terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Nara Leão ganha presente antipassado

Isabel Diegues lança site com todos os discos da mãe

Luiz Fernando Vianna

RIO - Foi só no final de 2011, quando a página www.naraleao.com.br estava praticamente pronta, que Isabel Diegues percebeu que sua mãe completaria 70 anos em 19 de janeiro, a próxima quinta-feira. No ar desde a semana passada, o site se transformou, então, num presente à memória de Nara Leão, morta em 1989, com apenas 47 anos.Um presente especialmente necessário num momento em que os discos da cantora estão fora de catálogo e ela só costuma ser lembrada como "a musa da bossa nova", embora tenha sido muito mais.

— As pessoas da geração dela têm uma relação muito íntima, falam da minha mãe com saudade. Mas acho que os mais jovens conhecem pouco, porque as músicas não tocam. Ela passou a ser vista como uma cantora de época — lamenta Isabel.

A cineasta e agora editora (da Cobogó) diz não ter esperança de que o site vá "reacender a chama" e levar as canções novamente ao rádio. Mas o vê como uma porta de entrada para a carreira diversificada e pioneira da mãe.

Quando a associavam à bossa nova, ela já estava estreando em disco, em 1964, gravando Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Keti e música de protesto. Foi a principal intérprete do jovem Chico Buarque, esteve no LP-manifesto do tropicalismo (1968), dedicou todo um disco à obra de Roberto e Erasmo Carlos em 1978, quando isso ainda não era considerado charmoso. E nunca se acomodou.

— É importante que as pessoas tenham acesso aos discos como eles foram feitos, para entender que as escolhas que ela fazia não eram aleatórias — afirma Isabel.

O comentário se refere às coletâneas, que se tornaram nos últimos anos a única forma de se ter em CD gravações de Nara. A Universal, proprietária de todos os discos da cantora, lançou duas caixas no início da década passada, mas não as manteve em catálogo. Até por isso Isabel optou por botar as músicas na íntegra no site. Não é possível baixá-las, mas elas podem ser ouvidas em streaming. Embora não tenha havido consulta formal, a Universal não proibiu.

— Não ajudaram, mas não atrapalharam — brinca ela.

Visual discreto e coerente

Frederico Coelho fez a pesquisa para a página na internet, que foi desenvolvida pelo escritório 6D. Tudo foi custeado por Isabel, que deu os primeiros passos na empreitada há três anos e decidiu não buscar patrocínio. A navegação é simples, havendo cruzamentos entre os tópicos: cronologia, galeria (fotos e vídeos), discografia (com capas e fichas técnicas), documentos (poucos) e pesquisa (bibliografia). O visual é discreto, coerente, portanto, com o jeito de Nara. Sua filha, aliás, preferiu não contar na cronologia detalhes da doença que abreviou a vida da artista.

— Não tenho nenhum problema quanto a isso, mas ela nunca parou de trabalhar, meteu o pé na porta e foi. Não faria sentido criar uma situação dramatizada em torno disso — justifica.

Nara teve um coágulo na cabeça descoberto em 1979. O tumor era inoperável, mas ela resistiu por dez anos, nos quais realizou oito discos e dezenas de shows. Passou por um momento difícil no início, o que levou Isabel e seu irmão, Francisco, a viverem seis meses com o pai, o cineasta Cacá Diegues. Na maior parte da década de 1980, no entanto, eles moraram com a mãe.

Isabel tinha 18 anos e Francisco, 17, quando Nara morreu. Pouco depois, em 1990, doaram o acervo ao Museu da Imagem e do Som. De acordo com a filha, só no ano passado foram iniciadas a catalogação e a digitalização. Foi o MIS quem forneceu as imagens do site. Há fotos pessoais e de fases diversas da carreira, inclusive duas com Chico Buarque. Também há um vídeo em que eles cantam "Dueto", do compositor. Roberto Menescal e Erasmo Carlos são outros que aparecem cantando com ela.

Se depender de Isabel, o conteúdo da página será gradualmente ampliado.

— É um organismo vivo. O que for aparecendo, podemos incluir — ressalta ela, afastando de si o papel de dona da obra da mãe. — Não sou pesquisadora nem especialista, apenas a filha.

Não fosse sua iniciativa, os 70 anos de Nara possivelmente passariam em branco.
Em 2011, foi montado o musical "Nara", apresentado no Rio e em São Paulo.

FONTE: O GLOBO

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