terça-feira, 17 de agosto de 2010

O paradoxo vai às urnas :: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

A contribuição decisiva de lula, nos dois mandatos insuficientes para dar conta do que se propôs e do que não se propôs fazer, mas faz, será inevitavelmente o teste de carga a que está submetida a democracia nesta campanha presidencial.

Depois de se eleger, se reeleger com mais votos e não poder mais ser candidato, o presidente resolveu transferir o excesso de popularidade à candidata que lançou antes que o PT e a arraia miúda da representação parlamentar retomasse o terceiro mandato e comprometesse o Congresso Nacional nas consequências que esperam apenas oportunidade.

O nó político que amarra o explícito e o implícito na sucessão presidencial é que tudo está sendo feito para a vitória, sem um plano B. Pesquisas não têm o monopólio da verdade nem o dom de ler o futuro em urnas vazias.

Nos períodos precariamente democráticos, nunca o governo brasileiro funcionou como partido político de maneira escancarada, sem salvar as aparências: do alto da popularidade, o presidente Lula descortina mais do que a vista e a lei alcançam. A ordem para os ministros se organizarem num comitê eleitoral superior e municiarem a candidata oficial de versões e números (sem falar no que não deve ser falado) era o que faltava para viciar o jogo eleitoral e comprometer diretamente o próprio presidente.

Não falta mais. Governo envolvido até o pescoço em eleições não sai impunemente de uma derrota.

Perdedor não escreve a história. A candidata pode, mas o governo não pode perder. Seria, no mínimo, o fim da picada (no bom sentido).

Eis a questão que agrega preocupação à atual versão de democracia à beira do abismo. Na série da eleição direta de presidentes por maioria absoluta de votos, este que se desenha diferente é o sexto mandato, e o primeiro digno de atenção, pois a candidata já sabe que não pode cogitar de reeleição, que é reserva de mercado eleitoral do próprio Lula. A derrota seria de consequências inesgotáveis, mas a vitória poderá ser pior. Na versão constitucional anterior (1946 a 1964), quatro presidentes eleitos pelo voto direto eram vulneráveis pela maioria simples com que se elegiam governantes em nome da democracia, mas em proveito da crise oculta. Foi o ciclo da dúvida sistemática em relação à legitimidade dos vencedores por maioria simples.

A iniciativa de instrumentalizar o poder federal para garantir a vitória de uma candidata que não pode perder arrastará nas consequências o todopoderoso dono de intenções de votos que aprovam seu modo de governar. Não há como disfarçar o paradoxo inédito que está se armando: o governo não pode perder mas, se vencer, não terá como resolver o dilema da reeleição com dois candidatos inseparáveis. A reeleição entrou equivocadamente na vida brasileira e não será retirada sem abalar, no mínimo, os alicerces da República.

A derrota de Dilma seria de consequências sem fim. A vitória poderá ser pior

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