sábado, 28 de julho de 2012

De Londres, Dilma manda recado a montadoras

Presidente cobra compromisso de empresas que receberam incentivos, após suspensão de operações pela General Motors

Luiz Ernesto Magalhães*, Lino Rodrigues, Débora Diniz

LONDRES, SÃO PAULO e RIO. A presidente Dilma Rousseff mandou um recado ontem aos setores beneficiados por programas de incentivos fiscais. Segundo ela, esses benefícios só fazem sentido se os níveis de emprego forem mantidos para que toda a população seja favorecida com a geração de renda. A declaração foi feita ontem pela manhã em Londres, onde a presidente participou da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.

A política de incentivos fiscais, como a redução de IPI, foi adotada pelo governo federal como forma de estimular a economia e reduzir o impacto da crise global no país. As declarações da presidente foram interpretadas como um recado ao setor automobilístico. Na última terça-feira, a General Motors (GM) suspendeu a produção em todo o seu complexo de São José dos Campos (SP), composto por oito unidades (carros, motores e peças).

- Nós damos incentivos fiscais e financeiros. E queremos um retorno para o país inteiro: a manutenção de empregos. Permanentemente, estamos olhando para isso. E não são apenas as montadoras. Todos os setores da economia têm de saber que o motivo para esses incentivos é garantir a renda e o emprego do povo brasileiro - disse Dilma.

O maior problema estaria no setor, com 1.500 empregados, que fabricava os modelos Corsa hatchback, Meriva, Zafira e Classic. Destes, só o Classic continua sendo produzido. Uma nova reunião entre a empresa e o sindicato dos metalúrgicos foi marcada para o dia 4, quando será definido o futuro daqueles 1.500 empregados. O sindicato agora teme que todos os funcionários licenciados sejam demitidos.

Anfavea diz que setor, na verdade, vem contratando

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) rebateu ontem as declarações da presidente Dilma. O diretor de Relações Institucionais da entidade, Ademar Canteiro, citou os números de junho, que destacam crescimento de 1.900 postos em relação a maio, para um total de 146,9 mil empregados. No ano, o aumento do nível de emprego é de 1,3% e, em 12 meses, de 2,9%.

- Setorialmente, não tem havido demissões na indústria automobilística nacional. O caso da GM é pontual, e cabe a ela explicar ao governo o que está acontecendo - disse Canteiro.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, confirmam os números da Anfavea: de janeiro a junho, o saldo é de 3.559 contratações na fabricação de automóveis, camionetes e utilitários. Frente ao mesmo período de 2011, o saldo é de 4.979 contratações:

- Nosso acordo com o governo é manter o nível de emprego no setor, com exceção de programas de demissão voluntária, lay off (suspensão de contratos de trabalho) e contratos temporários.

Procurada, a GM não fez comentários. A montadora e a Anfavea vão se reunir com o ministro Guido Mantega na terça-feira para prestar esclarecimentos. Para os analistas, o setor automotivo vive um momento delicado, devido à queda do consumo. A instabilidade econômica internacional aumenta a insegurança e, aliada ao alto nível de endividamento das famílias, reduz o apetite pelas compras. Por isso, medidas como a redução do IPI são vistas como fundamentais para garantir a curva de desempenho no nível positivo.

- As projeções que foram feitas para o mercado interno são fracas, e as expectativas estão muito atreladas aos acontecimentos globais. As medidas de incentivo, como a redução do IPI, melhoraram o desempenho do setor - destaca José Othon de Almeida, sócio da Deloitte para indústrias manufatureiras.

Em Londres, Dilma, que se reuniu com a rainha Elizabeth II no Palácio de Buckingham, prometeu também lançar, entre agosto e setembro, um programa de investimentos para tentar acelerar o desenvolvimento da economia brasileira:

- Acreditamos que vamos crescer a uma taxa maior. Mas mesmo hoje temos assegurado um nível de crescimento bastante significativo, considerando o cenário internacional. O governo fará uma política de investimentos para portos, aeroportos, ferrovias e rodovias. Também avaliamos possibilidades de desoneração tributária.

A presidente disse que a decisão de reduzir os custos da energia elétrica para o consumidor doméstico e industrial, com a extinção de encargos, encontra-se entre as estrategias a setem adotadas no pacote de incentivos à economia que está sendo preparado. Na quinta-feira, em Brasília, o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, estimou que as tarifas possam cair até 10%. Uma medida provisória deve ser editada para que a redução do valor pago pelo consumidor na ponta possa ser colocada em prática rapidamente.

Ao comentar sua reunião sobre a crise na zona do euro na quarta-feira com o premier britânico, David Cameron, Dilma disse que o Brasil não é uma ilha e também sofre com a crise:

- Não há um país que passe por uma crise dessas sem consequências. A diferença do Brasil é que temos uma situação fiscal, financeira e bancária diferenciada.

* Enviado especial a Londres

FONTE: O GLOBO

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