terça-feira, 10 de maio de 2011

Inflação ameaça economia, diz Trichet

Segundo o presidente do BCE, a alta dos preços nos países emergentes é tão perigosa quanto a situação fiscal das nações ricas

Jamil Chade
Enviado especial/ BASILEIA

O superaquecimento nos países emergentes e a consequente inflação são ameaças tão grandes à economia mundial quanto a situação fiscal das economias ricas. O alerta é do presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, que ontem falou em nome dos maiores banco centrais do mundo.

A avaliação é de que a pressão inflacionária gerada em economias como Brasil, Índia, China, Indonésia representa um perigo real à recuperação da economia mundial. Nos últimos dois dias, os principais presidentes dos BCs do mundo - entre eles o brasileiro Alexandre Tombini - estiveram reunidos em Basileia para debater a situação internacional. Trichet, porta-voz do grupo, alertou que a economia mundial, apesar de crescer, sofre ameaças preocupantes. "A mensagem principal (da reunião) é de que não é o momento de complacência. Se queremos consolidar a recuperação global e que ela seja sustentável, precisamos lidar com essas ameaças", disse.

Trichet não hesitou em apontar as dívidas dos países europeus como um desses riscos, freando investimentos e ampliando o desemprego.

Na zona do euro, a dívida vem provocando um caos no mercado financeiro e no valor da moeda única e, para muitos, os pacotes apresentados para salvar Grécia, Irlanda e Portugal não estão dando resultados. Trichet diz que esses governos devem promover cortes nos gastos para solucionar a crise.

O francês, porém, comparou a inflação nos emergentes à crise da dívida nos ricos, apontando que seria um "risco equivalente" para o sistema. "A situação fiscal, principalmente na Europa, é um assunto importante e terá de ser melhorada para combater as deficiências que enfrentamos."

Segundo ele, esse fenômeno é decorrente da recuperação das economias emergentes. Mas advertiu que deve receber o mesmo nível de atenção que a dívida nos mercados ricos. "O superaquecimento pede políticas que permitam um esfriamento. Sem isso, países estarão sempre em uma situação menos favorável", alertou Trichet.

Novo Ciclo. A reunião foi marcada pela cobrança dos países ricos aos emergentes em torno de um controle da inflação, o que irritou alguns dos governos. Europeus e americanos temem que uma pressão inflacionária nos emergentes acabe afetando suas próprias economias.

O problema é que, com uma taxa de crescimento baixo, europeus e outros países ricos não têm como elevar juros, sob o risco de abafar a tímida recuperação. Para os ricos, portanto, apenas uma ação por parte dos emergentes pode, agora, frear a inflação, tema que foi martelado pelos países ricos.

Analistas que participaram do encontro acreditam que a declaração dos países ricos é injusta. Mas apontam que seria um reconhecimento de que é o ciclo econômico dos emergentes que hoje determina em parte a situação mundial. Trichet garantiu que a reunião terminou com um "acordo de que é essencial ancorar as expectativa inflacionária no cenário presente".

Segundo ele, medidas fiscais e monetárias apropriadas são as políticas a serem adotados no caso de um superaquecimento. Para Trichet, os BCs de todo o mundo estão unidos. Tombini passou os dois do encontro sem dar declarações aos jornalistas.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

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