sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Obama comemora; Dilma não

Presidente americano afirma que a morte do ditador é um alerta para os regimes autoritários

Fernando Eichenberg e Roberto Maltchik

As principais potências saudaram ontem a morte do ditador Muamar Kadafi como o começo de uma nova etapa para o povo líbio. O presidente dos EUA, Barack Obama, comemorou a notícia como uma vitória dupla :um alerta para os regimes ditatoriais vigentes no Oriente Médio e uma confirmação de sua políticade“liderança pelos bastidores”, em que os EUA não enviam soldados a campo, mas participam de ataques aéreos da Otan, a aliança militar ocidental, e compartilham a responsabilidade com países aliados. Os EUA destacaram ter investido US$ 2 bilhões na intervenção sem perder uma única vida.

— Para a região, os eventos de hoje provam mais uma vez que os regimes de mão de ferro inevitavelmente chegam ao fim — disse o presidente.

Obama definiu a morte de Kadafi como um momento histórico e anunciou para breve ofim das operações da Otan. O presidente enfatizou a responsabilidade de, a partir de agora, o povo líbio iniciar o caminho para a construção de uma sociedade tolerante e democrática:

— A sombra escura da tirania foi levantada. Esperamos ansiosamente o anúncio da libertação do país, da formação rápida de um governo interino e de uma transição estável para as primeiras eleições livres e justas. Poucos dias depois de uma visita dasecretária de Estado americana, Hillary Clinton, ao país para oferecer ajuda adicional ao CNT,Obama reafirmou o compromisso de atuar como um parceiro do governo interino.

A reação americana marca ofim de uma tumultuada relação com oditador líbio, visto como um vilão responsável pelo ataque a bomba de 1988 de um voo da PanAm sobrea Escócia, além do ataque a uma discoteca em Berlim, em 1986.

No governo brasileiro, o tom não foi de festejo. Um dos últimos países que mantêm negócios na Líbia a reconhecer formalmente o Conselho Nacional de Transição (CNT), o Bra-sil condenou aviolência nas opera-ções da Otan, afirmando que as san-ções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU foram extrapoladas de uma zona de exclusão aérea para uma ofensiva militar.

Ainda assim, Dilma disse que o episódio impulsiona a oportunidade de reconstrução do país, após aqueda do regime de 42 anos, e afirmou que o Brasil buscará agir para que otrabalho se dê em um clima de paz.

— A Líbia está passando por um processo de transformação democrática. Isso não significa que a gente comemore a morte de qualquer líder que seja.O fatode estar em processo democrático é algo que todo mundo deve apoiar, incentivar.O que nós queremos é que os países tenham essa capacidade: viver em paz e democracia --- disse Dilma, em Luanda.

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O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, pediu o fim imediato das operações militares no país.

—O Brasil espera que a violência na Líbia cesse, que as operações militares se encerrem e que o povo líbio siga nas suas aspirações e anseios, no espírito de diálogo e de reconstrução — disse. Entre as potências europeias que apoiaram os rebeldes desde o princípio, os discursos foram de apoio à democracia na região.

— A libertação de Sirta deve marcar o começo de um processo acordado pelo CNT para estabelecer um sistema democrático em que todos os grupos no país tenham seu lugar,e onde as liberdades fundamentais estejam garantidas — disse, em comunicado, o presidente da França, Nicolas Sarkozy. O premier britânico, David Cameron,disse que a partir da morte de Kadafi o povo líbio tem mais chances de construir um futuro democrático. O secretário-geral da ONU, Ban Kimoon, também acredita em um episódio histórico para a transição:

— O caminho a percorrer será difícil e cheio de desafios para a Líbia. Entre os ex-aliados de Kadafi poucos se dispuseram a comentar seu fim. O premier italiano, Silvio Berlusconi, recorreu ao latim para se expressar.

— Sic transit gloria mundi (Assim passa a glória do mundo) — disse ele. — A guerra acabou. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, lamentou a morte e disse que Kadafi deve ser lembrado:

— Devemos lembrar de Kadafi por toda a nossa vida como um grande combatente, um revolucionário e um mártir. Eles o assassinaram. É outro ultraje — disse.

Com agências internacionais

FONTE: O GLOBO

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