quarta-feira, 14 de março de 2012

Política econômica, coleção Dilma:: Vinicius Torres Freire

Ministro da Fazenda vai ao Senado e na prática torna oficial a grande mudança na gestão da economia

A economia brasileira tem ficado muito exótica nesse primeiro ano e pico do governo de Dilma Rousseff. Para ser mais preciso, a economia real ela mesma não mudou grande coisa, mas a política e os indicadores macroeconômicos se travestiram de "neodesenvolvimentismo".

A audiência do ministro Guido Mantega de ontem no Senado apresentou outras peças da coleção de outono da nova política econômica.

O ministro quase tornou "oficial" uma banda de flutuação do câmbio do dólar, que flutuaria mais ou menos entre R$ 1,70 e R$ 1,90.

A gente não pode chamar a coisa de "câmbio quase-fixo", como aquele com correções graduais do governo FHC 1, claro. É um câmbio assim, digamos, rivotril, que toma um sossega-leão quando desce a escada correndo para além de R$ 1,70, enervando a indústria, ou quando sobe a ladeira para R$ 1,90, enervando os preços e a inflação.

Não faz muito tempo, ainda em 2008, o Banco Central brasileiro falava bancocentralês com sotaque alemão. Era duro, "falcão". Mesmo à beira do abismo da crise de 2008, o BC elevava a taxa de juros básica, de olho apenas na inflação e nos seus indicadores mais imediatos.

O BC tinha um objetivo, um instrumento. Pretendia manter a inflação na meta; ao menos tentava, tentando impedir que ela se desviasse do alvo mesmo em prazos curtos.

Bulia com o câmbio apenas com a compra de reservas e algumas intervenções sedativas, em caso de hiperatividade do mercado. Instrumentos alternativos de controle da inflação e preocupações práticas com o crescimento da economia no curto prazo eram anátema.

O BNDES era então bem menor, mais de R$ 200 bilhões menor. Não havia objetivo para o câmbio, meta de crescimento de curto prazo, controles de capitais, taxa básica de juros caindo com inflação ainda fora das vizinhanças da meta, avisos explícitos do BC sobre o tamanho dos juros no futuro.

Por falar em juros e dígitos, a taxa real de juros no Brasil se aproxima de 3%. Na campanha eleitoral de Dilma Rousseff, em 2010, tal objetivo chegou a ser mencionado, mas como uma proeza a ser concluída apenas no fim do governo, se desse tudo certo. Isso na própria visão do comando da campanha e da candidata. Agora, chegamos aos tais 3% por meio de uma combinação algo exótica e heterodoxa de inflação mais alta e juros em baixa.

Sim, decerto a prática e o pensamento da política econômica no centro do antigo mundo rico (euroamericano) não apenas estão de pernas para o ar como têm o dom de nos colocar de cabeça para baixo aqui no Brasil. O tempo é de experimentos, até porque a dita linha "dura e justa" da ortodoxia (ou o modo malandro como era praticada) deu em desastre feio e bandalhas.

Mas reconheça-se, de qualquer modo, que a política econômica está irreconhecível no Brasil. Ao menos se comparada à de 2008.

Para o grande público, no curto prazo, isso não perfuma nem odoriza o dia a dia, mas tais mudanças lentamente acabam por dar novo rumo para a economia, para a relação do país com seus parceiros econômicos, altera preços, favorece uns negócios, prejudica outros (enfim, transfere aos poucos de uns setores para outros) etc. Se vai dar certo, sabe-se lá. Nem os economistas se entendem. Mas o clima mudou.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

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