma reversão prematura das políticas monetária e fiscal, novas crises poderão ocorrer
A MAIOR PARTE das economias apresenta hoje sinais de que o pior já passou. Houve desaceleração no ritmo de deterioração econômica nos EUA e na Europa, e retomada do crescimento, ainda que em ritmo muito menor, na China e na Índia. No Brasil, os indicadores são ainda ambíguos. Estamos entrando em um momento perigoso, com o surgimento da sensação de que o pior já passou, o que pode levar ao relaxamento e à reversão nas ações de políticas anticrise, ou ao retorno das práticas financeiras que desencadearam a própria crise.

Além do mais, não há ainda informações suficientes para crer que tenhamos passado o ponto de inflexão nas citadas economias e iniciado uma recuperação duradoura. Muito menos que a crise financeira esteja se resolvendo. Nesse quadro, novas crises ou deteriorações tanto financeiras como econômicas poderão ocorrer, pois a sensação de otimismo infundado fortalecerá os grupos que se opõem, ideologicamente, às medidas intervencionistas dos governos, forçando a reversão prematura das políticas monetária e fiscal.

Em resposta à crise, os governos injetaram trilhões de dólares de recursos fiscais. O crescente déficit e o endividamento público já começaram a pressionar a taxa de juros. Nos EUA, o Estado é hoje dono de empresas-símbolo como a GM, dos principais bancos, da maior seguradora e das duas maiores e mais importantes instituições de crédito imobiliário. Isso fere os valores de um cidadão típico americano e tem forte oposição ideológica dos republicanos. Num país onde há forte consciência tributária, a sensação de que o pior já passou pode levar a população a pressionar para que esses programas de socorro sejam interrompidos -e os recursos injetados sejam recuperados pelo Tesouro.

Os bancos centrais, para evitarem o colapso do sistema financeiro, provocaram forte expansão monetária em todo o mundo. Nos EUA, a base monetária chegou a se expandir em mais de 350%. Assim, se depois de iniciada a recuperação não houver o recolhimento rápido dessa injeção monetária, a inflação certamente retornará. Com a sensação de que o pior já passou, não faltarão pressões para que a política monetária se torne contracionista. Se as políticas monetária e fiscal forem revertidas e se tornarem contracionistas, poderemos assistir a um novo agravamento do setor real das economias. Isso aconteceu em 1936 nos EUA, em plena crise de 30, levando sua economia à profunda depressão.

Aconteceu também em 1997, na crise financeira japonesa dos anos 90.

Podemos ter uma nova crise financeira dentro da crise atual, causada pelas próprias reações dos governos. Com a injeção de trilhões de dólares pelos BCs, com as taxas de juros muito baixas e com a sensação de calma, o mercado já volta a especular com algumas moedas e nas Bolsas dos países emergentes. Isso poderá resultar em novas bolhas e em novas crises dentro da crise.

Só com a reestruturação do sistema financeiro, de modo que se evitem os excessos das últimas décadas, com a redução dos desequilíbrios globais e com a definição de novas ondas de inovação e de investimentos, a economia mundial iniciará a verdadeira retomada do crescimento.

Yoshiaki Nakano , 64, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV, foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).

A notícia vive

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

Tudo está se movendo ao mesmo tempo no mundo da transmissão da notícia. Tanto que nem sei por onde começar esta coluna. A “Newsweek” numa edição recente avisou que aquele era o primeiro número de uma nova revista, reformulada diante do fato de que “a internet está fazendo muito bem o trabalho de dar notícias e análises instantâneas”. O que sobra para um veículo lento como uma revista?

A “Newsweek” acha que sobra o espaço de reportagens exclusivas e grandes ensaios que tenham um argumento claro e inédito.

A revista fechou editorias, somou outras, foi obrigada a se reinventar.

No artigo “Uma nova revista para um mundo em mudança”, a publicação começa dizendo que “não é segredo que o negócio do jornalismo está com problemas”.

A “Economist” publicou que 70 jornais fecharam na Inglaterra desde o começo de 2008. O “Independent” depende hoje de investidores estrangeiros.

Os jornais franceses estão sendo subsidiados. Todd Gitlin, professor de jornalismo da Columbia, divulgou um texto online sobre “As muitas crises do jornalismo ”,dizendo que quatro lobos estão às portas da imprensa americana: a queda da receita de anúncios, a queda da circulação, a difusão da atenção do leitor, e uma crise de autoridade. A soma dos dois primeiros acabou com a lucratividade das empresas.

O “New York Times” teve um prejuízo tão grande neste começo de ano que apressou as providências para, de um lado se livrar do que mais arruína seu balanço, o “Boston Globe”, e, de outro, encontrar novas formas de receita com o conteúdo que produz.

Está em dúvida sobre um novo sistema de assinatura, micropagamentos por conteúdo acessado, pedidos de doação, qualquer coisa que aumente suas receitas.

Desde 2001, a circulação dos jornais americanos caiu 13,5% nos dias úteis e 17% nos domingos, sendo cinco pontos percentuais dessa queda só no ano passado. A receita de anúncio caiu 23% em dois anos e o emprego caiu 15%. Foram fechados escritórios em vários estados e países. Um mapamúndi que assinalava todos os locais onde o “Washington Post” tinha correspondentes ou escritórios foi retirado da redação do jornal americano.

Era constrangedor o sumiço diário de pontos do mapa.

A crise que atingiu todos os setores da economia bateu também nas empresas jornalísticas, mas o fato é que a mídia convencional já vinha sendo desafiada por todas as novas formas de transmitir a notícia.

As três maiores redes de TV aberta dos Estados Unidos — ABC, CBS e NBC — sempre tiveram pouca audiência diante das TVs pagas, mas de 1990 para cá, o percentual de americanos que se informa nas redes abertas caiu de 30% para 16%. A Pew Research Center, que tem registrado as estatísticas da audiência de notícia no rádio, TV e jornais, constatou em 2008, pela primeira vez, mais gente recebendo informação via internet do que nas plataformas tradicionais. Apesar disso, quando se pergunta quem só recebe informação online, o dado é de apenas 5%. O mais alarmante da pesquisa foi o aumento de 25% para 34% dos americanos de 18 a 24 anos que não tinham recebido notícia alguma, em qualquer dos veículos, no dia anterior.

Não sou dos que temem as mudanças como um sinal dos tempos. Não é a notícia que está em crise, é a tecnologia que tem ampliado espaços, revolucionado conceitos, criado novas ferramentas para se fazer o que sempre foi feito na humanidade: informar, discutir, analisar.

A imprensa tem vivido num vértice de mudanças intensas, e a sensação de quem vive no mundo da informação é que ele nunca mudou tanto em tão pouco tempo.

O Google News não tem um único editor humano.

Seu processo de escolher e distribuir informação é feito por robôs. Arianna Huffington é dona de um dos maiores casos de sucesso da internet, o “Huffington Post”, que reúne 3.000 blogs e tem o dobro de visitantes que o website do “New York Post”. Outro dia, ao receber o premio webby (o Grammy da Internet), ela fez um discurso, de poucos toques, como requer os tempos de twitter: “Obrigada. Eu não matei os jornais”.

Desde que a “Economist” publicou, a n o s atrás, uma célebre capa com o título: “Quem matou os jornais?”, os grandes jornais investiram em versões online, aderiram aos blogs e twitter, optaram por não cobrar por conteúdo, depois passaram a cobrar, voltaram a liberar o acesso, agora introduziram sistemas mistos, com textos de livre acesso e outros que exigem assinatura. O “Guardian” é hoje mais lido do que nunca. Por causa da internet, ele tem duas vezes mais leitores fora da Inglaterra do que em seu próprio país.

O fato é que a notícia não morreu nem vai morrer.

Na verdade, ela nunca circulou tanto, nem encontrou fórmulas tão instantâneas de espalhar-se como agora. O que ainda não ficou claro é como as empresas serão sustentáveis financeiramente. A receita de publicidade na internet cresce menos do que a queda da receita dos veículos tradicionais.

Muitas respostas terão que ser encontradas pelas empresas e pelos jornalistas para os desafiadores tempos novos. Não resta alternativa a não ser seguir o turbilhão. Afinal, quem não gosta de novidade, jornalista não é.