sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Apoio paralelo:: Merval Pereira

O trabalho paralelo que o ex-presidente Lula vem fazendo no seu instituto, despachando com ministros e recebendo políticos para montar estratégias eleitorais, inclusive para a disputa da Prefeitura de São Paulo no ano que vem, acabará se transformando em um apêndice do governo Dilma, naturalizando uma interferência que deveria ser rejeitada pela presidente de direito, mas que é até bem recebida.

A crise em que se transformou a "faxina ética" que a presidente ensaiou nos primeiros meses do governo só está sendo superada com muita dificuldade tanto pela própria Dilma quanto por seus aliados, e só foi possível recuperar pelo menos em parte a harmonia da coalizão pela interferência pessoal de Lula junto à presidente, que parecia a certa altura encantada com os efeitos junto à opinião pública de sua ação moralizadora.

O problema é que seria praticamente impossível continuar nessa limpeza sem transferir para seu tutor político o ônus de, no mínimo, não ter tido muito empenho no combate à corrupção.

Como ressaltou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em recente comentário público, os fatos que estão se sucedendo na administração federal indicam que a corrupção, um problema histórico no país, tornou-se endêmica a partir do governo Lula.

Essa percepção fez com que a própria Dilma recuasse em sua intenção, alegando que ela só existiu na fantasia da imprensa.

A conselho do vice-presidente Michel Temer, de quem vem se aproximando à medida que a crise política demonstra a necessidade de uma ação mais "profissional", a presidente está fazendo reuniões com os diversos partidos que compõem a base aliada, para mantê-los unidos e garantir que não existirá caça às bruxas.

O jantar com o PMDB, por exemplo, foi exitoso no sentido de controlar a inquietação do partido, que teme ser desalojado do poder em um futuro próximo com o crescimento de dois outros partidos, o PSB, da base aliada, e o futuro PSD, que deve fazer parte dela quando for criado oficialmente, mas que desde já negocia apoios e recompensas futuros.

O PMDB está preparado, por exemplo, para uma investida do ex-presidente Lula para fazê-lo desistir de ter um candidato próprio à Prefeitura de São Paulo no ano que vem, para apoiar o hoje ministro da Educação, Fernando Haddad.

O PMDB tem no deputado federal Gabriel Chalita seu candidato, saído do PSB justamente porque lá não conseguiu apoio para tentar a prefeitura.

O vice Michel Temer, que está assumindo o controle do PMDB em São Paulo com a morte de Orestes Quércia, prometeu a legenda a Chalita, mas Lula está certo de que Haddad só terá chance se for apoiado por uma ampla coligação.

Alguns setores do PMDB, no entanto, resistem a acordos com o PT nas eleições municipais, certos de que, se saírem fragilizados delas, terão menos importância nas negociações políticas posteriores, podendo até mesmo perder, no limite, a vaga de vice-presidente numa reeleição de Dilma ou, mais provável, numa chapa com o ex-presidente Lula na cabeça.

Uma das críticas mais comuns ao líder do PMDB Henrique Eduardo Alves é a de que ele, na ânsia de garantir sua eleição para a presidência da Câmara na sucessão do petista Marco Maia, faz acordos com o PT que relegam a um segundo plano os interesses partidários do PMDB, colocando seus interesses pessoais na frente, fragilizando o partido.

Por outro lado, o PSB, outro partido da coalizão governista que se sente alijado das principais decisões, está convencido de que a presidente Dilma está dominada pela dupla PT-PMDB, deixando pouco espaço para partidos menores, mas importantes, como ele próprio, o PDT e o PCdoB, siglas que formam historicamente o "bloquinho de esquerda" no Congresso.

A atitude da presidente Dilma de recusar a liderança de uma suposta "faxina ética" pode até mesmo decepcionar aqueles que viam na sua disposição uma política nova para a máquina pública.

E ainda há os que acreditam que ela continuará na tentativa de organizar a administração, embora controlando os gestos mais intempestivos e tentando soluções internas nos partidos aliados.

É o caso do PP, que está às voltas com brigas internas que podem levar o partido a perder a pasta das Cidades, única ameaça, aliás, capaz de fazer os dois grupos que a disputam parar de se digladiar em público.

Em vez de demitir seu quinto ministro, a presidente Dilma preferiu fazer vista grossa à entrevista que o ministro Negromonte concedeu em termos que deveriam ser considerados incompatíveis com o cargo que exerce.

Se estivesse ainda em vigor a "faxina", Negromonte já estaria no olho da rua, mas a nova orientação é para abafar as divergências, pelo menos até o momento em que a presidente decida fazer uma reforma ministerial por uma razão política, na proximidade das eleições municipais, que não dê a sensação de que os ministros substituídos o foram por questões éticas.

À medida que a questão econômica se agravar, em decorrência da crise internacional que parece inevitável, haverá maior dificuldade para o governo atender aos interesses fisiológicos de sua base aliada, e é preciso preparar um ambiente amigável para enfrentar tempos difíceis.

As questões políticas se misturarão então às econômicas, dando um tom diferente à convivência com uma base aliada tão numerosa quanto divergente nos interesses.

O ex-presidente Lula continua sabendo tratar os antigos aliados apenas com lisonjas e favores, como fazia quando exercia o governo em tempos de bonança, mas a presidente Dilma, que ainda não tem traquejo político, terá provavelmente mais problemas econômicos do que seu antecessor.

A partir desse quadro de dificuldades, é que ela será testada no governo. E por isso também ela vem aceitando com tanta tranquilidade as intervenções de Lula.

FONTE: O GLOBO

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