segunda-feira, 15 de março de 2010

Mudança do clima e interesses:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Não é razoável que os críticos do clima sejam pessoas cujos interesses são ameaçados por políticas contra o efeito estufa

Nos últimosmeses, apareceram críticas aos cientistas do clima que deixaram a opinião pública confusa. Principalmente pelo fato de um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, órgão das Nações Unidas, sobre o degelo do Himalaia ter-se baseado em fonte pouco confiável, "críticos do aquecimento global" aumentaram a força de seu ataque às políticas que já estão em prática ou que estão sendo propostas para evitar o aquecimento global.

Sobre esse tema, o jornal "Valor" publicou no dia 11 um excelente artigo de Jeffrey D. Sachs. O economista da Universidade Columbia fez uma análise de "economia política" do problema. Os críticos do clima, diz ele, fazem parte do mesmo grupo liderado ou apoiado pelo "Wall Street Journal" que vem procurando impedir que as políticas públicas limitem os danos causados por atividades econômicas à saúde da população e à sustentabilidade do clima.

Suas palavras: "Os atuais ativistas contra ações de enfrentamento às mudanças climáticas são, em muitos casos, apoiados pelos mesmos grupos de pressão, indivíduos e organizações que tomaram partido da indústria de cigarros, empenhados em desacreditar as evidências científicas entre fumar e câncer de pulmão. Mais tarde, negaram as evidências científicas de que os óxidos de enxofre resultantes da queima do carvão em usinas de eletricidade estavam causando "chuvas ácidas"".

"Então, quando se descobriu que certas substâncias químicas chamadas clorofluorcarbonetos (CFCs) eram causa de redução do ozônio na atmosfera, os mesmos grupos também lançaram uma campanha nefasta para desacreditar essas evidências científicas. E, a partir da década de 1980, esse mesmo grupo passou a combater a luta contra as alterações climáticas."

Naturalmente, os interessados podem argumentar que o que interessa são os argumentos científicos. Sem dúvida, mas o fato é que os argumentos científicos e as comprovações empíricas a respeito do aquecimento global vêm se acumulando há muitos anos, de forma que ninguém está escapando da discussão principal. É preciso, porém, compreender os interesses que estão ou podem estar por trás. Quando países tão diferentes como os EUA e a Índia resistem à pressão mundial para que reduzam sua emissão de gases de efeito estufa, isso, além de indicar que essas políticas apresentam custos, indica também que existem necessariamente grupos que não querem incorrer nesses custos. Por outro lado, sempre haverá cientistas da melhor qualidade que negarão o aquecimento global por uma razão muito simples. Apesar de todo o avanço das ciências naturais, elas não são capazes de nos oferecer uma verdade definitiva sobre o tema.

Entre as ciências substantivas, apenas a física e a astronomia são relativamente precisas. Nas demais, principalmente nas ciências sociais (como a crise recente demonstrou de forma dramática em relação à economia), mas também nas ciências relacionadas com a vida, as perguntas não respondidas são muitas. É razoável, portanto, que sobre um tema tão complexo como o do aquecimento global alguns cientistas divirjam da maioria.

Razoável e necessário porque a crítica é uma forma de controle sobre a produção de conhecimento científico. Não é razoável, porém, que os críticos do clima não sejam simplesmente cientistas discordantes, mas a eles se somem, provavelmente sem que tenham sido convidados, políticos e homens de negócio cujos interesses estão ameaçados por uma política de controle do efeito estufa.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da FGV, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (governo FHC), é autor de "Globalização e Competição".

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