terça-feira, 15 de junho de 2010

O livro dos espíritos:: Melchiades Filho

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O golpe de 1964 teve "espírito democrático". A censura à imprensa foi "condição para o progresso". As cassações políticas, uma "necessidade" ante a "intransigência" do único partido de oposição (MDB) que a ditadura permitia existir na década de 70.

É espantoso, mas o dinheiro público ainda financia o ensino desses disparates no país. Como revelou a Folha no domingo, estão no livro de história usado nos colégios militares, com quase 15 mil alunos.

Pior, o Exército faz questão que os estudantes paguem por esse material didático, quando poderiam receber, de graça, outros livros de história credenciados pelo MEC.

É grave, portanto, o descaso do governo. O Ministério da Defesa promete acionar "autoridades competentes". A Secretaria dos Direitos Humanos optou pelo silêncio. A Casa Civil idem. Enquanto isso, louva-se a ditadura em sala de aula.

Na Presidência, Lula se revelou vacilante quanto à questão militar. Deixará ao sucessor, por exemplo, o exame de violações de direitos humanos no período da repressão. Para uns, foi amadurecimento político. Para outros, acovardamento.

Uma coisa, porém, é manter intocados os arquivos da ditadura. Outra é permitir que eles continuem a fabricar mentiras -e para jovens.

Um efeito da hesitação de Lula e seus ministros é que ela transfere à candidata do PT a pressão por um "posicionamento" -e não só devido ao passado dela na luta armada.

Como ministra, Dilma Rousseff não destoou do morde-e-assopra de Lula. Mas nunca pareceu confortável com essa abordagem no que diz respeito aos "anos de chumbo".

Numa premiação na Confederação Nacional da Indústria, em 2008, Dilma foi uma das poucas pessoas que não aplaudiram Jarbas Passarinho. O ex-ministro em três mandatos do regime militar acabara de discursar, e a ministra, de braços imóveis, procurava com os olhos na plateia um cúmplice para a "desobediência civil".

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