terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Luiz Gonzaga Belluzzo :: Façanhas da finança desregulada

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Em discurso na American Economic Association, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, discorreu sobre a necessidade de uma nova regulamentação financeira destinada a impedir a formação de novas bolhas de ativos. Bernanke dá a entender que a política monetária, executada mediante o manejo da taxa de juros, é incapaz de "estabilizar" os mercados financeiros contemporâneos, inclinados às inovações e seus destemperos. "Uma regulamentação mais forte e uma supervisão destinada a disciplinar as práticas de emissão de "securities" e de avaliação do risco teriam sido mais efetivas e cirúrgicas na prevenção da bolha imobiliária do que um aumento generalizado das taxas de juros."

Muita gente desconfia, no entanto, que o presidente do Federal Reserve e suas intenções possam sucumbir diante das resistências e humores dos senhores da finança. É cada vez maior o contingente de analistas céticos em relação à disposição dos mercados em aceitar regras prudenciais e medidas capazes de controlar os impulsos a buscar inovações capazes de satisfazer o apetite feroz por ganhos maiores.

Nos anos 90, os democratas de Clinton patrocinaram a extinção das regras que determinavam a separação das funções entre os bancos comerciais, de investimento e instituições encarregadas do crédito hipotecário, imposta pelo Glass-Steagall Act na crise bancária dos anos 30. Figuras como o assessor econômico do presidente, Lawrence Summers, e o atual secretário do Tesouro, Timothy Geithner, ocuparam posições importantes na era Clinton. Estão entre aqueles que - nas palavras de um analista conceituado - não só "fracassaram em reconhecer as distorções que levaram à crise, como na verdade, foram responsáveis pela criação de muitas dessas distorções."

Já escrevi em outra ocasião que o rol de equívocos promíscuos cometidos por Geithner e Summers em sua função de autoridades reguladoras é impressionante. Entre tantas proezas, figura com aplomb a afirmação de Geithner em 15 de março de 2007: "As inovações financeiras, como os derivativos, melhoraram a capacidade de avaliar e administrar os riscos". Para Geithner "as maiores instituições estavam em geral mais fortes no que diz respeito aos requerimentos de capital em relação ao risco". O palpite infeliz foi pronunciado em 2007 quando a crise financeira já mostrava os dentes e afiava as garras. Dois dias depois, entrevistas e gravações mostram que Geithner trabalhou nos bastidores para reduzir o capital dos bancos.

O rápido avanço da finança direta e dos mercados de capitais ao promover a securitização dos créditos abriu espaço para as trampolinagens do subprime e estimulou inovações perigosas e mal compreendidas pelos clientes dos bancos ou quase-bancos. Como informa o relatório do especialista inglês Adair Turner, tais práticas determinaram, entre outras mazelas, o crescimento desproporcional das dívidas no interior do sistema financeiro entre bancos comerciais, bancos de investimento e hedge funds. A crescente interdependência entre os balanços das instituições, o leitor há de perceber, foi a receita perfeita para a tragédia sistêmica.

O ímpeto da concorrência levou o sistema bancário internacional à incessante violação de todas as normas e à velha e fatal combinação entre euforia, má avaliação dos créditos, concentração setorial de ativos e superalavancagem. Para juntar infâmia à injúria, num momento em que se estreitavam os spreads entre as taxas de papéis "sem risco" do governo e os rendimentos dos títulos mais arriscados, a "securitização" evoluiu para a criação de produtos sintéticos, ou seja, para a emissão de "securities" derivadas de blocos de "securities".

Na edição de 24 de dezembro, duas jornalistas do "New York Times" (NYT), Gretchen Morgenson e Louise Story, revelaram ao público em geral as façanhas praticadas às vésperas do crash financeiro por um dos bancos de investimento sobreviventes, o Goldman Sachs. A centenária instituição, dizem os detratores, já apercebida do colapso da bolha imobiliária, não economizou munição para lançar ao mercado bilhões de "colateral debt obligations" (CDO) ditos sintéticos. Fundos de pensão, hedge funds e outros bancos, inclusive estrangeiros, "carregaram" os instrumentos de crédito sintéticos, classificados favoravelmente pelas agências de risco.

Enquanto isso, sem conhecimento da clientela, o banco de investimento Goldman Sachs assumia posições "short", ou seja, apostava na queda dos papéis. Quando a pirâmide veio abaixo e os preços despencaram, o banco abiscoitou os ganhos da posição "short" e deixou o prejuízo para os que acreditaram na qualidade dos ativos adquiridos.

"A Securities and Exchange Commission deveria estar interessada em investigar uma instituição financeira que secretamente decide negociar um produto sabidamente "perdedor", sem emitir sua verdadeira opinião para os clientes", diz o professor Laurece Kotlikoff, da Universidade de Boston.

Porta-vozes do Goldman Sachs argumentam que os clientes eram investidores sofisticados e bem informados, dispostos a assumir os riscos da aposta em papéis mais atraentes, num momento de declínio generalizado dos rendimentos.

A crise veio brava. Os desavisados foram pegos no contrapé, superalavancados, com capital e reservas insuficientes para contrabalançar as perdas. Já os atilados do Goldman Sachs trataram de safar a onça quando perceberam que as inovações celebradas por Geithner e Summers estavam azedando. Um tanto tardiamente os sábios concluíram que estavam diante de uma "crise sistêmica", embora nem todos tivessem provado o gosto amargo da gororoba estragada.

Durante as décadas de euforia, os críticos da desregulamentação não se cansaram de deplorar a frouxa supervisão das autoridades americanas incumbidas de fiscalizar os mercados financeiros. A desídia dos reguladores abriu as portas para operações fraudulentas de todo o gênero.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras.

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