quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Novos rumos :: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A disputa eleitoral está permitindo, paralelamente à corrida dos candidatos a presidente da República, uma chance a que os partidos que deram os candidatos a vice exercitem seus músculos atrofiados pela falta de poder real nos muitos anos em que foram apenas coadjuvantes da cena política nacional.

PMDB e DEM optaram há muito por não disputar a Presidência da República, indo a reboque de PT e PSDB, os partidos que polarizam a política nacional há 17 anos.

Na recente política brasileira, o PMDB não conseguiu até hoje ter um candidato que unisse as diversas facções do partido para disputar a Presidência da República, colocando para funcionar a gigantesca máquina eleitoral que tem a maior bancada de senadores e deputados federais, o maior número de prefeitos, vereadores e governadores.

Quando lançou candidato próprio, nomes como Ulysses Guimarães ou Orestes Quércia foram engolidos pelo próprio partido.

Em compensação, nenhum presidente da República consegue governar sem o apoio do PMDB, um partido que já foi o principal representante da esquerda brasileira e hoje patina no fisiologismo explícito.

Com a união do PMDB a partir do segundo mandato do presidente Lula, uma nova etapa parece estar se abrindo para o partido, que pretende impor sua força eleitoral para transformar-se em partícipe de um eventual governo Dilma Rousseff e não apenas um coadjuvante de luxo que se contenta com as regalias do poder, sem exercê-lo realmente.

No caso atual, o exercício do poder tem uma característica específica, a de o partido se apresentar à sociedade como o garantidor de que a democracia não será ultrapassada por medidas do grupo radical que tentou ainda recentemente emplacar o programa petista como o programa de um futuro governo Dilma.

O DEM, por sua vez, tenta sair de uma posição pré-falimentar para transformar-se em um representante com credibilidade da direita brasileira.

O papel que o deputado Indio da Costa, candidato a vice na chapa de José Serra, está exercendo na campanha eleitoral é o de vocalizar as críticas ao esquerdismo mais radical do PT, assumindo-se como porta-voz de um eleitorado que teme a chegada de uma ex-guerrilheira à Presidência da República.

Não é à toa que desde que foi indicado ele questiona a relação do PT com o MST e com a guerrilha colombiana Farc, temas em que insistiu em debate de vices ontem.

O presidente Lula vangloria-se pelo fato de que não há nenhum "troglodita da direita" como candidato à Presidência da República, sem atentar que não haver um candidato viável representando a direita é apenas mais uma das muitas distorções da democracia brasileira.

Embora nenhum político brasileiro se declare "de direita", a direita política está sempre presente nos governos formados a partir de 1985, quando Tancredo Neves se elegeu presidente da República numa aliança política impensável com os dissidentes do PDS, partido que dava sustentação à ditadura militar.

Boa parte desses políticos, abrigados no Partido da Frente Liberal (PFL), fez a aliança com o PSDB que levou Fernando Henrique ao poder em 1994, a bordo do Plano Real.

E uma dissidência do PFL, atual DEM, acabou apoiando Lula em 2002, capitaneada pelo senador José Sarney, que se transformou no principal apoio político de Lula no Senado e dentro do PMDB.

O presidente Lula, para eleger-se em 2002, procurou um empresário para compor sua chapa, como maneira de tranquilizar os que ainda o viam como uma ameaça.

Embora o governo Lula seja considerado "de esquerda", a escolha de uma candidata "de esquerda" como Dilma Rousseff não afasta da coalizão os partidos "de direita", como o PP e o PR.

A coalizão do PSDB que apoia a candidatura de José Serra reúne também o PPS, herdeiro do antigo Partido Comunista, e o DEM, atraiu também o PTB e setores do PMDB, e é identificada pelos petistas como "de direita" ou, no máximo, de "centro-direita".

A refundação do PFL, que passou a se chamar Democratas, foi feita com a metodologia do PP da Espanha, parceria firmada durante a reunião da Internacional Democrática de Centro (IDC), realizada há alguns anos no Rio.

A IDC se contrapõe à Internacional Socialista, que reúne os partidos de esquerda e social-democratas no mundo, e essa parceria teria se desdobrado em uma candidatura própria este ano se não fossem o fracasso da tentativa de lançar Cesar Maia como candidato e, mais recentemente, o escândalo do governo de José Roberto Arruda, uma de suas principais lideranças ao lado de Maia e do prefeito paulista, Gilberto Kassab.

O receituário do novo PFL foi dado durante aquele encontro da IDC: políticas liberais no governo, que obtiveram grande sucesso nos oito anos de governo de Aznar na geração de empregos.

Essas mesmas políticas estariam representadas também por Jacques Chirac, na França; Durão Barroso, do PSD em Portugal, hoje presidente da Comissão Europeia, e o Partido Republicano nos Estados Unidos.

O corolário natural desses movimentos é os dois partidos prepararem candidaturas próprias para a sucessão de 2014, tudo subordinado, evidentemente, à situação política da ocasião.

O PFL continua tendo em Cesar Maia seu líder com mais votos, mas é difícil avaliar se sua provável eleição para o Senado pelo Rio o transformará em um líder nacional.

O PMDB tem no candidato a vice-presidente Michel Temer um conciliador que terá papel fundamental de negociação com o Congresso, onde provavelmente o PMDB continuará tendo a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado.

E o governador do Rio, Sérgio Cabral, sendo reeleito no primeiro turno como tudo indica, será um dos potenciais candidatos.

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