terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Kadafi bombardeia civis nas ruas e diplomatas se asilam

Missão líbia na ONU acusa ditador de genocídio e pede sua renúncia

Numa violenta tentativa de conter protestos que exigem sua renúncia, o ditador líbio, Muamar Kadafi, ordenou o bombardeio, com aviões militares, de civis em Trípoli. O ataque mais forte ao ditador veio de sua missão na ONU, onde o vice-embaixador Ibrahim Dabbashi pediu sua renúncia: “Kadafi declarou guerra ao povo e está cometendo genocídio.” Embaixadores líbios na Índia, na China e na Liga Árabe deixaram o cargo e pediram asilo. O ministro da Justiça renunciou.Dois pilotos de caças aterrissaram em Malta e desertaram. Segundo testemunhas, a capital foi bombardeada várias vezes, e haveria pelo menos 61 mortos desde a madrugada. A sede do Parlamento, a rádio e a TV estatal teriam sido incendiadas e saqueadas. Isolado pela comunidade internacional, após condenações em massa, o ditador apareceu na TV e declarou: “Estou em Trípoli, e não na Venezuela.Não acreditem nos canais que pertencem a esses cachorros vira-latas.”

Aviões de Kadafi atacam civis

Missão líbia na ONU pede renúncia de ditador, acusando-o de genocídio, e oficiais desertam

MORADORES DE Benghazi comemoram sobre um tanque: imagens de origem desconhecida são enviadas à imprensa internacional, impedida de atuar no país

PRÉDIOS PEGAM fogo nos arredores de uma base das forças de segurança em Benghazi: segunda maior cidade do país estaria tomada pela oposição, com o apoio de militares desertores


TRÍPOLI- Baixas significativas, como a renúncia de um ministro, a deserção de diplomatas e oficiais do Exército, críticas severas de antigos aliados e a oposição de proeminentes líderes tribais parecem não ter intimidado o ditador líbio, Muamar Kadafi. Com os protestos chegando a Trípoli, o mais antigo governante do mundo árabe não hesitou em bombardear a capital numa violenta tentativa de conter as manifestações por sua renúncia. Coube a seu filho, Seif al-Islam Kadafi, fazer um novo pronunciamento à TV, alertando para o ataque contra "sabotadores" e desmentindo o bombardeio a civis, mas apenas a "depósitos de munição em áreas desabitadas". Além de mortes causadas pela ofensiva aérea, informes de ativistas e organizações internacionais davam conta de uma escalada alarmante de violência, com confrontos entre manifestantes e milícias pró-regime. Horas depois de muita expectativa sobre um pronunciamento à nação, Kadafi foi à TV estatal. E em 15 segundos, ignorou a crise, limitando-se a dizer, sob um guarda-chuva branco:

- Estou em Trípoli, e não na Venezuela.

A aparição-relâmpago surpreendeu - e confundiu quem esperava um posicionamento oficial do excêntrico ditador num momento em que mesmo seus mais altos funcionários desafiam sua autoridade, como o vice-embaixador da Líbia na ONU, Ibrahim Dabbashi.

- Kadafi declarou guerra ao povo e está cometendo genocídio - afirmou o diplomata.

Embaixadores líbios na Índia, na China e na Liga Árabe deixaram o cargo em protesto à ofensiva do governo, e pediram asilo. O ministro da Justiça, Mustafa Mohamed Abud al-Jeleil, também renunciou em protesto ao "uso excessivo de violência". Relatos até então desencontrados de militares desertando nas cidades de Trípoli e Benghazi ganharam peso quando dois caças Mirage da Força Aérea da Líbia aterrissaram em Malta. Segundo autoridades locais, os pilotos, dois coronéis, decolaram de Trípoli, mas se recusaram a cumprir as ordens de alvejar a população civil. Voando a baixa altitude para fugir de radares, os dois desviaram de sua rota e pediram asilo político.

Mercenários estrangeiros desembarcam atirando

Outro revés a Kadafi veio de líderes tribais. O xeque Faraj al-Zway, líder da tribo al-Zuwayya, influente no oeste da Líbia - onde se concentra boa parte da produção petroleira do país - ameaçou impedir as exportações. Akram al-Warfali, líder da tribo Warfala, uma das maiores do país, também anunciou seu apoio à revolta, afirmando que "Kadafi não é mais um irmão".

Ao entardecer, milicianos pró-Kadafi usavam alto-faltantes para pedir aos moradores de Trípoli que permanecessem em casa. Com as telecomunicações aparentemente cortadas, era difícil contactar números de telefones no país. Segundo a rede al-Jazeera, panfletos distribuídos em Guiné e Nigéria convocavam mercenários para lutar na Líbia em troca de US$2 mil por dia.

Testemunhas afirmam que a capital líbia foi bombardeada várias vezes, com intervalos de 20 minutos, e haveria pelo menos 61 mortos desde a madrugada. A sede do Congresso Geral do Povo, assim como a rádio e a TV estatal teriam sido incendiadas e saqueadas. Na Praça Verde, no centro de Trípoli, manifestantes enfrentaram mercenários que desembarcavam a bordo de cerca de dez caminhonetes. Com armas automáticas, o grupo chegou atirando para o alto e, depois, fez dos manifestantes seu alvo.

Segundo a Human Rights Watch, pelo menos 233 pessoas morreram em cinco dias, embora opositores garantam que o número seja bem maior. Os relatos da violência preocuparam o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que telefonou para Kadafi e pediu o fim dos confrontos e "um diálogo amplo para atender às demandas do povo líbio". A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, rompeu o silêncio e defendeu "o fim do derramamento de sangue".

Houve protestos em Bayda, Derna, Tobruk e Misrata. Diante de rumores de que oficiais líbios abandonaram postos de controle na fronteira, o Exército do Egito enviou dois hospitais de campanha ao posto de Salum para evacuar seus cidadãos presos no país vizinho. A cidade de Benghazi, centro dos protestos, estaria tomada pela oposição, que conseguiu atrair desertores e apreender armas e veículos militares.

- Ainda estamos recebendo feridos graves. Posso confirmar 13 mortes em nosso hospital, mas a boa notícia é que as pessoas estão cantando e comemorando do lado de fora ao constatar que o Exército está do lado deles. Há apenas uma brigada, a al-Sibyl, contra o povo - contou o médico identificado como Mohamed, do hospital al-Jalaa, à al-Jazeera.

FONTE: O GLOBO

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