sábado, 28 de novembro de 2009

Reflexão do dia – Píer Luigi Bersani

"Somos o Partido da alternativa; prefiro dizer assim porque a ideia de alternativa contém certamente o conceito de oposição mas nem sempre o conceito de oposição contém o de alternativa".

(Pier Luigi Bersani, presidente do Partido Democrático da Itália, Assembleia Nacional do PD)

Marco Aurélio Nogueira :: O PT à esquerda

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Circula nos ambientes políticos a informação de que o PT pretende retomar um discurso de esquerda para as próximas eleições, fato que estaria a ser demonstrado por recentes declarações e documentos do partido.

Antes de saudar o fato, que pode contribuir para que se ganhe maior clareza no jogo político, é preciso avaliar a situação. O que indica ela? A presença de um movimento para enquadrar Lula, seu governo e sua candidata à sucessão, que carregam uma imagem centrista e moderada bem consolidada? Ou o desencadeamento de uma operação para reerguer o partido e voltar a inseri-lo nos trilhos originais, de onde escapou nos últimos anos?

Enquadrar Lula é algo de que não se deveria cogitar, pois ele se tornou, com o tempo, maior que o PT. Hoje segue carreira-solo, administrada por um seleto grupo de gestores leais e por uma imponente onda de culto e adoração popular, que impede até mesmo o exercício da ponderação, proíbe críticas e lhe concede oxigênio suficiente para dispensar maiores amarras e compromissos institucionais, incluindo os partidários. Seria como imaginar, mutatis mutandis, o enquadramento de um Fidel, um Jânio ou um Prestes.

Mas partidos de esquerda são seres condenados a explicar e justificar todos os seus passos. Nesse movimento, são sistematicamente tentados a reiterar convicções de antes, com as quais foram batizados e ganharam selo de identidade. Vivem de forma dilemática: precisam renovar-se sempre, mas não conseguem fazer isso com facilidade, pois as tradições pesam e muitos de seus integrantes se recusam a seguir as novas orientações, regra geral decididas e impostas pelas cúpulas.

Dá-se algo assim com o PT, que desde o final dos anos 1990 enveredou por um caminho reformista, expulsou parte de suas alas tidas como "radicais", chegou à Presidência da República e se converteu em expoente do universo social-democrata. Ao longo desse percurso, muitos erros foram cometidos, espocaram crises de identidade, diluições ideológicas e regressões fundamentalistas. Seria lógico, portanto, que suas direções se dedicassem a evitar a debandada dos militantes e eleitores saudosos dos velhos tempos, tanto quanto a atrair e soldar a adesão de novos seguidores.

A retomada de um discurso de esquerda pode ser vista como uma resposta a essa situação, uma estratégia direcionada mais ao público interno ampliado (militantes e eleitores) do que à sociedade. É como se as cúpulas partidárias estivessem a dizer: "Continuamos de esquerda, não nos abandonem, não esmoreçam!" - num apelo para que não se multipliquem eventuais fugas rumo ao PSOL ou à candidatura de Marina Silva, por exemplo.

É isso, mas não é somente isso. O PT também deseja se fazer presente nas campanhas de 2010, orientar seus candidatos, dar a eles combustível, recursos de combate e persuasão. Está a se movimentar para isso.

Se pensarmos em termos abstratos, típico-ideais, um partido cumpre essa meta em dois planos: olhando para as amplas massas e para o futuro.

No primeiro deles, elabora um kit de sobrevivência, um conjunto de princípios essenciais traduzidos em expressões simbolicamente eloquentes e de fácil manuseio, estilo Estado x mercado, projeto popular e democrático x projeto do Consenso de Washington, governo nacionalista e internacionalista x governo entreguista, o nosso Brasil x o Brasil deles, e assim por diante. É nesse plano que se apresentam as realizações governamentais, as virtudes do líder e de seus sucessores, os planos sórdidos dos adversários. A intenção, aqui, é organizar um guia para a ação e, acima de tudo, formar opinião. Sim, porque os eleitores precisam de formadores de opinião, mesmo quando são de esquerda.

No segundo plano, o partido elabora uma teoria da sociedade e da transformação social que julga a ela corresponder, determinando o lugar que ele próprio, o partido, e seu entorno ocupam nesse processo. É um plano sofisticado, que requer uma análise do mundo, a definição de estratégias de longo prazo e das alianças fundamentais, o reconhecimento claro dos obstáculos e das possibilidades concretas de mudança. Nele a simplificação não tem lugar e a agitação deve ser substituída pela argumentação.

Na dimensão típico-ideal, esses dois planos caminham juntos, retroalimentam-se. O partido fala para as massas com um discurso sustentado pela tradução criteriosa de uma teoria social consistente, que é corrigida e ajustada à medida que se obtém o feedback da sociedade.

Salvo avaliação mais aprofundada, o que parece estar a ocorrer no Brasil expressa uma disjunção desses dois planos, com uma concentração unilateral no primeiro deles. O PT está esquentando as turbinas para oferecer a seu "povo" o empuxo necessário para uma ação vitoriosa em 2010. Está a produzir armas de combate, agitação e identificação. Como seria mesmo de esperar.

Não há por que alguém ficar surpreso ou incomodado com isso, que é política em estado bruto, igualmente praticada pelos demais partidos. Os puros de espírito, as almas mais sensíveis poderão torcer o nariz para as acusações infundadas, os autoelogios extremados e passionais, as manobras exclusivamente para prejudicar inimigos e adversários. Terão de entender que política também é feita disso.

É feita disso, mas não só disso. Se o PT se julga ou pretende ser um partido de esquerda de fato, não pode permanecer estacionado no plano da agitação, do discurso fácil para as massas. Precisa ir além e acoplar a esse plano um segundo plano, de elaboração teórica, produção cultural e projeção do futuro, como, de resto, se espera que façam todos os demais partidos. Sem isso ficará no meio do caminho e não se completará como partido de esquerda. Poderá até ter sucesso e vencer em 2010, mas não contribuirá para integrar a sociedade, convencê-la da necessidade de uma reforma social e fornecer-lhe algo mais denso e duradouro do que um sonho para sonhar.

Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política da Unesp.

Merval Pereira:: Insensatez

DEU EM O GLOBO

A sensata posição do presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz Carlos Árias, de apoiar a eleição presidencial em Honduras que se realiza amanhã como a melhor saída para a crise institucional em que se envolveu aquele país desde que o presidente eleito, Manuel Zelaya, foi deposto do poder, cinco meses atrás, é um alento para a democracia na região e um corte na tentativa bolivariana, endossada pelo governo brasileiro, de reduzir à volta de Zelaya ao poder a possibilidade de a democracia sair vitoriosa.

Não há dúvida de que ambos os lados em disputa cometeram erros que levaram à crise, o presidente eleito seguindo a norma chavista, disseminada na América Latina, de alterar a Constituição através de plebiscito para tentar permanecer no poder.

O governo em exercício, considerado golpista pelo Brasil, Venezuela e vários outros países da região, por não ter respeitado as normas legais até os últimos detalhes para tirar Zelaya do cargo.
Houve um processo legal em que tanto a Suprema Corte quanto o Congresso atuaram dentro do previsto na Constituição, e o então presidente teve oportunidade de defender seus pontos de vista, que não foram aceitos.

Mesmo a prisão decretada do presidente está prevista na Constituição, por traição à Pátria, caracterizada pela tentativa de alterar uma cláusula pétrea constitucional através do abuso do poder presidencial.

Mas a deportação de Zelaya para o exterior, à força das armas de militares do Exército, foi uma clara exorbitância extra-legal que manchou o processo de deposição do presidente.

De lá para cá, Manuel Zelaya, com a ajuda do presidente venezuelano Hugo Chávez, tentou mobilizar a população hondurenha para retornar ao governo, mas pelo visto não tem a força que imaginava.

Retornou ao país clandestinamente, em uma operação acompanhada pessoalmente por Chávez, e fez-se "hóspede" do governo brasileiro na embaixada em Tegucigalpa, que o aceitou não como asilado político, mas como "abrigado", numa tentativa de criar um fato consumado para o governo de fato.

A tentativa não deu certo e Zelaya vai ficando cada vez mais isolado dentro de seu próprio país, que caminha para encontrar nas urnas a solução para o impasse político em que se encontra.

Se o ex-presidente da Câmara e presidente em exercício Roberto Micheletti tentasse permanecer no poder em vez de realizar as eleições que estavam previstas na Constituição, estaria caracterizado o golpe.

Como as eleições se realizarão aparentemente dentro da legalidade, o mais sensato é aceitar as peculiaridades da situação e pelo menos tentar que, através de eleições, o país retorne à normalidade.

Como se sabe, uma democracia não depende apenas da realização de eleições, e os constantes plebiscitos em diversos países da região mostram claramente isso.

Será preciso a garantia das liberdades individuais, da liberdade de imprensa, o funcionamento independente dos poderes Legislativo e Judiciário para que se caracterize a volta da democracia ao país.

O presidente da Costa Rica, Carlos Árias, chama a atenção para o fato de que as eleições de domingo devem ser monitoradas por organismos internacionais e ONGs para que não haja dúvidas sobre sua legalidade.

A partir daí, o novo governo vai precisar do apoio dos países da região, inclusive o Brasil, e dos órgãos internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) para conseguir que o país supere a crise institucional que vive.

O governo dos Estados Unidos evoluiu em sua posição inicial para aceitar o resultado das eleições de amanhã mesmo sem o retorno de Zelaya ao poder, uma condição que ainda permanece ponto de honra para o Brasil, a Venezuela e a maioria dos países da região.

Mas já existem defecções nessa posição rígida, com Colômbia, Peru, Panamá e agora Costa Rica caminhando para endossar a posição dos Estados Unidos, que continua sendo a referência geopolítica da região.

A intransigência do governo brasileiro, em vez de ser uma defesa de princípios democráticos como querem fazer crer o Presidente Lula e o chanceler Celso Amorim, não passa de uma tentativa desesperada de manter o controle político da situação, e de impor uma posição ideológica, que define democracia como melhor convém a seus parceiros.

Não seria preciso nem mesmo lembrar que o governo brasileiro apoia a ditadura de Cuba sem exigir nenhum tipo de compromisso democrático do aliado.

E nem ressaltar que o Ministro da Justiça teve a pachorra de afirmar, para justificar o refúgio dado a Cesare Battisti, que o governo democrático italiano era "fascista" e não oferecia garantias à integridade pessoal do terrorista, condenado por nada menos que quatro assassinatos.

Os pesos diferentes podem ser constatados aqui mesmo na América Latina, onde o governo brasileiro não vê nada demais na ação do presidente da Nicarágua Daniel Ortega, que alterou diretamente na Suprema Corte a Constituição para poder se reeleger, e vê uma conspiração política na decisão da Suprema Corte de Honduras de manter as acusações contra o ex-presidente Manuel Zelaya.

As reiteradas manifestações antidemocráticas do governo de Hugo Chávez na Venezuela, com o cerceamento da liberdade de expressão, a intervenção na economia, a manipulação de instrumentos democráticos como o plebiscito para ferir a própria democracia, a perseguição aos adversários políticos, a interferência nos outros poderes para controlá-los, tudo é desculpado pelo governo brasileiro, e o presidente Lula chega a dizer que na Venezuela existe mesmo é democracia demais.

Mas para o caso de Honduras não há uma flexibilidade que permita sair do impasse. O Brasil fica na estranha situação de torcer para que haja uma convulsão social em Honduras para provar que sua posição é a correta.

Dora Kramer:: Fora de hora e de lugar

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Durante um ano e meio um grupo de sete juristas, todos especialistas em direito administrativo, preparou a convite do Ministério do Planejamento uma proposta de reformulação e atualização das normas que regem a administração pública.

A ideia seria organizar o setor de forma abrangente, incluindo os órgãos de fiscalização e controle, mas não só eles, adaptando à realidade e aos avanços da tecnologia uma legislação cuja base é de 1967 e os detalhes uma mistura nem sempre bem ordenada de regras superpostas de acordo com o entendimento dos governos que se sucederam nesses 42 anos.

Tudo caminhava dentro dos conformes e das balizas técnicas para o exame final da proposta na Casa Civil, Advocacia-Geral da União, Corregedoria-Geral da União e Ministério do Planejamento antes do envio ao Congresso, quando o presidente Luiz Inácio da Silva contaminou o processo.

No afã de afastar da ministra Dilma Rousseff a responsabilidade pelos resultados minguados do PAC, Lula comprou uma briga com o Tribunal de Contas da União, acusando-o de extrapolar na fiscalização e atrasar as obras.

Resultado: estabeleceu-se o conflito e, na primeira passada de olhos que os ministros de TCU deram no projeto, enxergaram nele uma tentativa de retaliação.

Um exemplo típico de como o debate eleitoral feito fora de hora e no lugar inadequado pode contrariar os interesses do próprio governo. Claro, os técnicos e os ministros que agora tentam amenizar o prejuízo não põem as coisas nesses termos.

Trabalham como podem. O ministro-chefe da AGU defende os órgãos de fiscalização dizendo que o presidente está mal assessorado, o ministro das Relações Institucionais corre para declarar que o controle não é "vilão" e o Ministério do Planejamento reúne os juristas autores do projeto para, no início de dezembro, explicarem a proposta aos ministros do TCU e os técnicos esclarecem.

Nada disso seria necessário se o presidente da República não confundisse o ato de governar com a missão de agitar eleitoralmente o ambiente.

Mas como desfazer o malfeito?

Tentando redirecionar o debate, mudando o discurso, explicando que a proposta ainda está em aberto, que são aceitas sugestões e, principalmente, que o objetivo não é subtrair prerrogativas de fiscalização, mas organizar um setor obsoleto.

Os dois pontos da discórdia são os seguintes: a instituição da fiscalização das obras depois de prontas como regra geral, à exceção de casos em que houver suspeita e, portanto, necessidade de auditorias no curso da execução; e uma alteração nos procedimentos em relação a entidades de direito privado.

O segundo item foi visto como uma tentativa de liberar os convênios de repasses de verbas da fiscalização. Segundo o secretário de gestão do Ministério do Planejamento, Marcelo Viana, os contratos e a aplicação do dinheiro continuam sob controle.

"O que muda é que os órgãos têm exigido dessas entidades procedimentos típicos do setor público, o que contraria a natureza delas e caracteriza ingerência num ente privado", diz Viana, que ressalva a possibilidade de alterações em todos os tópicos.

"Não é ainda uma proposta de governo. É uma sugestão elaborada por um grupo de especialistas independentes para dar um novo formato à administração pública, atualizando o que pode ser atualizado, acabando com o que não faz mais sentido e inovando no que for possível."

Pois muito bem. Sendo assim tão sóbria a questão, qual a necessidade de o presidente da República e até do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, sócio de Lula nas diatribes ao TCU, azedarem com política o debate?

Perna curta

O ministro Juca Ferreira disse que jornalistas são pagos para mentir. É uma suposição.

Já a mentira contada por ele - que é pago com dinheiro público - no Congresso, quando negou que o Ministério da Cultura tivesse financiado propaganda indevida de deputados, é uma constatação.

De manhã, em audiência no Senado, Juca Ferreira considerou a produção do material "um erro" e assegurou que sua pasta só havia emprestado a assinatura, sem empregar "um tostão" nele.

De tarde, era desmentido em nota do ministério.

Pretexto

O governo dá sinais aqui e ali de que o presidente Lula decidirá pela não-extradição de Cesare Battisti, sob a alegação de que o italiano ainda tem um processo (por uso de passaporte falso) a responder no Brasil.

Extraoficialmente usa o argumento de que a pressão da Itália foi indevida e ofensiva.

Enquanto isso solicita ao ministro Tarso Genro que dê ao mundo a graça do silêncio por um tempo.

Talvez na expectativa de que os italianos esqueçam as declarações recentes do ministro da Justiça sobre o "crescimento do fascismo" naquele país.

Cesar Maia :: Oposição e Federação!

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Críticas sobre a passividade da oposição no Brasil são cada vez mais amplas. Listam-se uma série de desvios do governo Lula e um certo silêncio da oposição no dia a dia do governo.

Exceções escapam apenas uma vez ou outra nos grandes temas. Mas isso, para os críticos, não seria suficiente.

Num regime democrático, o eleitor elege uns para governar e outros para fiscalizar, fazer oposição. Uma oposição passiva reforça tendências autocráticas, com todos os riscos relativos. Nesse sentido, a política europeia é exemplar: não há carência. No dia seguinte à eleição, a oposição, mesmo a que foi governo no dia anterior, inicia sua ação questionadora.

Acua o governo no limite de suas promessas eleitorais e de sua natureza e erros no exercício do poder. No caso do Brasil, há um complicador: o regime federado.

É natural que boa parte dos principais quadros políticos dos partidos sejam os que apoiam o governo federal, ou os partidos de oposição estejam em governos estaduais e municipais. É como se o Executivo fosse o objetivo da carreira política. Natural num país onde a hegemonia do Executivo é cada vez maior.

Um certo imaginário popular e a própria imprensa, ao tempo que cobram uma oposição parlamentar firme, pedem que as relações entre prefeitos, governadores e presidente sejam passivas. A isso chamam colaboração em todos os campos. Ou seja: no nível dos Estados e municípios, a função administrativa deve prevalecer sobre a função política, e não serem instâncias próprias.

A democracia brasileira não consegue conviver com o que é práxis nas democracias desenvolvidas. Aqui as críticas políticas abertas não podem conviver com o entendimento administrativo. É visto como distorção. Com isso, parte dos principais quadros políticos da oposição é esterilizada quando se torna governadores e prefeitos.

E estes terminam por pressionar as suas bases parlamentares em nível federal para que elas tenham "paciência" e evitem o endurecimento.

O resultado não poderia ser outro: o debilitamento da oposição, numa relação híbrida, tendo a Federação de um lado, como amortecedor, e o Parlamento de outro, como acelerador. Talvez por isso o Senado tenha abandonado as suas funções constitucionais de representação da Federação. A democracia é afetada. O fato é que a liderança dos Executivos estaduais e das capitais sobre as suas bancadas acaba por fazer prevalecer a passividade da oposição, não como tática, mas como regra.

Carlos Lessa:: O Rio e a cultura

DEU EM O DIA/RJ

Rio - Com urgência, é necessário que a administração pública da Cidade do Rio de Janeiro remova alguns dos obstáculos que instalou em relação à cultura popular. Por que, onde a calçada permitir, os botequins não podem colocar mesas e cadeiras fora do estabelecimento? Por que botequins e restaurantes não podem contratar música cantada ou instrumental?

Hoje, bares ou restaurantes com música ao vivo são considerados, oficialmente, “estabelecimentos de diversão”. E, na maioria dos quarteirões, é oficialmente proibido o funcionamento de estabelecimentos de diversão.

Por que não converter as feias empenas de edifícios e os muros escalavrados em suportes da atividade plástica de grafiteiros e muralistas populares? Seria possível com poucos recursos e algum incentivo tributário “vestir” o Rio de Janeiro com cores e fazê-lo museu dinâmico, de arte popular, a céu aberto.

Por que não ocupar as praças do Rio nos fins de semana com atividades culturais múltiplas? Teatro infantil, mamulengo, aulas e exposições de fotografias, filmes, artes plásticas, leituras teatralizadas de contos, declamações de poesia, apresentações de múltiplos talentos. A praça seria o espaço, próximo à residência, onde os cariocas interatuariam com os bens culturais.

Creio que tudo isso poderia ter um fecho de ouro com bailes dançantes à luz das estrelas. Com facilidade e pequeno orçamento, o poder público poderia promover a conviviabilidade dos vizinhos com um ambiente multicultural.

Este seria o antídoto da cidade contra a propalada violência. De um Rio de Janeiro de novo na vanguarda cultural do País.

Serra exalta Castanhão e Porto do Pecém

DEU NO DIÁRIO DO NORDESTE (CE)

O presidenciável tucano chegou atrasado ao compromisso com os empresários e evitou falar sobre sucessão

Convidado para ministrar palestra a empresários do Ceará, em comemoração aos 90 anos do Centro Industrial do Ceará (CIC), o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), chegou ao Estado, ontem, sem intenção de responder qualquer questionamento relacionado à campanha presidencial, que ele diz ter sido antecipada pelo PT em todo o País. Serra, porém, tentou alavancar sua imagem citando obras importantes para o Ceará que ele mesmo ajudou a construir quando comandou os ministérios da Saúde e do Planejamento no Governo Fernando Henrique Cardoso.

Em vários momentos, o tucano reafirmou que não está em "ritmo de campanha eleitoral" e que sua visita a Fortaleza não iria ser usada como palanque. "Não tenho intenção de apresentar plataforma de Governo. Não estou focado nisso agora. Acredito que debater isso aqui não é campanha", disse ao final de sua fala aos empresários do CIC.

José Serra tentou desmistificar a ideia de que ele não gosta do Ceará, o que para os tucanos é uma imagem criada pelo PT para alavancar a campanha de Dilma Rousseff (PT) no Estado. "Sou um político nacional”.

Depois da palestra, José Serra concedeu rápida entrevista, que durou pouco mais de cinco minutos, momento em que afirmou não ter visto nenhuma queda relacionada a ele nas pesquisas eleitorais. Embora uma pesquisa CNT/Sensus tenha constatado este fato, no início da semana. "Eu não vi queda. Pesquisa é a fotografia do momento".

Apesar de garantir que não estava adiantando discursos visando planos de gestão nacional, José Serra fez questão de ressaltar vários projetos realizados no Governo de São Paulo que, segundo o tucano, podem ser tomados como exemplo pelo Governo Federal, como a construção de estradas e a renego-ciação de dívidas.

José Serra dividiu sua palestra aos empresários cearenses abordando assuntos ligados à política macroeconômica, financiamento público, obras estruturantes, segurança, saúde e educação. O tucano evitou críticas ao presidente Lula, mas fez comparações entre obras e projetos da atual gestão apontando falhas e sugestões.

Rumo a 2010: Serra diz que é "político nacional"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O governador de São Paulo, José Serra, um dos pré-candidatos tucanos à Presidência, disse no Ceará que é um "político nacional" e lembrou sua gestão como ministro de FHC. O senador Tasso Jereissati (PSDB), que o acompanhava, disse que Lula "inventou" a candidata Dilma Rousseff, que tem mais exposição que Xuxa e Roberto Carlos.

Cebrap celebra sua "epopeia" nos anos 70 e vê presente incerto

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Livro sobre 40 anos da instituição reúne entrevistas com intelectuais e expõe divergências sobre gestões FHC e Lula

Fernando De Barros E Silva

Em maio de 1994, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à Presidência da República, foi à USP para fazer uma conferência a respeito dos "Desafios Teóricos dos Anos 70". Comemorava-se o aniversário de 25 anos do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), do qual o sociólogo havia sido o principal idealizador e um dos fundadores, em 1969.

O sociólogo Francisco de Oliveira, à época eleitor de Lula e então presidente do Cebrap, não gostou nada do que ouviu ali. Achou que o amigo havia misturado a história recente do país com sua própria trajetória intelectual e política, de tal forma que tudo confluía para o colo da sua candidatura.

Chico deixou a sala contrariado e os dois ficariam um bom tempo sem trocar palavras. No ano seguinte, quando FHC iniciava seu voo à frente do país, Chico se desligava do Cebrap.

"Quanto mais Fernando ia para a política, mais Chico insistia em dizer que Fernando estava traindo." São palavras do filósofo José Arthur Giannotti, também fundador do centro, numa das entrevistas do livro "Retrato de Grupo - 40 Anos de Cebrap", que acaba de ser lançado pela Cosac Naify.

Organizada pela atual presidente do Cebrap, Paula Monteiro, e pelo editor da revista "Novos Estudos Cebrap", Flávio Moura, a obra reúne 11 entrevistas com membros ligados à instituição e conta ainda com três ensaios em homenagem a Ruth Cardoso, Cândido Procópio Ferreira de Camargo e Vilmar Faria, já mortos.

Na última terça, durante o lançamento do livro, FHC e Chico de Oliveira voltaram a debater diante de 800 pessoas. Alguns temiam faíscas no palco. Houve, porém, um esforço nítido para deixar as diferenças de lado. O clima foi de camaradagem e de celebração, o oposto daquele visto 15 anos atrás.

Tintas heroicas

Divergências e cumplicidade. Essas duas palavras resumem bem o espírito dessa obra comemorativa a respeito de um capítulo importante da história intelectual (e política) do Brasil. O documentário em DVD que acompanha o livro, dirigido por Henri Gervaiseau, reproduz parte das entrevistas. No filme, fica mais explícita, como se pedisse para ser dramatizada, a construção de uma história coletiva e comum pela fala de cada um dos entrevistados.

O que se ouve e lê nos depoimentos é quase uma epopeia, descrita com tintas algo heroicas e marcada por discernimento intelectual e coragem política quando parecia difícil conciliar esses dois traços. "Você não pode imaginar o que era o Cebrap nos anos 70.

Isso aqui era o paraíso (...). O Cebrap sempre apostou na democracia. Era muito difícil porque você estava sufocado por todos os lados." Essa fala de Chico resume o diagnóstico que é de todos. E os depoimentos tornam evidente que, a despeito do sentimento de grupo, a atuação de FHC funcionou ali como farol da instituição.

Há, sintomaticamente, pouca discussão e análise a respeito dos anos 1980 e 90. É uma espécie de silêncio incômodo diante da impossibilidade de dar sequência à narrativa comum.

O crítico Rodrigo Naves, responsável pela revista do Cebrap entre meados dos anos 80 e dos 90, diz: "A pedra de toque daqui era o desejo de mudar o Brasil. Era, porque houve aqui o canto do cisne dessa vontade de mudar o Brasil".

O ajuste dessa vontade genuína às condições do presente é, talvez, o aspecto mais revelador do livro. Ninguém se entende a respeito do significado histórico dos governos FHC e Lula, nem sobre a relação entre eles. Houve ruptura, diz o economista Paul Singer, "basicamente no campo social". Mesmo as políticas que começaram nos anos FHC "mudaram completamente de ênfase, de dimensão e de efeitos na época do Lula", diz Singer, secretário nacional de Economia Solidária.

"O governo do Lula é pior que o do Fernando Henrique. Lula é uma regressão política, propriamente. O governo do Fernando Henrique era uma virada à direita", acusa Chico. São governos de "atualização capitalista", que "têm pé e cabeça, ao contrário dos anteriores, que não tinham direção", diz o crítico Roberto Schwarz, que, no entanto, defende que o intelectual de esquerda deve guardar distância do poder.

"O que me parece errado é adotar uma visão rósea do curso geral do capitalismo porque o Brasil está com o vento a favor ou porque temos amigos no governo", diz Schwarz. Ter esse discernimento intelectual e manter essa distância da política talvez seja hoje o mais difícil.

Arias pede à comunidade internacional que reconheça eleição hondurenha

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ruth Costas, TEGUCIGALPA

O presidente da Costa Rica, Oscar Arias, mediador das tentativas de acordo entre o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e o governo de facto, pediu ontem que a comunidade internacional reconheça o resultado das eleições presidenciais hondurenhas, caso a votação de domingo ocorra sem incidentes. O pedido é um duro revés para Zelaya, que vê na votação uma forma de legitimar o golpe contra seu governo e defende a abstenção.

Arias foi quem propôs o chamado Acordo de San José numa tentativa de acabar com a crise em Honduras. O principal ponto do pacto era a restituição de Zelaya ao poder, mas ele acabou fracassando e foi substituído pelo Acordo San José-Tegucigalpa, que diz que o Congresso deve se pronunciar sobre o tema, mas não estipula uma data-limite para isso.

Arias segue o conjunto de países dispostos a reconhecer as eleições, que também inclui os EUA, a Colômbia e o Panamá. A comunidade internacional está dividida sobre o tema. Na América Latina, o bloco dos que consideram a votação ilegítima reúne Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Venezuela, Equador e Nicarágua.

Ao sair ontem da reunião do Conselho de Defesa da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em Quito, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que as eleições convocadas em Honduras refletem "um enfraquecimento" da Organização dos Estados Americanos (OEA). "Esse enfraquecimento é uma razão a mais para que se trabalhe em organismos como a Unasul", afirmou Amorim.

A divisão, porém, também se estende aos países do bloco sul-americano. Ontem, o presidente do Equador, Rafael Correa, disse que a Unasul não reconhecerá as eleições hondurenhas. "A decisão está tomada", afirmou Correa.

Peru e Colômbia, que também fazem parte da Unasul, não concordaram. "Se vamos reconhecer as eleições? Por que não?", disse o chanceler peruano, José García Belaúnde. "Todos os países de América Latina saíram de ditaduras por meio de processos eleitorais conduzidos por governos que não eram democráticos."

Candidato favorito acena com aproximação com o Brasil

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

""Pepe"" Lobo diz que se for eleito pedirá ao governo brasileiro que revise sua decisão de não reconhecer votação

Ruth Costas, TEGUCIGALPA

O candidato favorito nas eleições hondurenhas, Porfírio "Pepe" Lobo, tentou ontem fazer um aceno ao governo brasileiro, que se recusa a reconhecer a votação de domingo. Lobo disse que, ser for eleito, uma de suas primeiras medidas será entrar em contato com o Brasil para pedir uma revisão de sua decisão de não reconhecer as eleições hondurenhas. "O Brasil é um país estratégico", afirmou ontem, numa entrevista para a imprensa estrangeira. "Vou procurar o presidente Lula para que ele reflita sobre sua posição."

O candidato também disse ter muita admiração pelo governo brasileiro e citou o caso do programa Bolsa-Família e a "política de investimentos sociais com responsabilidade fiscal". Ao ser questionado sobre se tinha em Lula um modelo, ele respondeu que considera o brasileiro "um bom presidente" e gosta do modo "como ele lida com as coisas".

Isso, obviamente, não se estende à posição brasileira no que diz respeito às eleições. A votação hondurenha dividiu a comunidade internacional entre aqueles que se dispuseram a aceitar seu resultado como a solução para a crise e os que não a reconhecem. O Brasil rompeu relações diplomáticas com Honduras após o golpe que destituiu o presidente Manuel Zelaya, em junho, e acredita que a votação de domingo legitimará esse movimento.

"Pepe" Lobo pertence ao Partido Nacional, de direita, e tem 37% das intenções de voto, segundo pesquisa do instituto Gallup. Em segundo lugar, com 21%, está Elvin Santos, do Partido Liberal, o mesmo de Zelaya e do presidente de facto, Roberto Micheletti.

Lobo, de 61 anos, foi presidente do Congresso de 2002 a 2006 e deputado por mais de 10 anos. Formado em administração pela Universidade de Miami, nos EUA, ele vem de uma família tradicional de políticos, com negócios no setor agropecuário. Em 2005, perdeu a eleição para Zelaya, apesar de ter obtido 46% dos votos.

Nas últimas semanas, Lobo vem tentando se afastar da figura do governo de facto e da polêmica sobre o golpe. "Sou de oposição. Não me importa Zelaya ou Micheletti - quero tirar os dois daí", afirmou ontem. "Meu interesse é que a situação em Honduras volte à normalidade."

O candidato disse que, se vencer as eleições, está disposto a impulsionar um diálogo nacional por meio de negociações das quais Zelaya também participaria, mas se recusou a dizer se daria uma anistia ao presidente deposto ou mesmo se é a favor de sua restituição pelo Congresso depois da eleição. Sua maior preocupação agora é com a aceitação do resultado da votação pela comunidade internacional. "Vou bater até na porta do rei da Espanha se for necessário", disse, ao ser questionado sobre o tema por jornalistas europeus.

Isolado, Zelaya já admite se exilar

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Líder deposto estuda pedir asilo à Nicarágua após fim de mandato

Ruth Costas, TEGUCIGALPA

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, já pensa na possibilidade de sair da embaixada brasileira para exilar-se. A informação foi dada ao Estado por uma fonte próxima de Zelaya, que pediu anonimato.

A saída - que parece a alternativa mais provável caso não haja avanço na solução do impasse hondurenho - ocorreria em 27 de janeiro, quando termina o mandato de Zelaya e ele se torna uma espécie de "peso morto" na representação brasileira.

Segundo a fonte, entre os países que poderiam receber Zelaya está a Nicarágua - governada pelo esquerdista Daniel Ortega. O Brasil, por enquanto, não é cogitado, ainda segundo a fonte, "provavelmente por ser um país distante e caro".

À medida que as eleições gerais se aproximam, Zelaya está cada vez mais isolado. O governo de facto continua ameaçando os zelaystas o que, juntamente com a lembrança da violenta repressão dos últimos protestos, está levando muitos deles a desistir de sair às ruas.

Em entrevista ao Estado, o presidente deposto demonstrou um grande desapontamento com o fato de os EUA e outros países estarem dispostos a reconhecer as eleições - o que, na prática, legitima o golpe que o tirou do poder. "Essa manobra antidemocrática serve para encobrir os autores do golpe", afirmou Zelaya. Ontem, até o presidente da Costa Rica, Oscar Arias, mediador da crise, disse que aceitará a votação.

DESÂNIMO

Em Tegucigalpa, as manifestações de apoio a Zelaya nos últimos dias têm sido esporádicas. A Universidade Nacional Autônoma de Honduras foi tomada na quinta-feira por estudantes, numa tentativa de impedir a colocação de urnas no local.

Mas com muitos pontos da capital repletos de militares, simpatizantes de Zelaya não demonstravam muito empenho para organizar um grande protesto para amanhã.

Pelo contrário. O jornal El Libertador, zelaysta, trazia na capa um apelo do Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos em Honduras (Codeh) para que a população não saia de casa no dia da votação. Segundo o Codeh, há "provas do funcionamento de centros de concentração paramilitares que planejam um massacre de mais de mil pessoas no domingo".

"Um líder da resistência foi morto no Departamento del Valle na segunda-feira e todos estamos recebendo ameaças", denunciou Eulógio Chávez, líder da associação de professores e membro da Resistência Democrática, que defende Zelaya.

Com relação às eleições, o presidente deposto preferiu não se manifestar a favor de nenhum partido, mas mesmo assim acabou envolvido na disputa. O esquerdista Partido Unificação Democrática, cuja plataforma também inclui a reforma da Constituição, rompeu com Zelaya para manter suas candidaturas, pois acreditava que o contrário poderia significar sua "morte política".

Dentro da embaixada, o número de simpatizantes de Zelaya é cada vez menor. Quando ele pediu abrigo, em 21 de setembro, estava acompanhado por 70 pessoas. No dia seguinte, havia 300 zelaystas no local. Hoje, há apenas 23 pessoas, segundo encarregado de negócios Francisco Catunda Resende.

A redução do número de "hóspedes" é resultado, em parte, dos esforços feitos por representantes brasileiros, que pretendiam melhorar as condições dentro da embaixada e aplacar as críticas de que o local estaria servindo de palanque político para o presidente deposto. "De fato, as condições estão muito melhores e boa parte das pessoas já está conseguindo dormir em sofás ou colchões infláveis", disse Catunda.

Os serviços administrativos e consulares estão sendo feitos na casa de Catunda. Com a eleição de um novo presidente em uma votação não reconhecida pelo Brasil, há incertezas sobre o que acontecerá com a embaixada brasileira. A princípio, o Brasil não deve manter relações diplomáticas com o novo governo. Segundo rumores, uma das possibilidades é que a embaixada seja fechada ou transformada em consulado ou escritório de interesses, para atender aos cerca de 500 brasileiros que vivem no país.

Mujica fará governo de alianças, diz analista

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Eleição de amanhã, à qual o ex-guerrilheiro chega como favorito, encerra o período de "carta branca" para a Frente Ampla

Para o pesquisador Óscar Bottinelli, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle perdeu o status de grande estadista durante a atual campanha

Silvana Arantes
Enviada especial a Montevidéu

A eleição presidencial no Uruguai, que realiza amanhã o segundo turno entre o candidato de esquerda José Mujica (Frente Ampla) e o de centro-direita Luis Alberto Lacalle (Partido Nacional), manterá a coalizão de esquerda no poder, mas remodelará o jogo de forças partidário.

A opinião é do analista político Óscar Bottinelli. "Mujica fará um governo mais normal em termos de negociação política do que foi o de Tabaré Vázquez [atual presidente], que teve carta branca da coalizão", diz.

O analista é também professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade da República e diretor do instituto de pesquisas Factum. Segundo levantamento do instituto, Mujica será eleito com 51% dos votos, contra 42% de Lacalle.

O respaldo partidário ao presidente é fundamental no Uruguai, onde vigora o sistema "semiparlamentar", como assinala Bottinelli. O mandatário depende do aval do Congresso para designar ministros e dirigentes das empresas estatais.

Vázquez governou enquanto a Frente Ampla tinha maioria absoluta no Parlamento e apoiou sem condições suas escolhas. Bottinelli estima que, embora Mujica tenha tomado de Vázquez a presidência do partido, não desfrutará da mesma "carta branca" e terá de compor com diversos setores do partido, inclusive o de seu vice, Danilo Astori, derrotado por Mujica nas primárias.

A Frente Ampla voltou a garantir maioria parlamentar nas eleições de 25 de outubro. Embora vitorioso, o partido governista teve votação menor do que na eleição anterior, tendo caído de 52 deputados para 50. O professor vê nessa queda "a expressão da discordância de parte do eleitorado com o governo". Um dos fatores de desgaste da gestão Vázquez seria sua "nula capacidade para negociar com a oposição", diz.

EstadistaA mensagem que os eleitores enviaram ao candidato opositor foi mais dura. Lacalle, que foi presidente entre 1990 e 1995, "perdeu a imagem de maior estadista uruguaio em atividade, que tinha antes da eleição", avalia Bottinelli.

Além de encolher -de 34% dos votos na eleição de 2004 para 29% no primeiro turno neste ano-, o Partido Nacional viu seu mais tradicional rival, o Partido Colorado, "que parecia destinado ao desaparecimento", conforme diz Bottinelli, emergir fortalecido das urnas. Os colorados subiram de 10 para 17 em número de representantes no Parlamento.

"Na segunda-feira, é provável que o Partido Nacional entre numa fase de dificuldades internas grandes e questionamento à liderança de Lacalle", diz o analista. Se confirmada sua derrota na disputa presidencial, Lacalle assumirá como senador, acumulando a presidência de seu partido.

Ontem, os candidatos passaram o dia descansando. Há veto à propaganda eleitoral às vésperas da eleição. Para hoje, preveem encontro com a imprensa estrangeira. Lacalle se reúne também com observadores internacionais do pleito.

Paul Krugman: Tributar os especuladores

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Um imposto sobre transações financeiras não resolveria todos os problemas, mas teria ajudado a prevenir a atual crise

SERÁ QUE deveríamos usar impostos para reprimir a especulação financeira? Sim, dizem as principais autoridades encarregadas de fiscalizar a City de Londres. Outros governos europeus concordam -e eles estão certos.

Infelizmente, as autoridades econômicas dos EUA se opõem frontalmente à proposta. Seria de esperar que reconsiderem: um tributo sobre as transações financeiras é uma ideia cuja hora, enfim, chegou.

A disputa surgiu em agosto, quando Adair Turner, o principal encarregado da regulamentação financeira no Reino Unido, apelou por um imposto sobre transações financeiras de maneira a desencorajar atividades "socialmente inúteis". Gordon Brown, o premiê britânico, decidiu encampar a proposta.

Por que a ideia é boa? A proposta de Turner e Brown é uma versão moderna de um conceito proposto originalmente em 1972 por James Tobin, economista da Universidade Yale e ganhador do Nobel de Economia. Tobin argumentava que a especulação cambial -dinheiro movimentado internacionalmente para a realização de apostas quanto a taxas de câmbio- estava exercendo efeito perturbador sobre a economia mundial. Para reduzir as perturbações, ele apelou por um pequeno imposto sobre cada transação cambial.

Um tributo como esse representaria despesa trivial para as partes envolvidas em comércio internacional ou investimento em longo prazo, mas representaria forte desincentivo aos agentes que estivessem tentando ganhar dinheiro rápido ao adivinhar os movimentos do mercado em prazo de alguns dias ou semanas. O imposto, como afirmou Tobin, "jogaria areia no bem lubrificado mecanismo da especulação".

O principal argumento oferecido pelos oponentes de um imposto sobre transações financeiras é que ele seria impraticável, porque os operadores sempre encontrariam uma maneira de evitá-lo. Há quem alegue que o imposto tampouco faria muito para impedir o comportamento daninho que causou a atual crise.

Quanto à alegação de que é impossível tributar transações financeiras: os modernos mercados são instituições altamente centralizadas.

Embora os operadores possam estar espalhados, a maioria das transações é liquidada -ou seja, paga- em uma instituição em Londres. Essa centralização serve para manter baixo o custo das transações, exatamente o fator que torna a especulação pesada possível. Mas também tornaria mais fácil identificar e tributar as transações em questão.

E quanto à alegação de que um imposto sobre as transações financeiras não estaria resolvendo o verdadeiro problema? É verdade que não teria impedido as instituições financeiras de realizar maus empréstimos, ou os investidores crédulos, de adquirir lixo tóxico lastrado por eles.

Mas os maus investimentos não são toda a história, na atual crise. O que transformou esses maus investimentos em catástrofe foi a excessiva dependência do sistema financeiro quanto a dinheiro de curto prazo.

Por volta de 2007, o sistema bancário dos EUA havia se tornado dependente de transações conhecidas como "repo", sob as quais instituições financeiras vendem ativos a investidores, mas prometem recomprá-los em curto prazo. Os prejuízos com os empréstimos hipotecários de risco ("subprime") e outros ativos deflagraram uma crise bancária porque solaparam esse sistema -houve "corrida aos "repo"".

E o imposto sobre transações financeiras, ao desencorajar a dependência de financiamento em prazo ultracurto, teria tornado uma corrida como essa menos provável. Assim, um imposto como esse teria ajudado a prevenir a atual crise -e pode nos ajudar a impedir uma futura repetição.

Será que um imposto Tobin resolveria todos os nossos problemas? Não. Mas poderia ser parte do processo de encolhimento de nosso inchado sistema financeiro. Quanto a isso, o governo Obama precisa libertar sua mente do jugo de Wall Street.

Paul Krugman , economista, é colunista do "New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA).

Brasil se abstém na condenação do Irã

DEU EM O GLOBO

A Agência Internacional de Energia Atômica aprovou, com apoio de 25 dos 35 países votantes, uma condenação ao programa nuclear do Irã, exigindo que o país interrompa a construção de usina nuclear considerada suspeita. Até Rússia e China, aliados do Irã, endossaram o texto; o Brasil se absteve. O embaixador na AIEA, José Guerreiro, justificou: “Ninguém faz concessão sob pressão.”

Irã isolado, mas não pelo Brasil

Agência da ONU censura programa nuclear, faz exigências e remete caso ao Conselho de Segurança

Os representantes dos 35 países da Agência Internacional de Energia Atômica da ONU se reúnem: forte censura ao Irã


VIENA

OIrã recebeu uma forte censura da imensa maioria da diretoria da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU, que aprovou uma firme resolução de rechaço ao programa nuclear do país. Ao todo, 25 dos 35 países votaram a favor de exigir a interrupção da construção de usinas nucleares suspeitas de produzir armas atômicas, e de mandar o assunto para o Conselho de Segurança da ONU, com o apoio irrestrito de antigos aliados do Irã, como Rússia e China. Um dos poucos países a não aprovar a medida foi o Brasil, que se uniu a países como Venezuela, Cuba e Paquistão.

Na resolução, a AIEA faz um relato das várias violações que o Irã cometeu nos últimos anos em seu programa nuclear, frisando o fato de o país ter, secretamente, iniciado a construção da usina de Forlow, na cidade de Qom, só revelada em setembro. O documento exige a "suspensão imediata" das obras da usina (que estão em fase final); "esclarecimentos em relação ao propósito" dela; e garantias oficiais de que o país não tem outra usina ou material atômico não declarado.

- O fato de que 25 países de todas as partes do mundo votaram a favor (da censura) mostra a necessidade urgente de o Irã atender ao crescente déficit de confiança internacional sobre suas intenções - afirmou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. - Se o Irã se recusar, será responsável por seu crescente isolamento e pelas consequências.

O premier britânico, Gordon Brown, afirmou ontem que o Conselho deverá aprovar "sanções mais duras" ao Irã.

Teerã reagiu imediatamente.

- Resoluções da AIEA nem do Conselho de Segurança nem sanções ou ameaças de ataques militares poderão interromper as atividades nucleares pacíficas no Irã, nem por um segundo - disse o representante iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh.

Saltou aos olhos o apoio de Rússia e China, países com fortes ligações comerciais e diplomáticas com o Irã. A China não apenas apoiou a resolução como foi responsável por parte de sua redação. Em fevereiro de 2006, a AIEA aprovou sua última resolução contra o Irã, iniciando quatro etapas de sanções da ONU. Naquela vez, China e Rússia não apoiaram a resolução.

Grupo não-alinhado racha ao meio

A aprovação não foi unânime. Três países votaram contra: Venezuela, Cuba e Malásia. O Brasil se uniu a Afeganistão, Egito, Paquistão, África do Sul e Turquia e se absteve. O Azerbaijão faltou à votação.

O governo brasileiro, que recebeu o presidente Ahmadinejad esta semana, tem apoiado o Irã seguidas vezes. O Brasil reconheceu a eleição presidencial fraudada de junho, e o presidente Lula chegou a comparar a repressão à população a uma briga de torcidas.

Defendendo a abstenção, o Itamaraty disse que o Brasil defende o direito ao desenvolvimento de tecnologia nuclear civil, mas não seu uso bélico: "Na recente visita do presidente Ahmadinejad, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou esse direito do Irã. Isso não quer dizer que o Brasil apoie países que intentem desenvolver a tecnologia para fins armamentistas."

O Irã costuma receber apoio dos países que pertencem ao Movimento dos Não-Alinhados, mas, desta vez, o grupo rachou na AIEA. Índia, Quênia, Peru, Camarões, Burkina Fasso e Mongólia votaram a favor da resolução. Egito, Paquistão e África do Sul se abstiveram e três votaram contra.

Dois fatores levaram ao resultado. Serviços de inteligência descobriram que o Irã tem um programa de enriquecimento de urânio mais avançado do que afirma, e desenvolve sistemas capazes de lançar bombas nucleares.

O segundo foi a revelação de que o país está construindo a usina de Fordow. Técnicos da AIEA dizem que Fordow é pequena demais para gerar eletricidade, mas pode produzir bombas. E, como está feita, exige a existência de outra usina, que estaria escondida.

Miriam Leitão:: Fiascos externos

DEU EM O GLOBO

A semana foi de fiascos para a política externa. Foi quebrada uma regra diplomática básica na resposta à carta do presidente americano, Barack Obama. A cúpula Amazônica com o presidente francês fracassou. O presidente Ahmadinejad recebeu aval ao seu programa nuclear, quando a Agência de Energia Atômica aprovou um voto contra o Irã pelos indícios de que o programa não é pacífico.

Quando um chefe de Estado escreve carta a outro, a resposta não pode ser dada por uma pessoa de terceiro escalão. Elementar. Marco Aurélio Garcia, o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, respondeu em público à carta de Barack Obama e ainda dizendo desaforos. Um espanto. Esse tipo de grosseria só se faz em diplomacia quando, deliberadamente, se quer demonstrar desprezo ao outro. Não há razão alguma para fazer isso com o missivista, mesmo que dele se discorde.

- O Barão de Rio Branco deve estar se revirando no túmulo pela quebra das boas tradições diplomáticas e pela crescente influência partidária e ideológica no Itamaraty - disse o ex-embaixador nos Estados Unidos Rubens Barbosa ao blog (http://www.miriamleitao.com.br/).

Descortesia tem hora na diplomacia. Ela precisa significar alguma coisa. No caso das críticas feitas pelo secretário Marco Aurélio ao conteúdo da carta do presidente Barack Obama, foi apenas mais um ato desastrado dos muitos cometidos nos últimos anos de diplomacia improvisada. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tentou reduzir o estrago no dia seguinte recolocando a questão em termos um pouco diferentes. Valeu o esforço, mas esse tipo de erro já virou rotina no governo Lula, que convive há sete anos com essa distorção de um secretário internacional que se comporta como se fosse ele o ministro.

A visita do presidente do Irã provocou grande controvérsia, porque ele é uma pessoa que suscita esse tipo de reação extremada, mas é natural que o Brasil receba visitas de chefes de Estado de países com os quais mantém relação. Quando a figura é um Ahmadinejad, tudo tem que ser bem pesado e medido para não parecer que ele recebe aval justamente naquilo que o mundo combate.

O programa nuclear do Irã está sob suspeição de autoridades internacionais, porque são inúmeros os indícios de que ele não é pacífico. As instalações subterrâneas em Qom, que o país construiu escondido e que foram descobertas em setembro, podem estar sendo usadas para fazer urânio altamente enriquecido. A partir de um determinado nível de enriquecimento, o urânio não é para fins pacíficos e sim para a construção de armas nucleares. Com tudo tão obscuro e ainda sob investigação, o presidente Lula deveria ter evitado o tema. Foi uma imposição do visitante?


Se foi, fica comprovado que o Brasil foi usado para o propósito dele. Foi a troca pelo apoio do Irã à cadeira o conselho de segurança da ONU? Se for isso, é um tiro pela culatra, porque mostra a ingenuidade do Brasil e não sua capacidade de conviver com contrários, como se queria demonstrar. O final de qualquer dúvida vem com a resolução da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) condenando, com os votos da Rússia e China, o programa que Lula endossou. E o Brasil se absteve na votação! Não se entra no Conselho de Segurança sendo ambíguo na questão nuclear.

A cúpula Amazônica com o presidente francês, tão próximo de Copenhague, foi uma boa ideia, mas alguma coisa deu muito errado na execução. Numa Manaus enfumaçada por queimadas na floresta, três presidentes esperaram os outros que desmarcaram na última hora. Foram tantos os ausentes, que não se pode imaginar que tenha sido coincidência. Deve ser a primeira vez, em anos, em que Álvaro Uribe e Hugo Chávez fazem o mesmo gesto.

O caso de Honduras é mais complicado. O Brasil tem defendido uma causa nobre da forma errada. Numa região que foi assolada por golpes de Estado, o Brasil está do lado certo condenando o governo Roberto Micheletti e chamando de golpe o que nunca teve mesmo outro nome. Mas o presidente deposto Manuel Zelaya também cometeu seus erros ao investir contra as regras constitucionais e os poderes hondurenhos. Isso não legitima o que foi feito, mas deveria ajudar o Brasil a relativizar o apoio absoluto dado a um político que, claramente, divide o país e que usou a embaixada brasileira em Honduras como comitê político num claro abuso do refúgio dado a ele.

Zelaya não é a encarnação da democracia hondurenha. Ele é o presidente eleito, num mandato que já está chegando ao fim, de um país que se encaminha para uma eleição. O mais sensato seria ajudar Honduras a sair do impasse, e não ser parte do impasse. A eleição de domingo pode ou não ser essa saída. O que os países amigos e instituições internacionais deveriam fazer é ajudar a fiscalizar a eleição para garantir um processo legítimo e democrático; e depois fazer um esforço diplomático para um governo de reconciliação que anistie Zelaya para que ele saia da embaixada brasileira e tenha uma vida normal.

A intransigência do Brasil virou ofensa aos Estados Unidos com a acusação de que o governo americano está defendendo "golpe preventivo". O Brasil pediu o adiamento das eleições há duas semanas do pleito, e os Estados Unidos não concordaram. O governo Barack Obama nunca fez a defesa do golpismo em Honduras. De novo, uma agressão intempestiva.

Rio Branco deve estar se revirando mesmo. Nada do que a diplomacia brasileira tem feito nos últimos anos - improvisos, quebras de protocolo e decisões ideológicas - faz parte da tradição do Itamaraty.