quarta-feira, 30 de março de 2011

Porquinho abandonado:: Rosângela Bittar

Era uma vez três porquinhos atuantes na coordenação da campanha eleitoral de 2010. Foram muito eficientes, ajudaram a eleger Dilma Rousseff presidente do Brasil. Ela ficou tão satisfeita com esse desempenho que carinhosamente lhes repassou o apelido marcante da infância. E os premiou, ao final jornada.

A Antonio Palocci (PT) coube ser ministro de Estado da Casa Civil, com a missão de fazer a coordenação política do novo governo, sustentado em uma aliança partidária inédita, imensa, de difícil administração.

A José Eduardo Cardozo (PT) foi ofertado o cargo de ministro de Estado da Justiça, que dispensa qualificativos. Até outros participantes do comando eleitoral fora da trinca receberam suas medalhas: Fernando Pimentel (PT), por exemplo, foi nomeado ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Porém, ao terceiro porquinho nominado pela presidente, José Eduardo Dutra, presidente do PT, nada coube até o momento.

Lá atrás, na gênese da organização e distribuição de tarefas, foi pedido a Dutra, ex-senador por Sergipe e ex-presidente da Petrobras, que não disputasse a eleição, a exemplo do que fariam Palocci e Cardozo. Assim, ficaria livre para participar integralmente, como dirigente do PT, da direção da campanha presidencial. Mas ele entrou na chapa, como primeiro suplente, do candidato a senador Antonio Carlos Valadares (PSB).

Frustração não adoece políticos calejados

Estaria ali uma opção de mandato para Dutra caso não sobrasse para ele um ministério. O PSB é da base do governo e Valadares um quadro importante do partido, poderia ser convocado a integrar o Executivo.

Os bons costumes políticos recomendam que os dirigentes partidários não acumulem suas funções com cargos no Executivo. José Eduardo Cardozo dispensou a Secretaria Geral do PT para integrar o governo e Carlos Lupi licenciou-se da presidência do PDT, depois de sofrer um puxão de orelhas da Comissão de Ética Pública.

Essa hipótese não foi apresentada para Dutra. Em alguma etapa da formação da equipe, já aquinhoados Palocci e Cardozo, cogitou-se no gabinete presidencial de Dutra voltar à presidência da Petrobras. Ideia logo afastada diante da evidência de que, para José Sergio Gabrielli, atual presidente e provável candidato na Bahia, em 2014, e para os planos do governador do Estado, Jaques Wagner, o melhor seria mantê-lo na direção da empresa.

Outra opção era ser ministro - que deveria, para manter coerência com o destino dos demais, ser a primeira cogitação -, o que implicava afastamento do partido, como fez o ministro da Justiça. Isto criaria um problema de sucessão no PT: o vice-presidente, Rui Falcão, foi eleito deputado estadual em São Paulo e assumiu agora cargo de Secretário Geral da Mesa representando seu partido. Uma nova eleição, com todas as suas implicações, principalmente o difícil equilíbrio entre correntes partidárias, teria que entrar na pauta de discussão.

A terceira possibilidade causou muito barulho e foi quase um debate sobre os destinos de Dutra em praça pública: o senador Antonio Carlos Valadares ser convidado para o ministério e José Eduardo Dutra assumir, como primeiro suplente da chapa vencedora, uma das cadeiras de Sergipe no Senado.

Dilma, segundo a lenda interna do PT, fez várias ofertas a Valadares. O senador percebeu que o governo não estava fazendo questão de tê-lo na equipe, mas apenas abrindo uma vaga para Dutra. Então fez exigências que aumentaram seu cacife a um ponto que ficou impossível pagar. A parte adversária dessa tese conta outra história, a de que a operação naufragou porque o PT não quis dar uma de suas vagas de ministro para Valadares e o PSB não concordou em gastar sua cota para resolver um problema do PT.

José Eduardo Dutra ficou presidente do PT, adotou a discrição no seu comportamento, passou a ficar mais tempo no twitter e o partido resolveu melhorar o cargo de presidente. Tanto em salário como em atribuições.

Foi indicado para ser o interlocutor de todos os ministros, como se fora um deles, para negociar todos os assuntos de interesse do PT. Esse adensamento da função de presidente foi reproduzido, porém, para o cargo de presidente de honra, criado segundo o mesmo modelo para ser dado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: um salário e a missão de agir politicamente no interesse do PT. Alguma semelhança entre os dois papéis?

Esse resgate de história recente surgiu ontem, em Brasília, em conversas parlamentares, a propósito da licença da presidência do PT, para tratamento de saúde, pedida por José Eduardo Dutra. Ele realmente sofreu uma crise hipertensiva e dores na coluna, há pouco mais de um mês, em Brasília. Por recomendação médica, enviou ao partido, na semana passada, um pedido de licença por 15 dias, que devem estar se completando no fim desta semana. As conversas de ontem foram alimentadas por conjecturas de que pediria prorrogação da licença por mais três meses e a discussão da hipótese de que as desfeitas do governo estivessem tendo seus efeitos nos males que acometem o presidente do PT.

Parlamentares do partido, pegos de absoluta surpresa na primeira licença, ficaram ainda mais perplexos com a hipótese de renovação por período longo.

Questões que mobilizam a bancada mas, aparentemente, desmobilizam a atual direção do PT, que desconsidera o burburinho partidário em torno de um mal explicado escanteio a Dutra. Elói Pietá, Secretário Geral do PT, disse que a prorrogação da licença é boato, que o presidente José Eduardo Dutra está ficando bom e logo voltará a tocar o partido no ritmo normal.

O vice-presidente e presidente em exercício do PT, Rui Falcão, diz que não sabe de pedido de prorrogação de licença e, se houver, só será necessário fazer uma ata se for por tempo superior a 15 dias, sem problemas. No entanto, desfaz as especulações (essas não deixam de reconhecer as doenças como problemas que exigem atenção especial de fato) que associam a frustração de Dutra com o governo a seu desinteresse pelo partido: "Ser presidente nacional do PT é uma valorização, Dutra tem trânsito entre todas as correntes, não iria se sentir desmerecido".

E, depois, a frustração, para os esfriadores de crise, não adoece ninguém.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

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