sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dentro no círculo:: Míriam Leitão

O Brasil em 2011 cresceu menos do que o governo esperava, menos do que o mercado projetou no início do ano, menos que a Alemanha, que está no meio do redemoinho do euro. Ainda não é o número oficial, é apenas um cálculo feito pelo Banco Central, mas deu um resultado pífio: 2,79%. Há efeito estatístico, crise mundial e política de aperto monetário, nesse resultado. É uma forte queda para um país que terminou 2010 em 7,5%.

Na área externa, o ano passado foi pior do que se imaginava. Uma série de sustos e inesperados subverteram todas as previsões. A economia americana começava a retomar o crescimento quando foi abatida pela disparada do preço do petróleo, que ocorreu após a explosão no mundo árabe. A Europa, que nunca se recuperou da crise de 2008, passou por uma onda de desconfiança que afetou até países considerados centrais, como a Itália. Essa incerteza atingiu em cheio a economia brasileira.

Aqui, o país tinha contratado mais inflação quando o governo elevou muito os gastos e acelerou o ritmo de atividade para ajudar a eleger a presidente Dilma Rousseff. Não foi o único fator que a levou à vitória, mas sem dúvida o governo Lula, no seu último ano, cumpriu com intensidade o fenômeno que ocorre no ciclo eleitoral. Aumentou o gasto público para criar o clima de otimismo que o crescimento do PIB produz. O resultado foi o 7,5% de crescimento do PIB e uma forte pressão inflacionária que também pegou carona no ciclo de alta internacional das commodities.

O ano e o novo governo começaram com um forte aumento de inflação, que chegou a bater em 7,31%, em setembro. Para neutralizar esse efeito, o Banco Central elevou os juros, apertou o crédito e o Ministério da Fazenda começou a tirar alguns dos benefícios fiscais para setores. O crescimento em 12 meses foi caindo de 7,5% até terminar o ano no número ainda não conhecido, mas que deve ficar abaixo de 3%, como indicou ontem o Banco Central.

É bom lembrar que em 2010 houve um efeito estatístico favorável, porque os dados eram comparados com uma base baixa, já que em 2009 o país ficou estagnado. No ano passado, houve o oposto, a comparação foi feita com uma base alta. O ano mostrou também um desencontro entre os setores. A distância entre indústria e comércio ficou ainda maior, com o varejo em crescimento vigoroso e a indústria sentindo o efeito da importação estimulada pelo real valorizado.

Todos erraram no ano passado: governo e mercado. No início do ano, a aposta oficial era num crescimento em torno de 5%. O Boletim Focus, que traz a média das projeções de mercado, mostrava que se esperava 4,5%. A previsão do mercado era de uma inflação no ano de 5,34%. E ela foi 6,5%. O país teve menos PIB e mais inflação do que economistas e governo previam.

- O PIB desacelerou para que a inflação não estourasse o teto da meta - acha o economista Luis Otávio Leal, do banco ABC Brasil.

E é em parte isso mesmo. Houve no governo muito debate com acusações intramuros ao BC. Ele foi acusado de ter errado na dose dos juros, que chegaram a 12,5%, com alta de 3,75 pontos de julho de 2009 a julho de 2011. No terceiro trimestre, quando o PIB foi zero, a tensão foi maior. Por isso, o BC suspirou aliviado e até comemorou o fato de ter terminado em 6,5%, no teto máximo do intervalo de flutuação, mas permitindo que o governo dissesse que a meta não foi descumprida.

- Tivemos um PIB muito fraco no terceiro trimestre, mas que se recuperou um pouco no quarto. A desaceleração foi provocada por uma combinação de fatores: aperto monetário no início do ano, medidas macroprudenciais (aperto de crédito), piora nas perspectivas da Europa. Também tem que lembrar que em 2011 houve terremoto no Japão, revoltas no Norte da África, rebaixamento da classificação de risco dos Estados Unidos - resume o economista Alexandre Maia, da GAP Asset.

Pior do que um número pífio são as contradições que a conjuntura econômica está acumulando. A indústria já não conversa com a economia. O PIB cresce pouco, mas cresce. A indústria ficou praticamente estagnada no ano passado. A cada queda forte do dólar vários setores têm dificuldade de exportar, e alguns não aguentam competir aqui com o produto importado.

- Foi um ano em que a indústria sentiu mais. Ela estava com estoques muito elevados e teve que reduzir a produção para queimar estoques - diz o economista Alexandre Póvoa.

A balança comercial teve no ano passado um bom resultado porque a China sustentou os preços altos de commodities. Mas para este ano o governo nem quer fazer previsão de balança comercial. A Associação de Comércio Exterior (AEB) prevê forte queda do saldo comercial para o fechamento de 2012.

A economia está prisioneira desse dilema: se crescer um pouco mais, tem que derrubar o ritmo para manter a inflação controlada, em níveis altos. A meta de 4,5% já é alta para os padrões mundiais e nem isso tem se conseguido.

- A inflação de serviços passou todo o ano acima de 8%. Tem muita gente achando que o Banco Central teve sucesso na sua medida porque a inflação em 12 meses está em queda, mas estamos no terceiro ano seguido com taxas acima de 5% - diz Póvoa.

O país ficou dentro do círculo: se cresce um pouco mais, a inflação sobe; aí o Banco Central tem que subir os juros, que atraem mais capital externo de curto prazo. Isso derruba o dólar, que tem efeitos diretos na capacidade da indústria de sustentar o crescimento. A indústria pede medidas contra o produto importado, mas é ele que ajuda a impedir a alta da inflação. São esses círculos que precisam ser rompidos para que o país cresça de forma sustentada e com inflação sob controle.

FONTE: O GLOBO

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