quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tortura existencial :: Hélio Schwartsman

Embora já tenham constituído um Estado único, entre 1958 e 1961, a Síria não é o Egito. Enquanto os militares egípcios não hesitaram muito antes de sacrificar o ex-ditador Hosni Mubarak e ceder um pouco para preservar-se no poder, seus homólogos sírios dificilmente buscarão contemporizar.

Para a elite do governo e das Forças Armadas sírias, manter-se no comando é um imperativo existencial.

O presidente Bashar Assad e a cúpula do regime são alauitas, uma minoria religiosa que constitui cerca de 12% da população síria. Isolados por séculos nas montanhas próximas a Latakia, os alauitas desenvolveram uma teologia singularmente sincrética, que reuniu elementos neoplatônicos, gnósticos, cristãos, muçulmanos e do zoroastrianismo. Eles acreditam em reencarnação e consideram Ali, o quarto califa, Deus.

A linhagem de profetas inclui as costumeiras figuras do Antigo Testamento mais Cristo e Maomé, mas também Sócrates, Platão, Galeno e pensadores persas pré-islâmicos. Celebram o Natal e bebem vinho.

Para os sunitas, há aí uma lista telefônica de heresias. Até os alauitas assumirem o poder, nos anos 60, com Hafez Assad, muçulmanos em geral nem sequer os consideravam islâmicos. Desde então, às diferenças religiosas somaram-se quatro décadas de perseguições políticas que não serão esquecidas tão facilmente. Os alauitas sabem muito bem disso e farão tudo o que estiver a seu alcance para não cair nas mãos de seus rivais. Se isso viesse a ocorrer, perderiam não apenas seus privilégios mas muito provavelmente também suas vidas.

Uma amostra de sua determinação vem do relatório da comissão da ONU chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro: entre os cerca de 3.500 mortos pela repressão, contam-se 256 crianças -e outras tantas foram torturadas e estupradas.

É difícil imaginar uma solução de transição negociada para a Síria.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

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