sexta-feira, 3 de setembro de 2010

É o segundo turno que está em jogo:: Maria Cristina Fernandes

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Reação desabrida do PT à acusação de quebra de sigilo mostra que lições dos aloprados custam a ser assimiladas

A reação desabrida à exploração do dossiê dos aloprados custou um turno a mais de campanha ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. Só a incapacidade de se aprender com os próprios erros pode levar à repetição da história. A tragédia que abateu a oposição lá atrás pode fazer sombra sobre os petistas se a quebra do sigilo fiscal da filha de José Serra continuar a ser tratada como uma farsa pela campanha de Dilma Rousseff.

A quinze dias daquele primeiro turno, a Polícia Federal prendeu duas pessoas e apreendeu R$ 1,7 milhão em espécie num hotel em São Paulo. Estava em negociação dossiê contra o mesmo Serra, à época candidato ao governo paulista. Um dos presos declarou à PF que havia recebido do PT a missão de comprá-lo.

A imagem das montanhas de dinheiro logo inundaram os principais telejornais. Lula tascou nos correligionários envolvidos a alcunha de "aloprados", recusou-se a ir ao último debate da campanha e mais não fez. Da condição de favorito para levar em primeiro turno, Lula viu esvaírem-se em duas semanas um milhão e meio de votos.

Na antevéspera da eleição o comando da campanha já sabia que, mais do que a exploração do flagrante das montanhas de dinheiro com petistas, a resistência do presidente a oferecer uma explicação sobre os fatos, protagonizada por sua decisão de não participar do último debate, que seria assistido por 40% do eleitorado, foi considerada arrogante.

A constatação de que o PSDB é movido pela falta de votos pode explicar o grau de hostilidade com que a campanha presidencial inicia seu último mês, mas não é suficiente ao eleitor que, face ao bombardeio, quer preservar seu voto de um debate manipulado.

A exploração da quebra de sigilo de sua filha pode não devolver a Serra os votos que lhe faltam, mas a reação incontida ao episódio pode tirar de Dilma aqueles que lhe assegurariam vitória em 3 de outubro.

Não adianta tirar do baú aquela faixa estendida na Av. Paulista no dia do comício da vitória em 2006: "O povo venceu a mídia". O PT já tem estrada suficiente na relação com a imprensa para saber que videotape de campanha rende tese de doutorado sobre o poder da mídia, mas é nos 90 minutos que se decide o jogo. E as regras do vazamento de vazamentos todo mundo conhece.

Na entrevista que deu ao SBT na noite de quarta-feira, por exemplo, Dilma abandonou o comedimento com que, sob muito esforço, tem conseguido atravessar a campanha. Sem responder a uma pergunta sobre a conduta do PT no dossiê dos aloprados e depois de recusar três apartes ao jornalista Carlos Nascimento, Dilma contestou as ilações do PSDB fazendo outras duas sobre o partido de seu principal adversário.

Sugeriu envolvimento dos tucanos no vazamento da dívida de deputados junto ao Banco do Brasil na votação da emenda da reeleição e na quebra de sigilo da direção da Petrobras na CPI que apurava denúncias contra a estatal.

Nada disso serve para o eleitor compreender por que a Receita Federal, um dos mais modernos e poderosos fiscos do mundo, é incapaz de impedir que dados sigilosos de contribuintes sejam comercializados à luz do dia nas ruas de São Paulo.

A confiança de que o episódio pouco abalará a campanha de Dilma porque apenas seis milhões de contribuintes declaram Imposto de Renda beira o escárnio. É verdade que sigilo ainda é coisa de bacana, mas se o governo que a campanha de Dilma promete continuar der certo, a maioria será de bacanas. O foco da campanha petista mudou, não centra nos remediados, mas naqueles que almejam prosperidade. Se os beneficiários do Bolsa Família hoje podem ter conta em banco, também são capazes de entender o direito ao sigilo fiscal.

Basta cotejar as pesquisas de 2006 para entender que não é preciso declarar Imposto de Renda para ser capaz de cobrar correção de seus governantes. Segundo o Datafolha, foi na faixa de eleitores com renda até dois salários mínimos que Lula mais perdeu votos com o episódio do dossiê dos aloprados em 2006.

Parece improvável que a campanha de Dilma tenha enxergado algum benefício na quebra do sigilo fiscal da filha de seu adversário. Mas a justificativa de que a campanha não pode ser responsabilizada porque o ilícito se deu em setembro, quando Dilma ainda não era candidata, só serve para os autos.

Quando a quebra de sigilo ocorreu, Dilma era a ministra mais poderosa do governo. Se a candidata pede votos na condição de herdeira do lulismo, não pode se esquivar do ônus. Se o governo é seu, cabe exigir que providências mais efetivas sejam tomadas para punir os responsáveis pelo vazamento e evitar que novos ocorram.

O secretário da Receita levou todo o primeiro escalão do governo, inclusive o presidente da República, a defender a instituição para depois serem confrontados com a inautenticidade da procuração que permitiu acesso aos dados.

Até hoje não se descobriu de onde veio o dinheiro que compraria o dossiê dos aloprados, mas o episódio rifou meia dúzia de petistas e levou ao afastamento do então presidente do partido, Ricardo Berzoini, da coordenação da campanha de Lula. A parcela do eleitorado que migrou para Geraldo Alckmin enquanto esperava satisfações do presidente da República voltou quando entendeu que as providências haviam bastado. Uma evidência disso foi o fato de que Alckmin teve, no segundo turno, votação inferior à do primeiro.

A decisão de Serra de trazer de volta ao noticiário a quebra do sigilo do caseiro Francenildo dos Santos é um sinal de que está disposto a tudo para levar a disputa ao segundo turno. Antonio Palocci, principal operador político da campanha de Dilma, é a principal ponte entre petistas e tucanos e avalista do mercado que subsidia os espetáculos da temporada eleitoral.

Aquele que acaba de entrar em cartaz tem a pretensão de mostrar Francenildo e Verônica como a mesma pessoa. A quebra de sigilo revela dificuldade de quem a promove de lidar com a presunção da inocência alheia. A desconfiança do menino pobre já teve condenação na Justiça. Da menina rica, os petistas garantem que nunca desconfiaram, mas o pai quer buscar nas urnas a condenação. Ainda é improvável que consiga.


Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

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