sábado, 25 de dezembro de 2010

Um personagem marcante da recente história do país :: Jorge Bastos Moreno

DEU EM O GLOBO

O ex-governador Orestes Quércia, falecido nesta sexta, teve participação decisiva em alguns dos mais marcantes espisódios da história recente, como na criação da CPI do PC, que levaria ao impeachment do presidente Collor, em 1993. Quércia destacou-se nacionalmente quando se elegeu, em 1974, o senador até então mais votado de São Paulo, derrotando o então poderoso e tradicional político paulista, o ex-governador Carvalho Pinto. Nessa enxurrada de votos, na chamada "enchente de 74", que fez o MDB enfranquecer, politicamente, a ditadura, derrotando a Arena em 16 estados, Quércia recebeu o título de "o homem de seis milhões de votos", numa referência a uma famosa série de tv.

Quércia assumiu o mandato prometendo no seu discurso de estréia no Senado denunciar toda a perseguição sofrida pela ditadura durante a campanha e pelas suas atividades de próspero empresário em Campinas, seu reduto eleitoral. Criou-se aí uma grande expectativa em torno desse pronunciamento, mas, no dia marcado para a sua estréia, o jornal "Correio Braziliense" estampou em manchete: " Quércia é corrupto", com matérias sobre supostas irregularidades fiscais em suas empresas. Isso foi entendido como recado da ditadura ao então mais festejado político da oposição. E o discurso de Quércia acabou sendo uma peça pífia, numa clara demonstração de que mudara o tom e o conteúdo.

Liberal, embora tendendo mais pelo lado conservador, Quércia, no MDB, aliou-se aos partidos e movimentos clandestinos que se abrigavam na legenda, como o então PCB e MR-8, e ajudou a carreira de muita gente, como a do hoje governador Alberto Goldman, do senador eleito Aloysio Nunes Ferreira; Audálio Dantas, Fernando Morais e Luiz Antônio Fleury, que foi seu vice-governador, secretário de segurança e a quem elegeu seu sucessor.

Orestes Quércia foi o estompim para o grupo rebelde do PMDB de São Paulo deixar o PMDB e criar o PSDB. Como vice-governador de Franco Montoro, Quércia foi assumindo o controle do PMDB paulista, derrotando as lideranças de Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e outros. Seu principal adversário interno era Mário Covas, com quem veio mais tarde disputar novamente o governo do estado. É famosa a sua afirmação de que Covas era "um candidato bunda-mole", desnorteando o opositor que, somente dias depois, respondeu: " A bunda é mole mais é minha".

Quércia teve vários embates com Fernando Henmrique Cardoso, como este:

--- Na verdade, eu não tenho nada contra o Fernando Henrique. O problema é que intelectual não gosta de caipira como eu.

Resposta, muito acima do tom, de Fernando Henrique:

-- Não é verdade que intelectual não goste de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão.

E Quércia, decretando guerra e atirando seu primeiro míssel contra o alvo:

--- Tem intelectual que não gosta de ladrão, mas gosta do roubo, como o Fernando Henrique que deixou seus apadrinhados roubarem na companhia de águas e esgostos de São Paulo na gestão Montoro.

Mas o melhor embate de Quércia foi com o senador eleito do Paraná, Roberto Requião, com quem travou uma briga ferrenha dentro do PMDB, Requião criou um serviço telefônico de 0800 para receber denúncias contra Quércia, chamado de "Disque-Quércia" e fez uma série de denúncias contra ele. Quércia, como resposta, divulgou o seguinte comunicado à imprensa:

--- Deixo de responder ao Requião porque no Paraná ele é conhecido por 'Maria, a louca". Para alguns, "mais louca que Maria", e, para outras " mais Maria do que louca".

Na primeira eleição direta de presidente, em 89, Quércia era o candidato preferido do partido, mas tinha como discretos concorrentes os governadores Pedro Simon e Miguel Arraes. Acabou apoiando a candidatura de Ulysses Guimarães. Ulysses e Quércia sempre tiveram uma relação cordial e respeitosa, mas sempre belicosa. Um dos motivos, diria Ulysses, depois de ter sido destronado por Quércia da presidência do partido, foi este:

-- Num momento difícil da campanha de Quércia ao governo de São Paulo, com alguns companheiros querendo abandonar o barco, como comandante, tive de gritar: "Ruim com Quércia, pior sem Quércia". Ele não me perdoa por isso.

De toda a trajetória política do ex-governador Orestes Quércia consta um fato pouco conhecido da maioria dos brasileiros: não fosse ele, não teria havido a deposição de Collor. Na época do escândalo, Quércia era presidente do PMDB, mas todos os homens mais importantes do partido, a começar por Ulysses Guimarães e pelos então presidentes da Câmara, Ibsen Pinheiro, e do Senado, Mauro Benevides, eram contra a instação da CPI.

O hoje presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, era presidente do PT, e o hoje senador não reeleito Tasso Jereissati era presidente do PSDB. As restrições dentro do PSDB para a CPI também eram muitas. Mas, apoiado por Lula, Tasso fez um forte trabalho de convencimento. Os dois então partirarm para o alvo maior: o PMDB. Logo na primeira conversa, Lula e Tasso obtiveram o apoio de Quércia.

Quércia agiu como um rolo compressor dentro do partido, abatendo o próprio Ulysses. O velho comandante do PMDB, como era seu estilo, para não ser atropelado acabou dando a volta por cima e assumiu a dianteira do movimento e passou a ser chamado de 'Senhor Impeachment". Os louros ficaram para Ulysses, mas o mérito foi de Quércia. Quem sabe, um dia, a história repare isso.

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