terça-feira, 17 de agosto de 2010

BB e Caixa privilegiam dez empresas

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Grandes credores detêm 10% do crédito, taxa acima dos bancos privados; concentração aumentou a partir de 2008

Petrobras fica com 4% dos recursos da Caixa, com dívida de R$ 6 bi; BB diz que número está abaixo de regra do BC

Eduardo Cucolo

DE BRASÍLIA - Os dois maiores bancos federais destinam cerca de 10% dos empréstimos para dez empresas, uma concentração acima da verificada no setor privado.

A Caixa Econômica Federal, por exemplo, direciona quase 4% de todos os seus recursos para uma única empresa, a Petrobras. Antes da piora na crise financeira de setembro de 2008, o principal devedor do banco ficava com menos de 1%, mesmo patamar de hoje nos grandes bancos privados.

O aumento nesse período se deve a dois empréstimos no valor de R$ 2 bi, feitos no final de 2008 e em junho deste ano, à empresa estatal, que possui hoje dívida de quase R$ 6 bi no banco. Nos dois maiores privados, o maior devedor tem empréstimos pouco acima de R$ 2 bi.

O balanço da Caixa mostra que os dez maiores devedores do banco respondiam por 10% da sua carteira em junho deste ano, mais que os 4,4% verificados antes da crise. Em termos absolutos, o valor está pouco acima do verificado no setor privado, pois a carteira da Caixa é menor.

O Banco do Brasil, mesmo antes da crise, já possuía uma concentração alta de recursos em uma única empresa. Hoje, o maior devedor tem uma dívida de quase R$ 10 bilhões, cerca de 3% da carteira total. Os dez maiores ficam com quase R$ 30 bilhões, quase o dobro dos maiores bancos privados.

Reportagem da Folha mostrou que duas estatais e dez grupos privados ficaram com grande parte do crédito do BNDES desde 2008. Segundo o banco, 28% do crédito foi para os dez maiores clientes.

Caixa e BB negam política para privilegiar poucas empresas, atribuem o aumento de concentração à crise e dizem que isso não prejudicou companhias de menor porte.

"As pequenas empresas têm a sua demanda de crédito atendida, dentro da análise de risco", disse o vice-presidente de controle e risco da Caixa, Marcos Vasconcelos.

Segundo ele, os empréstimos à Petrobras foram baseados em critérios técnicos, com taxas de mercado, e não há problema em ter operações concentradas em uma empresa com uma das melhores classificações de risco.

Vasconcelos disse também que a Caixa possuía uma carteira de crédito para pessoas jurídicas incipiente até 2007 e que, após o primeiro empréstimo à Petrobras, outras grandes empresas passaram a procurar a instituição. Além disso, diz, os recursos emprestados foram captados no mercado.

O diretor de Crédito do BB, Walter Malieni, diz que os percentuais de concentração estão abaixo do fixado pelo BC, mesmo no caso de empresas que tiveram os limites elevados nos últimos anos.

Segundo Luiz Miguel Santacreu, da Austin Rating, concentração não é saudável. "Todo mundo trabalha com Petrobras, mas não nessa magnitude."

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