sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Reflexão do dia- Hannah Arendt

“Só existe uma diferença essencial entre Hegel e Marx, embora, verdade seja dita, de importância catastrófica: Hegel projetou a sua visão histórico-mundial exclusivamente para o passado e deixou a sua consumação esbater-se no presente, ao passo que Marx,”profeticamente”, projetou-a, ao contrário, para o futuro e compreendeu o presente como um simples trampolim”.


(Hannah Arendt, no livro “A Promessa da Política”, pág. 118 – DIFEL, Rio de Janeiro, 2008)

Aécio desiste de pré-candidatura à presidência pelo PSDB

Desistência, anunciada ao lado do presidente do partido, abre o caminho para a candidatura de José Serra

Eduardo Kattah, de O Estado de S.Paulo

BELO HORIZONTE - O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, anunciou na tarde desta quinta-feira, 17, a desistência de sua pré-candidatura à Presidência da República pelo PSDB. A decisão abre o caminho para a consolidação da candidatura do governador paulista, José Serra, que evitou comentar a retirada.

Acompanhado do presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra (PE), do secretário-geral, deputado Rodrigo de Castro e do vice-governador Antonio Anastasia, Aécio leu uma carta que foi entregue a Guerra numa reunião realizada nesta manhã, em Belo Horizonte. Em conversas após o anúncio, o senador pernambucano disse ser "improvável" a possibilidade de uma chapa puro sangue, com Serra como candidato e Aécio como vice. Para setores da oposição, essa seria a melhor fórmula para derrotar a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff. A ministra-chefe da Casa Civil é a favorita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sua sucessão.

"Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar com meu esforço e minha lealdade para a construção das bandeiras da Social Democracia Brasileira", diz o texto lido pelo governador mineiro.

Aécio havia estipulado o início de janeiro como prazo final do anuncio de sua candidatura ao Senado, mas vinha dando sinais de que a desistência já seria um fato consumado. Há pouco mais de uma semana, o governador mineiro chegou a dizer que anteciparia a decisão após uma conversa com o colega paulista.

Segundo Sérgio Guerra, "o caminho mais provável" agora é que Aécio Neves dispute o Senado. O presidente do PSDB disse, no entanto, que este assunto não foi discutido no encontro que teve nesta quinta com o governador mineiro.

Embora Serra negue que seja pré-candidato à Presidência, o governador paulista aparece como favorito à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva em todas as pesquisas eleitorais.

Leia a íntegra da carta em que Aécio anuncia desistência

estadao.com.br

BELO HORIZONTE - O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, anunciou na tarde desta quinta-feira, 17, a desistência de sua pré-candidatura à Presidência da República pelo PSDB, abrindo o caminho para a consolidação da candidatura do seu colega paulista, José Serra.

Leia abaixo a carta de desistência lida aos jornalistas pelo governador.

"Belo Horizonte, 17 de dezembro de 2009.

Presidente Sérgio Guerra,
Companheiros do PSDB,

Há alguns meses, estimulado por inúmeros companheiros e importantes lideranças da nossa sociedade, aceitei colocar meu nome à disposição do nosso partido como pré-candidato à Presidência da República.

Como parte desse processo, defendi a realização de prévias e encontros regionais que pudessem levar o PSDB a fortalecer a sua identidade e integridade partidárias.

Assim o fiz, alimentado pela crença na necessidade e possibilidade de construirmos um novo projeto para o país e um novo projeto de País.

Defendi as prévias como importante processo de revitalização da nossa prática política. Não as realizamos, como propus, seja por dificuldades operacionais de um partido de dimensão nacional, seja pela legítima opção da direção partidária pela busca de outras formas de decisão. Ainda assim, acredito que teria sido uma extraordinária oportunidade de aprofundar o debate interno, criar um sentido novo de solidariedade, comprometimento e mobilização, que nos seriam fundamentais nas circunstâncias políticas que marcarão as eleições do ano que vem.

A realização dos encontros regionais foi uma importante conquista desse processo. O reencontro e a retomada do diálogo com a nossa militância, em diversas cidades e regiões brasileiras, representaram os nossos mais valiosos momentos. A eles se somaram outros encontros, também sinalizadores dos nossos sonhos, com trabalhadores, empresários e outros setores da nossa sociedade.

Ouvindo-os e debatendo, confirmei a percepção de um País maduro para vivenciar um novo ciclo de sua história. Pronto para conquistar uma inédita e necessária convergência nacional em torno dos enormes desafios que distanciam nossas regiões umas das outras, e em torno das grandes tarefas que temos o dever de cumprir e que perpassam governos e diferentes gerações de brasileiros.

Ao apresentar o meu nome, o fiz com a convicção, partilhada por vários companheiros, de que poderia contribuir para uma construção política diferente, com um perfil de alianças mais amplo do que aquele que se insinua no horizonte de 2010. E as declarações de líderes de diversos partidos nacionais demonstraram que esse era um caminho possível, inclusive para algumas importantes legendas fora do nosso campo.

Defendemos um projeto nacional mais amplo, generoso e democrático o suficiente para abrigar diferentes correntes do pensamento nacional. E, assim, oferecer ao país uma proposta reformadora e transformadora da realidade que, inclusive, supere e ultrapasse o antagonismo entre o "nós e eles", que tanto atraso tem legado ao País.

Devemos estar preparados para responder à autoritária armadilha do confronto plebiscitário e ao discurso que perigosamente tenta dividir o País ao meio, entre bons e maus, entre ricos e pobres. Nossa tarefa não é dividir, é aproximar. E só aproximaremos os brasileiros uns dos outros, através da diminuição das diferenças que nos separam.

O que me propunha tentar oferecer de novo ao nosso projeto, no entanto, estava irremediavelmente ligado ao tempo da política, que, como sabemos, tem dinâmica própria. E se não podemos controlá-lo, não podemos, tampouco, ser reféns dele...

Sempre tive consciência de que uma construção com essa dimensão e complexidade não poderia ser realizada às vésperas das eleições. Quando, em 28 de outubro, sinalizei o final do ano como último prazo para algumas decisões, simplesmente constatava que, a partir deste momento, o quadro eleitoral estaria começando a avançar em um ritmo e direção próprios, e a minha participação não poderia mais colaborar para a ampla convergência que buscava construir.

Durante todo esse período, atuei no sentido de buscar o fortalecimento do PSDB.

Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar, com meu esforço e minha lealdade, para a construção das bandeiras da Social Democracia Brasileira.

Busco contribuir, dessa forma, para que o PSDB e nossos aliados possam, da maneira que compreenderem mais apropriada, com serenidade e sem tensões, construir o caminho que nos levará à vitória em 2010.

No curso dessa jornada, mantive intactos e jamais me descuidei dos grandes compromissos que assumi com Minas, razão e causa a que tenho dedicado toda minha vida pública.

Ao deixar a condição de pré-candidato à Presidência da República, permito-me novas reflexões, ao lado dos mineiros, sobre o futuro.

Independente de nova missão política que porventura possa vir a receber, continuarei trabalhando para ser merecedor da confiança e das melhores esperanças dos que partilharam conosco, neste período, uma nova visão sobre o Brasil.

É meu compromisso levar adiante a defesa intransigente das reformas e inovações que juntos realizamos em Minas e que entendemos como um caminho possível também para o País.

Continuarei defendendo as reformas constitucionais e da gestão pública, aguardadas há décadas; a refundação do pacto federativo, com justa distribuição de direitos e deveres; e a transformação das políticas públicas essenciais, como saúde, educação e segurança, em políticas de Estado, acima, portanto, do interesse dos governos e dos partidos.

Devo aqui muitos agradecimentos públicos.

À direção do meu partido e, em especial, ao senador Sérgio Guerra pelo equilíbrio e firmeza com que vem conduzindo esse processo.

Aos companheiros do PSDB, pelas inúmeras demonstrações de apoio e confiança.

Manifesto a minha renovada disposição de estar ao lado de todos e de cada um que julgar que a minha presença política possa contribuir, seja no plano nacional ou nos planos estaduais, para a defesa das nossas bandeiras.

Aos líderes de outras legendas partidárias, pela coragem com que emprestaram substantivo apoio não só ao meu nome, mas às novas propostas e crenças que defendemos nesse período.

Nos reencontraremos no futuro.

A tantos brasileiros, pelo respeito com que receberam nossas ideias.

E a Minas, sempre a Minas e aos mineiros, pela incomparável solidariedade.

Aécio Neves"

João Bosco Rabello:: Decisivo, Aécio pode ser vice com mais poder

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A decisão do governador Aécio Neves encerra o primeiro capítulo da sucessão presidencial no PSDB, em favor da candidatura do governador José Serra à sucessão de Lula, mas não põe fim ao suspense que acompanha a novela.

Aécio não anunciou na carta o passo seguinte, o que mantém a possibilidade de vir a disputar uma vaga ao Senado por Minas. Mas é inegável que a desistência anunciada ontem abre caminho para a chapa puro-sangue tão sonhada pelos tucanos e em relação à qual o DEM não tem mais poder de contestação.

Ele sai forte do páreo e pode negociar sua presença numa chapa com José Serra, de forma a não ser um vice decorativo, com papel meramente coadjuvante. Há inclusive antiga proposta no partido pela qual ele teria um ou mais ministérios sob seu comando, garantindo a visibilidade para ser o candidato à sucessão de 2014.

Influiu para que Aécio antecipasse esse anúncio o atrito entre o PMDB e o presidente Lula. Com uma definição mais clara de sua estratégia, o PSDB se coloca como alternativa de aliança para o PMDB, o que, no mínimo, cria dificuldades para a candidata do governo, Dilma Rousseff.

Aécio constatou que chegara ao limite na estratégia de protelar ao máximo sua decisão, sem prejudicar o PSDB. Além dos fatores já mencionados, a posição de pré-candidato começava a ser ameaçada pelo timing de qualquer campanha: ele precisaria começar a se movimentar como candidato se decidisse levar adiante a empreitada.

Embora a crítica de Aécio ao partido, por ter desconsiderado sua proposta de realização de prévias, tenha sido interpretada como um sinal de que não pensa em compor com Serra, a lógica política indica o contrário.

Uma chapa Serra-Aécio, na avaliação de todos os políticos, seria a única opção com chance de enfrentar a popularidade do presidente Lula, transferida para a sua candidata Dilma Rousseff. "Imbatível", é como os tucanos e o Democratas a saúdam constantemente.

De fato, uma composição com o DEM, mesmo se o governador do DF, José Roberto Arruda, estivesse no melhor dos mundos, reforçaria a estratégia de campanha da candidatura oficial de fazer da eleição de 2010 um plebiscito para escolher entre os governos Fernando Henrique e Lula. Já uma chapa puro-sangue, torna o apoio do DEM compulsório e evita o desgaste de uma busca explícita por um vice cujo perfil o parceiro de ontem já não dispõe. E que já não convém.

Aécio e Serra sabem que a campanha não poderá ser contra o presidente Lula. Sua popularidade e o sentimento do eleitor de que deve ao seu governo uma vida mais confortável, de maior poder de compra, de lazer e consumo não recomendam confrontos.

Por isso, a estratégia de postergar o quanto possível o anúncio oficial da candidatura, para que o debate se dê com Dilma Rousseff e que se abra a chance de o eleitor escolher qual dos candidatos têm melhor capacidade de assegurar esse benefícios em continuidade à gestão Lula.

Restará sempre a dúvida sobre o comportamento dos tucanos. Foi estratégia a disputa entre Aécio e José Serra? O acompanhado conflito entre ambos teve o propósito de dar mais visibilidade aos dois políticos, mantendo-os candidatos, sem no entanto sê-los?

Mesmo que não se possa responder positivamente a essa questão, o fato é que, até aqui, todos ganharam. O governador Aécio Neves deixa o figurino de candidato com 15% nas pesquisas, cinco vezes mais do que tinha ao admitir a candidatura. Fica forte com a renúncia, algo que os mineiros sabem fazer como ninguém. Aumenta seu trunfo junto a Serra, e está forte em Minas. Pode impor as condições para aceitar compor uma chapa como vice.

Nas contas dos tucanos, a chapa puro-sangue pode capturar os 35 milhões de votos das regiões Sul e Sudeste e viabilizar uma reversão de expectativas no Nordeste, onde Lula é absoluto nas pesquisas que medem a aprovação de seu governo.

Para Serra, há um efeito colateral do gesto de Aécio, que não chega a ser inadministrável: ainda que continue uma possibilidade, a chapa puro-sangue ganhou contornos mais nítidos, ficou mais próxima da realidade política, o que torna o governador de São Paulo mais candidato do que antes. E, por consequência, vira alvo antes do tempo que escolheu para oficializar sua candidatura.

Seja qual for a estratégia de Aécio, há uma dinâmica própria no processo em curso no PSDB, que pode tornar irreversível a chapa puro-sangue. O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) dá bem o tom da euforia do partido, ao dizer que a chapa Serra-Aécio é perfeita: "Aécio é o nosso fator de sedução", diz.

Desistência de Aécio Neves movimenta bastidores do PSDB

O governador de São Paulo, José Serra, que é viciado confesso em Twitter, ainda não se manifestou

Daiene Cardoso, da Agência Estado

SÃO PAULO - A desistência do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, de disputar o Palácio do Planalto pelo PSDB nas eleições do ano que vem já começa a movimentar os bastidores tucanos. Minutos após o anúncio oficial, em Belo Horizonte, alguns integrantes da legenda comentavam a decisão do governador. Quem se pronunciou, preferiu adotar um discurso que pregava a união dos correligionários em torno de um projeto para 2010.

No Twitter, rede de microblogs, o senador e ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo repercutiu com serenidade a desistência do colega de partido. "Aécio retira pré-candidatura à Presidência. Acredito que ele será Presidente da República em outro momento. PSDB seguirá unido em 2010."

Marconi Perillo, senador por Goiás, elogiou a postura de Aécio: "Aécio é um grande governador, tem um futuro promissor pela frente e é umas das maiores esperanças do Brasil. Seu gesto só o engrandece", afirmou.

Já o senador Alvaro Dias (PR), se limitou a apenas divulgar a notícia em seu blog. Já o governador de São Paulo, José Serra, que é viciado confesso em Twitter, não se manifestou.

Acompanhado do presidente nacional do partido, Sérgio Guerra, do secretário-geral, deputado Rodrigo de Castro e do vice-governador, Antonio Anastasia, Aécio leu uma carta na tarde desta quinta-feira, 17, em que renunciou ao posto de pré-candidato da legenda à cabeça de chapa que disputará a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições gerais do ano que vem.

"Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar com meu esforço e minha lealdade para a construção das bandeiras da Social Democracia Brasileira", disse o governador mineiro.

Serra deixa evento sem comentar desistência de Aécio Neves

Cerimônia ocorreu praticamente no mesmo instante em que governador mineiro leu a carta de renúncia

Ana Conceição, da Agência Estado

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), não quis comentar, a desistência da pré-candidatura do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, à Presidência da República pelo PSDB em 2010. A desistência abre caminho para Serra ser o único postulante da legenda à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições gerais do ano que vem.

José Serra participou esta tarde da entrega dos prêmios do Programa Nota Fiscal Paulista, na secretaria estadual da Fazenda, na capital paulista. Demonstrando bom humor, o tucano fez um rápido discurso e saiu sem falar com a imprensa. A cerimônia ocorreu praticamente no mesmo instante em que Aécio Neves leu a carta de renúncia da pré-candidatura à Presidência da República em 2010, em Belo Horizonte. Aécio anunciou sua desistência em nome da unidade do partido nas eleições do ano que vem.

Serra não deve antecipar decisão, dizem deputados tucanos

Desistência de Aécio à pré-candidatura à presidência aumenta a especulação de partidos aliados ao PSDB

Denise Madueño e Gustavo Uribe, da Agência Estado

BRASÍLIA - Deputados tucanos afirmaram nesta quinta-feira, 17, que a decisão do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), de anunciar a desistência de sua pré-candidatura à presidência da República não deve alterar a posição do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), de apenas decidir se será candidato ao cargo em março do próximo ano. Arnaldo Madeira (SP) ressaltou que a decisão de Aécio fortalece o partido. "Ele deve mergulhar na política de Minas Gerais com a preocupação em eleger o próximo governador e aumentar a bancada federal", disse. O presidente do PSDB em São Paulo, deputado federal Mendes Thame, assegurou que não tem a menor dúvida de que Serra anunciará sua candidatura à sucessão no Palácio do Planalto apenas no ano que vem.

O parlamentar, que participa da Conferência do Clima, em Copenhague, ressaltou que o anúncio deve ser feito no primeiro trimestre de 2010. "Vai ser no ano que vem. Não tenho a menor dúvida", afirmou. "A probabilidade é de que seja no primeiro trimestre de 2010." Thame ressaltou que a desistência do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, à da pré-candidatura à Presidência da República em 2010, anunciada na tarde de hoje, não deve pressionar Serra a assumir o posto de candidato do partido. O parlamentar afirmou que um anúncio neste momento seria "precipitado" e prejudicaria sua atuação à frente do Palácio dos Bandeirantes. "Na hora em que um governador anuncia que é candidato, a cobrança por fazer a pré-campanha fica insuportável. Prejudica o governo estadual e o Estado. Um workaholic como o Serra ficaria doente", brincou.

O deputado disse que o anúncio do nome tucano que concorrerá à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é uma decisão particular de Serra ou Aécio, mas da legenda como um todo. De acordo com ele, a desistência de Aécio da pré-candidatura e o lançamento do nome de Serra à disputa "são processos diferentes e dissociados". "O anúncio não implica que o PSDB será obrigado a anunciar o Serra como candidato. O momento do anúncio é outro", afirmou.

A desistência de Aécio à pré-candidatura à presidência aumenta a especulação e a expectativa de partidos aliados ao PSDB de uma eventual chapa puro-sangue formada por Serra e Aécio, na vice. Essa chapa reuniria os dois maiores colégios eleitorais do País e teria um cacife maior na disputa à sucessão de Lula. "Vice não é discussão para agora. Essa questão só se dará entre abril e junho do próximo ano", disse Madeira.

Nota do PPS elogia gesto de Aécio

Por: Da redação

Em nota divulgada nesta quinta-feira, o PPS afirma que o gesto do governador de Minas, Aécio Neves, de deixar a disputa interna pela vaga de candidato a presidente da República pelo PSDB inscreve-o "definitivamente na história das lutas democráticas e transformadoras do Brasil, com a coerência de quem descende de um grande estadista como Tancredo Neves". O partido classifica de magnânima a atitude do governador. O texto é assinado pelo presidente do partido, Roberto Freire.

"Nota pública

O PPS (Partido Popular Socialista) reafirma sua convicção de que o governador Aécio Neves (PSDB) é uma das principais lideranças políticas do país, e que sua importância transcende em muito seu estado, Minas Gerais, um dos berços da cidadania e da cultura republicana brasileira.

Aécio, ao retirar seu nome da disputa interna do PSDB, inscreve-se definitivamente na história das lutas democráticas e transformadoras do Brasil, com a coerência de quem descende de um grande estadista como Tancredo Neves.

O PPS entende que este gesto magnânimo, ao contrário de ausentá-lo da cena nacional, coloca-o como a melhor alternativa para compor a chapa oposicionista como postulante a vice-presidente.

Por fim, o PPS se orgulha de contribuir com a gestão de Aécio Neves que está modernizando Minas Gerais e servindo de exemplo de transparência e racionalização no uso do dinheiro público.

Serra: Não somos semeadores da discórdia


DEU EM O GLOBO ONLINE
Nota do governador José Serra, de São Paulo, sobre a desistência de Aécio Neves de concorrer à Presidência da República:

“O governador Aécio Neves tem todas as condições para ser o candidato do nosso partido a presidente, por seu preparo, sua experiência política, sua visão de Brasil e seu desempenho como governador eleito e reeleito de Minas Gerais.

É um homem que soma e que, ao mesmo tempo, sabe conduzir com firmeza as políticas públicas. Não é por menos que seu governo é tão bem avaliado e que a imensa maioria dos mineiros o considera credenciado para ocupar a função mais alta da República”.

“Não me surpreendem a grandeza e despreendimento que ele demonstra neste momento. Os termos em que ele se manifestou confirmam a afinidade de valores e as preocupações que inspiram nossa caminhada política. Faço minhas suas palavras:

“ ‘Defendemos um projeto nacional mais amplo, generoso e democrático o suficiente para abrigar diferentes correntes do pensamento nacional. E, assim, oferecer ao país uma proposta reformadora e transformadora da realidade que, inclusive, supere e ultrapasse o antagonismo entre o 'nós e eles', que tanto atraso tem legado ao País’.”

“Não somos semeadores da discórdia e do ressentimento. Nem estimuladores de disputas de brasileiros contra brasileiros, de classes contra classes, de moradores de uma região contra moradores de outra região. Trabalhamos, ambos, sempre, pela soma, não pela divisão. Somos brasileiros que apostam na construção e não no conflito”.

“Quero reafirmar o sentimento expresso pelo presidente do PSDB, senador Sergio Guerra, no sentido da união e da convergência que nos move, de valores e ideais”.

“Temos o sonho de um País melhor, unido e progressista, com oportunidades iguais para todos. E é nesse sentido que vamos continuar trabalhando. Juntos”.

FH diz que Aécio compreendeu o momento político e diz que ele é 'construtor do futuro'

DEU EM O GLOBO

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elogiou, em nota divulgada nesta quinta-feira, a decisão do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, ao anunciar desistência da pré-candidatura a presidente da República. Para o ex-presidente, o governador mineiro declarou que ele deu "demonstração generosa do momento político". Para FH, Aécio "é um construtor do futuro".

"O gesto do governador Aécio Neves demonstra generosa compreensão do momento político. Não só Minas, mas todo o Brasil vê no governador qualidades de liderança que o credenciam a assumir as mais altas responsabilidades da República. Sua disposição para colaborar, com afinco e lealdade, com o PSDB para preparar o caminho que nos levará à vitória em 2010, fala mais forte do que qualquer outra consideração sobre nossas possibilidades de vitória. Minas é crucial para a construção de um Brasil melhor, e Aécio é um construtor do futuro", disse o ex-presidente.

Merval Pereira:: Fumaça branca

DEU EM O GLOBO

Agora que está definido, pelo menos até março, que o candidato do PSDB à Presidência da República é mesmo o governador de São Paulo, José Serra, as negociações políticas para armar os palanques regionais e as coligações nacionais poderão ser feitas por ele sem qualquer constrangimento, a não ser os legais. “Agora é Dilma contra Serra”, anunciou o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra. Os tucanos terão que testar para valer a atratividade que seu palanque provoca nos partidos que ainda estão na base do governo.

Tomando-se como parâmetro as atuações do presidente Lula e de sua candidata Dilma Rousseff, os limites para a ação de um pré-candidato estão cada vez mais ampliados, e não seria razoável o TSE exigir do précandidato oposicionista um comportamento menos explícito do que o da candidata do governo.

Ficará ao discernimento do próprio Serra a desenvoltura com que se comportará daqui para adiante, e, se mantiver uma postura mais comedida que sua adversária, será apenas por estilo e conveniência política, para marcar a diferença contra o que podem ser considerados abusos do governo no uso da máquina pública a favor de sua candidata.

Ontem mesmo o presidente Lula falou abertamente em Copenhague sobre a candidatura de Dilma, dizendo que ela vencerá a eleição de 2010 porque tem “grande qualidade”, e disse que o trabalho da oposição será muito difícil devido às grandes obras de seu governo, coordenadas por ela.

Fez lá o que faz aqui quase diariamente, andando de cima para baixo com Dilma debaixo de sua asa, sem que o tribunal considere que as leis eleitorais estão sendo burladas.

O governador Serra já estava deixando a cautela de lado para comparecer a programas populares televisivos, e agora poderá intensificar seus encontros políticos sem causar atritos com Aécio.

O governador de Minas, por sua vez, continua sendo uma peça chave para a sucessão presidencial, dependendo de sua influência no estado o sucesso de uma candidatura tucana à Presidência da República.

Nas duas eleições em que disputou o governo de Minas, Aécio venceu no primeiro turno, sendo que na reeleição em 2006 venceu com impressionantes 77% dos votos.

Os candidatos tucanos à Presidência da República não tiveram, no entanto, a mesma contrapartida. Em 2002, quando Aécio venceu com 57,7% dos votos, o candidato Serra teve apenas 22,9%, e, em 2006, Alckmin teve 40,6%.

Em 2002, Serra ainda teve candidatos fortes em Minas, como Garotinho, que teve 14,4%, e Ciro Gomes, com 9,2%. Em 2006, nem isso: Heloisa Helena teve 5,7% e Cristovam Buarque teve 2,7%.

O aumento da votação do candidato tucano na última eleição presidencial teve mais correspondência com a fraqueza eleitoral de seus adversários do que propriamente com o aumento de transferência de votos do governador Aécio Neves. Lula teve o mesmo nível de votação: 53% em 2002 e 50,8 em 2006.

Se a situação atual é mais favorável, pois Dilma não é Lula, há uma diferença fundamental: o candidato a governador não será mais Aécio, mas seu vice, Antônio Anastasia, o que demandará tanto ou mais esforço do governador quanto o que Lula está fazendo para tentar emplacar Dilma.

Ao mesmo tempo, o governador Aécio Neves não pode se descuidar da eleição mineira, não apenas em termos locais, mas também nacionais.

A candidata adversária, tendo nascida em Minas, pretende ressaltar essa característica na campanha eleitoral.

E o PT tem uma estrutura forte no estado e dois candidatos importantes: o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, “o pai” da Bolsa Família, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.

Há ainda a presença forte do PMDB no estado, com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, liderando as pesquisas para o governo.

Mesmo tendo a eleição para o Senado garantida, de nada servirá a Aécio ser um senador de uma bancada minoritária e fraca, com o PT governando o país e seu estado ao mesmo tempo.

Mesmo elegendo o governador, se a candidata oficial vencer a eleição, com votação forte em Minas, o senador Aécio ficará enfraquecido em Brasília, e o Senado deverá continuar sendo presidido pelo PMDB.

Mas a carta de desistência de Aécio tem alguns trechos significativos e, sobretudo, coisas que não foram escritas por razões políticas importantes.

Ele não se referiu a Serra como o candidato natural, embora tenha dado entrevistas dizendo que resolveu antecipar sua decisão por que sentia uma tendência a favor do governador paulista, devido à sua liderança nas pesquisas.

Com isso, deixa aberta a possibilidade de vir a ser o escolhido em março, caso o governador paulista desista de concorrer.

Mas Aécio também não escreveu que não aceitará ser vice-presidente na chapa tucana, embora afirme isso em entrevistas. Poderia tê-lo feito, e aí estaria colocando um obstáculo sério a uma mudança de posição.

As duas situações estão abordadas em trechos da carta.

Quando ele escreve que, apesar de desistir da pré-candidatura, não abandona as convicções e disposição “para colaborar com meu esforço e minha lealdade para a construção das bandeiras da social democracia brasileira”, está se colocando à disposição do partido, o que pode significar que aceitaria ser chamado novamente para disputar a Presidência, ou que pode vir a aceitar compor a chapa como vice-presidente.

Ou simplesmente garantindo que dará o apoio necessário para que o candidato do partido tenha uma boa votação em Minas.

O fato é que a escolha do candidato tucano desta vez está sendo feita aparentemente sem grandes atritos, e a situação política ficou mais clara para a oposição.

Serra estará exposto a chuvas e trovoadas (com trocadilho e tudo) a partir de agora, mesmo à sua revelia.

Dora Kramer:: Roteiro original

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ninguém razoavelmente atento aos fatos pode se dizer surpreso com o anúncio do governador de Minas, Aécio Neves, de que não será candidato a presidente em 2010.

Da mesma forma, ninguém é capaz de afirmar agora com certeza qual será o destino dele: se candidato ao Senado ou a vice na chapa do governador de São Paulo, José Serra.

Essa é uma questão que não interessa ao PSDB resolver neste momento, até porque há prazo suficiente para isso até a convenção do partido em junho.

Ao contrário dos percalços anteriormente previstos, e já vistos em outras épocas de decisões sobre candidaturas entre os tucanos, desta vez o PSDB cumpre o roteiro original, conferindo naturalidade ao processo de indicação do candidato.

Tanto Aécio quanto Serra estão fazendo exatamente o que disseram que fariam, não obstante os lances de efeito que cada um produziu até aqui: o mineiro reforçando seu cacife no mundo político e junto ao seu eleitorado; o paulista disfarçando em público a armação da candidatura que articula meticulosa e ferozmente em privado.

Aécio Neves sempre afirmou que não sairia do PSDB. Não saiu. Disse que se houvesse entendimento não insistiria na realização de prévias. Não insistiu. Avisou que tomaria uma posição em dezembro. Tomou.

Agora só está em aberto a questão do Senado. Pelo histórico, Aécio realmente não aceitará a vaga de vice, pois tem afirmado isso seguidamente. Só que o faz alegando ser mais conveniente ao partido ampliar alianças.

E se, mais à frente, concluir que o mais interessante para o PSDB é a chapa puro-sangue? Não terá mentido. Além disso, para o Senado há um complicador de nome Itamar Franco.

Convidado a entrar no PPS com a garantia de que poderia disputar uma cadeira de senador, Itamar fica praticamente sem chance se Aécio entrar na disputa.

Como há duas vagas em tese a serem divididas entre as duas maiores forças políticas do Estado, PT e PSDB, já que o PMDB deverá ter Hélio Costa como candidato a governador, se Aécio concorrer Itamar será um candidato quase certo à derrota.

A menos que o ex-presidente assuma a vaga de vice na chapa de Serra, o que, pelo menos por ora, está bem distante das cogitações do governador de São Paulo.

No momento sua preferência recai sobre o nome de Aécio.

Mas, como a cada dia a oposição enfrenta uma agonia, a preocupação central de Serra agora é saber como administrar o tempo até o anúncio oficial da candidatura.

Coisa que, apesar da aflição dos aliados, o governador continua disposto a fazer só no prazo originalmente previsto, fim de março, depois de inaugurar o Rodoanel, a linha nova do metrô e completar o prazo legal para a desincompatibilização do cargo.

A rigor, uma mera formalidade, já que o anúncio da "desistência" de Aécio torna desnecessário o ritual da escolha. Como desde o início estava posto, José Serra é o candidato.

Reforço

Antes mesmo de reformulada a redação da sentença do Supremo Tribunal Federal vinculando a decisão do presidente Luiz Inácio da Silva sobre a extradição de Cesare Battisti aos termos do tratado entre Brasil e Itália, o governo italiano já pretendia contestar o presidente no caso da manutenção de Battisti no Brasil.

O STF só deixou mais clara a situação. De todo modo o presidente da República é obrigado a se submeter ao tratado bilateral de extradição sob pena de o Brasil ser denunciado em tribunais internacionais e internamente acusado de crime de responsabilidade por descumprimento de lei federal.

A partir da publicação do acórdão do Supremo o presidente tem 40 dias de prazo (20 prorrogáveis por mais 20) para se pronunciar.

Agenda

Conforme o previsto, a Conferência Nacional de Comunicação virou, mexeu e chegou aonde queria chegar: à retomada da proposta de criação do Conselho Nacional de Jornalismo para dar ao Estado controle sobre as atividades da imprensa.

A boa notícia é que não há a menor chance de o plano prosperar para além das fronteiras do aparelho.

A má é a insistência na discussão do retrocesso. Dá trabalho, custa caro e desqualifica a democracia.

Herança

Descontados os prejuízos futuros contratados pela aprovação da entrada da Venezuela no Mercosul, o maior e único beneficiário é o presidente Lula, que pôde mostrar a Hugo Chávez que controla o Congresso.

Lula cria fatos consumados cujos custos serão mais cedo ou mais tarde cobrados ao País. Como acontece com o aumento dos gastos do poder público e a expansão do tamanho do Estado.

Ele deixa a Presidência no que vem a cavaleiro, pois para todos os efeitos os malefícios serão debitados na incapacidade administrativa e na inabilidade política do sucessor. Ou sucessora.

Fernando de Barros e Silva:: Aécio abre a janela

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O gesto de Aécio Neves transfere uma imensa responsabilidade para cima de José Serra. Pelo seu calendário particular, o governador de São Paulo gostaria de esperar até março, para então abrir a janela e observar se há perspectiva de sol para os tucanos em 2010. Com o tempo muito fechado e tempestades à vista, Serra -com algum custo, é óbvio- poderia ainda virar as costas para a Presidência e cuidar de seu jardim paulista, onde teria, em tese, uma reeleição mais ou menos tranquila.

A janela que convoca Serra para a guerra -faça chuva ou faça sol- foi aberta ontem pelo governador de Minas. Isso não quer dizer que Serra "já é" candidato, mas que o preço político a pagar por uma eventual desistência agora ficou muito alto.

Aécio vinha se sentindo desconfortável com a indefinição do quadro sucessório no PSDB. Temia passar pelo que Geraldo Alckmin viveu em 2006. A perspectiva de ficar refém das dúvidas hamletianas de Serra, o risco de sua "alckmização", foi o que o mineiro quis afastar de si, abrindo mão da disputa.

"Seguro as rédeas de meu destino", diz Aécio, preocupado em desfazer tanto a impressão de que será um reserva sempre disponível e disposto a entrar em campo, sob quaisquer condições, como a ideia de que há um acordo oculto pelo qual ele será candidato a vice.

Aécio acredita que sua saída do jogo agora obrigará Serra a movimentar-se com mais objetividade, levando-o a "tomar algumas atitudes" como candidato. O mineiro avalia, por exemplo, que uma candidatura de oposição em torno da aliança PSDB-DEM-PPS é muito frágil diante do arrastão partidário e da força da máquina que o governo mobilizará por Dilma Rousseff.

Por ora, Aécio não considera a hipótese de ser vice de Serra. Prefere a eleição certa ao Senado, que lhe permitiria ficar em Minas e trabalhar por Antonio Anastasia, seu atual vice, na disputa pelo governo.

Mas política, diz o chavão, é como nuvem. Ao abrir a janela de Serra, Aécio não fechou, ainda, nenhuma porta para si mesmo.

Eliane Cantanhêde:: Irmãos siameses

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - José Serra é, obviamente, o maior beneficiário da desistência de Aécio Neves em concorrer à Presidência. Mas ele não gostou. Ou, pelo menos, não gostou do "timing".

Quando Aécio telefonou para comunicar a decisão, Serra pediu que adiasse qualquer movimento para janeiro, pelo menos. Aécio não lhe deu ouvidos.

Serra se vê empurrado para uma candidatura que considera prematura e para a discussão sobre o vice -que não soma, divide. E Aécio cai no turbilhão de afagos e pressões para ser vice. O PPS nunca reivindicou a vaga, o DEM abre mão para Aécio, e o PSDB não criou alternativas. É Aécio ou Aécio.

Quem conversou ontem com "aecistas" mineiros ouviu que ele não aceita "de jeito nenhum".

Mas quem consultou os demais tucanos e seus aliados teve certeza do oposto: Aécio vai alimentar a angústia e curtir a sua condição de homem mais paparicado do país, até acabar docemente convencido. Não agora, mais adiante.

O governo tem um presidente com 80% de popularidade, um discurso consistente, recursos poderosos e favoritismo no Norte e no Nordeste. Já a oposição tem a chance de ouro de juntar São Paulo e Minas, que abrigam em torno de um terço do eleitorado do país e onde Serra e principalmente Aécio têm forte popularidade.

Aécio, que não fez uma única referência a Serra na sua carta de despedida da candidatura, jura que quer disputar o Senado e concentrar esforços em Minas. Mas pense bem: o que ele lucra se Dilma vencer e o PT ficar mais 12 anos no poder? Vai ficar sentado na bancada de oposição, esperando para bater de frente com Lula em 2014?

Neste momento, Serra está emburrado, e Aécio, ressentido. Mas, queiram ou não os dois, Serra precisa de Aécio e Aécio precisa de Serra. Ou bem emergem juntos, ou correm o risco de ir para o beleléu, arrastando o PSDB e seus aliados com eles e com suas picuinhas.

Maria Cristina Fernandes:: Arquive-se o discurso da divisão do país

DEU NO VALOR ECONÔMICO

A geração de empregos formais no Nordeste ultrapassou a do Sul; Goiás tem, proporcionalmente, mais pobres que o Rio Grande do Norte; e o PIB per capita do Amazonas supera o de Minas Gerais.

As desigualdades regionais fomentaram um infindável debate ao final da reeleição. Houve quem dissesse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sido eleito pelos pobres do Nordeste, enquanto os ricos do Sul tinham engrossado o quinhão do PSDB.

Fernando Henrique Cardoso já havia sido eleito e reeleito pela maioria como presidente da estabilidade. Na recondução de Lula se descobriria uma repentina divisão do país, como se descobrisse naquele momento que a maioria era de desprovidos.

O estudo divulgado esta semana pelo Ipea sobre a presença do Estado na Federação (www.ipea.gov.br/sites/000/2/presenca_estado_brasil/index.html) não muda radicalmente o cenário das desigualdades nacionais, mas pode abortar desde já essa discussão estéril no debate presidencial do ano que se avizinha.

Se o capitalismo e a ausência dele chegaram a ser evocados como razão para as diferenças do voto de Norte a Sul, a notícia agora é que, sim, para o bem e para o mal, estão todos no mercado. As vendas no Nordeste superam as do Sul. E que diferença isso faz?

Quem não tem BNDES agora demora menos para inteirar o mês com um salário mínimo. A conjuntura sugere que a faixa será de quem convencer o eleitor de que avançará mais na redistribuição do butim.

O economista do Ipea, Mansueto de Almeida, tem ficado incomodado com as preliminares desse debate. Diz que o estudo mostra uma mitigação de desigualdades que, se conforta de imediato, inquieta no longo prazo. Fomenta um modelo que empurra o PIB agora, mas carece de sustentação lá adiante.

Inquieta-se com o que chama de "excesso de confiança no passado". A ver: o retorno à visão dos anos 50 e 60 que atribuía os problemas regionais à falta de investimento em grandes obras.

Lembra que foi este o modelo que inspirou a Cassa per il Mezzogiorno para redimir o sul da Itália e a Sudene. E não vê por que, depois de ter fracassado num caso e noutro, pegaria agora no tranco.

Não se deslumbra com o estaleiro Atlântico Sul. Nada contra as grandes obras, mas veria com melhores olhos se uma fatia do dinheiro investido em Suape se disseminasse no incentivo ao turismo.

Reconhece o avanço do microcrédito, que, pelo estudo do Ipea, registra um volume no Nordeste dez vezes superior ao concedido no Sudeste. Mas vê o instrumento como insuficiente para conter disparidades no fomento de grandes e pequenos.

Faz as contas e desanima: o BNDES recebeu este ano do governo um volume de recursos 70 vezes maior do que o orçamento anual do Sebrae para uma política industrial excessivamente concentrada na criação de grandes empresas líderes.

Diz que o modelo atual se baseia numa folga fiscal que permite inchar o BNDES e manter uma política de valorização do salário mínimo, mas despreza, por exemplo, a necessidade de formalizar os bolsões da indústria de confecção sertão adentro. Lamenta ainda que essa folga não seja usada para radicalizar o acesso dos mais pobres à educação e saúde. Se esse modelo de desenvolvimento já movimenta a sucessão, não é pelas diferenças, ainda desconhecidas, que os dois principais candidatos possam ter sobre o tema.

As políticas sociais estão desintermediadas. O SUS e o Fundeb estão estruturados de maneira que, fossem melhor aquinhoados, seriam capazes de universalizar o acesso à saúde e à educação seja num governo do PT ou do PSDB.

O butim do Brasil gigante está nos ministérios e autarquias que hoje comandam os grandes investimentos. Não há dúvida de que o PT tem o controle da infraestrutura nacional, mas é na concessão das franjas desse poder que a relação com seu principal aliado é fomentada. A renovação das bases dessa aliança é que está em jogo na crise que invade a relação entre o governo e o PMDB.

Lula, aparentemente, acha que o partido está com poder demais. Inventou uma lista tríplice para dela tirar o vice na tentativa de enquadrar o PMDB antes que este faça de uma Dilma presidente sua refém.

Essa tensão entre o governo central e os agregados da infraestrutura também marcou a crise do final do governo FHC e seus pefelistas de plantão. A diferença é que agora, ao contrário de 2002, a perspectiva é de crescimento continuado de um país que assume ares de gigante na economia mundial.

Aumenta, assim, a disputa pela condição de parceiro do partido no poder. A condução dessa aliança será sempre um dos grandes imbróglios da República, mas a opção por um modelo excessivamente calcado antes na grande política industrial do que no fomento pulverizado só dificulta o controle da cobiça.

Para onde vão Minas e Aécio

A carta com que o governador Aécio Neves desiste da disputa presidencial protesta contra a divisão do Brasil entre pobres e ricos e Norte e Sul. Só faltou dizer que era contra também a divisão entre PT e PSDB, mas foi essa a sinalização de Aécio na última disputa eleitoral de que participou, com a eleição do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, apoiado por tucanos e petistas.

Oito em cada dez mineiros apostavam até ontem que Aécio seria candidato a presidente . É potencialmente um eleitorado sobre o qual terá influência em 2010. Principal eleitor de um Estado com 14 milhões de votos, segundo maior colégio eleitoral do país, sua saída de cena não garante que seu quinhão cairá necessariamente no colo do governador de São Paulo, José Serra.

Na carta, Serra não é mencionado. Se isso sinaliza para os mineiros a possibilidade de que Aécio tenha sido preterido, a transferência de votos não acontecerá. Só a improvável presença de Aécio como vice numa chapa encabeçada por Serra evitaria a cristianização. Nas duas últimas disputas, Minas elegeu Aécio e Lula.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

O dia D do planeta

DEU EM O GLOBO

Depois do fracasso de ministros e diplomatas, que não chegaram a um consenso após 11 dias de intensas discussões, líderes mundiais passaram a madrugada reunidos, em busca, até o último instante, de um plano de combate às mudanças climáticas. Ontem, Brasil e China acertaram uma posição comum para pressionar os países ricos a aceitar um acordo com poder de lei. Em troca, permitiriam inspeções dos cortes de emissões financiados pela comunidade internacional. Brasil e França convocaram os 25 maiores emissores para fechar um acordo, que precisa ser assinado ainda hoje.

Uma noite para salvar o mundo

Reunião de emergência entre líderes de 25 países tenta evitar fracasso da convenção

Chico de Gois, Deborah Berlinck e Roberta Jansen
Enviados especiais COPENHAGUE

Uma reunião de emergência entre chefes de Estado e governo de 25 economias ricas e emergentes foi convocada na noite de ontem para tentar salvar a Convenção das Nações Unidas para Mudanças Climáticas do que parecia ser um retumbante fracasso. A reunião foi costurada pelos presidentes Nicolas Sarkozy, da França, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil. Sarkozy propôs, com a adesão de Lula, que, após um jantar oferecido pela rainha Margaret II, os líderes mundiais se reunissem para buscar um consenso.

No início da madrugada de hoje, negociadores que participaram da reunião afirmaram que os países estariam muito perto de firmar um documento com força de lei. No encontro, foram discutidos os principais pontos do acordo climático — limite de aumento de temperatura, metas de redução de emissões, financiamento — que, mesmo depois de duas semanas de negociação, permaneciam em aberto antes do início oficial da reunião dos chefes de estado.

Após a reunião, ao chegar ao hotel onde está hospedado, Lula demonstrou bom humor: — Estou rindo para não chorar — disse, quando perguntado se tudo tinha corrido bem. — Estamos conversando (nas negociações) — completou o presidente.

Brasil e China fecham posição por metas legais

A reunião entre os líderes mundiais estava marcada, originalmente, para hoje, a partir das 9h, no Bella Center, inclusive com a presença do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que chega nesta manhã a Copenhague.

Obama já marcou uma reunião hoje com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao.

EUA e China são os dois maiores emissores de gases do efeito estufa e o encontro pode dar impulso a um acordo. Segundo informações da Casa Branca, Obama também teria uma reunião bilateral com o presidente Lula.

Lula e Sarkozy costuraram a reunião de emergência para antes da chegada do presidente americano por entenderem que, se deixassem para hoje o início das negociações, não haveria tempo hábil para concluir um acordo. Eles conversaram com o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, e com a chanceler federal da Alemanha, Angela Merckel, para marcar o encontro. Lula admitiu que, até anteontem à noite, havia um grande pessimismo. Nas três conversas bilaterais que manteve, incluindo o telefonema trocado com Obama, Lula ouviu apelos para que o Brasil ajudasse a concluir as negociações.

— Seria imperdoável para a Humanidade se jogássemos fora (a conferência de) Copenhague — disse Lula. — Se não tivermos como reunir os líderes e tomar decisão, corremos o risco de sermos fotografados como os líderes que foram incompetentes para cuidar do clima.

Sarkozy minimizou o fato de Obama não estar presente na reunião da noite de ontem: — Ontem, Lula falou com Obama, e eu também falei. Conhecemos bem suas posições e sabemos em que pontos podemos solicitar maior esforço dos Estados Unidos.

Durante o dia, a secretária de Estado americana Hillary Clinton anunciou que os EUA iriam participar de um fundo de US$ 100 bilhões por ano até 2020 para ajudar os países pobres a lidar com o aquecimento global. Foi a primeira vez que os americanos mencionaram uma cifra para financiamento a longo prazo. Porém, além de anunciar uma quantia considerada pequena — os países em desenvolvimento pedem US$ 350 bilhões anuais — Hillary não especificou qual seria a participação americana no fundo.

E, ainda, a secretária dos EUA afirmou que a oferta teria como condição que o acordo em Copenhague tivesse “transparência”. Foi uma menção à insistência americana para que os países em desenvolvimento aceitem verificação internacional de suas ações contra o aquecimento global, o que encontra resistência em China, Brasil e outros grandes emergentes.

O vice-ministro das Relações Exteriores da China, He Yafei, afirmou que o anúncio dos americanos era um “bom primeiro passo”.

Em Pequim, autoridades do governo chinês afirmaram que o país estava disposto a “dialogar e cooperar” sobre suas emissões “desde que não houvesse intromissão na soberania chinesa”.

China e Brasil fecharam posição ontem, ao lado de Índia e África do Sul, para pressionarem os países ricos a assinarem, em Copenhague, um acordo legalmente vinculante — ou seja, um documento que, a exemplo do Protocolo de Kioto, tenha força de lei para seus signatários. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, reuniu-se com Lula pela manhã.

Segundo a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chefe da delegação brasileira, China e Brasil concordam que é preciso ter “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, ou seja, que cabe aos ricos um esforço maior. Mas Dilma disse também que isso vai se expressar em “ações concretas dos países em desenvolvimento”. Segundo a ministra, China e Brasil concordaram em aceitar, em suas ações de combate ao aquecimento global que têm apoio internacional, o monitoramento externo — através de metas mensuráveis, reportáveis e verificáveis:
— Defendemos que, com base em critérios definidos internacionalmente, se façam monitoramentos e relatórios em níveis nacionais, e que esses documentos sejam encaminhados, por exemplo, a um painel intergovernamental de mudanças de clima da ONU.

Solução, agora, terá que ser política

Otimista com os avanços que poderia obter na reunião de ontem à noite, Lula disse acreditar que esperava chegar a um consenso possível.

Sarkozy, por sua vez, foi duro sobre a possibilidade de fracasso da conferência: — Quem quer o fracasso que o assuma.

Nós não vamos nos associar a eles.

De fato, se existe qualquer possibilidade de sucesso na reunião de Copenhague, ela está, agora, nas mãos dos chefes de Estado.

— Não sei que saída vão dar, mas, a essa altura, terá que ser política — afirmou a diretora de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Branca Americano.

Luiz Carlos Mendonça de Barros:: Como entender os números do PIB

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Foi o comportamento do consumidor brasileiro que permitiu ao Brasil passar de forma diferenciada pela crise

O IBGE divulgou na semana passada os números do PIB (Produto Interno Bruto) no terceiro trimestre deste ano. Houve certa frustração na medida em que o crescimento ficou bem abaixo das projeções. Mas é preciso entender a razão pela qual isso ocorreu.

Usualmente o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulga em dezembro uma reavaliação do PIB do ano anterior. Com informações mais precisas sobre a atividade econômica, ele pode melhorar a qualidade dos números divulgados um ano antes. E essa revisão dos números de 2008 mostra que o tamanho de nossa economia era -antes do colapso do banco Lehman Brothers- maior do que o divulgado anteriormente. Mas o valor monetário da atividade econômica no período julho a setembro deste ano -e estimado agora pelo IBGE- não foi menor do que esperavam os analistas.

Ou seja, a parcela do PIB que cabe a cada brasileiro -respeitada a matriz de distribuição de renda- não foi inferior ao previsto, como pode ter transparecido no noticiário.

Apenas sua taxa de variação foi afetada em razão da revisão -para cima- do PIB em 2008. E, como a vida do cidadão depende do valor monetário do PIB- e não da sua variação entre um ano e outro-, nada de importante mudou realmente. A recuperação continua sólida, embora, no ano-calendário de 2009, a variação do PIB em relação aos números do ano passado possa ser ligeiramente negativa.

Os novos dados do IBGE nos permitem uma análise mais detalhada do comportamento da economia em 2008 e na primeira metade deste ano. Em primeiro lugar, fica ainda mais claro que foi o comportamento do consumidor brasileiro que permitiu ao Brasil passar de maneira diferenciada pela crise financeira mundial. No terceiro trimestre de 2008, momento em que ocorreu o agravamento da crise, o consumo no Brasil crescia a uma taxa média na casa dos 7% ao ano. No quarto trimestre, houve queda de 1% ante o terceiro, mas, ainda assim, alta de 4% diante do mesmo período de 2007.

A recuperação aconteceu rapidamente a partir do inicio de 2009, com crescimento médio do consumo em torno de 6,5% ao ano entre janeiro e setembro. Se incorporarmos à nossa análise os dados do comércio para o mês de outubro deste ano, podemos inferir que vamos entrar em 2010 com um aumento do consumo das famílias próximo a 7% ao ano.

Do lado dos investimentos, a variação na taxa de crescimento anual entre o período anterior à crise e os três trimestres seguintes foi brutal.

De um crescimento anual próximo a 20% ao ano, passamos a uma queda de 15% no inicio de 2009. Mas já há forte retomada. Para 2010, a equipe de economistas da Quest trabalha com uma taxa positiva de 14%, o que deve garantir um crescimento de 6% para o PIB.

A aceleração da economia é claríssima. A criação de 246 mil empregos formais em novembro, ritmo bem superior ao pico anterior à crise, mostra que os riscos já são de aquecimento excessivo. Na ata do Copom divulgada ontem, o Banco Central ainda não deu sinais claros de que elevará os juros, mas muito em breve será obrigado a endurecer o discurso. Se não o fizer, a autoridade monetária correrá o risco de desancorar as expectativas de inflação e complicar ainda mais o duro trabalho que tem pela frente.