segunda-feira, 12 de novembro de 2012

As duas margens da história - Wilson Figueiredo

Não tem hora marcada, mas nada vai impedir o que tiver de acontecer. A questão presidencial depende mais do imponderável que dos atores,  na oportunidade que se limita às candidaturas da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio etc. No caso dele, reincidência.  Resta saber qual das duas hipóteses prevalecerá como solução natural e o que pode suceder à candidatura excedente.

Em política, mas principalmente em eleição, entre pretendentes de procedência diversa não há observação a fazer. A situação muda quando a origem é a mesma. Localizam-se aí, geralmente, as cisões partidárias cujas conseqüências fazem história à margem da própria. Pode-se considerar também  algo imprevisível nas candidaturas de Lula ao terceiro mandato e de Dilma Rousseff ao segundo, apertados numa única chapa. Um de vice, como prêmio de consolação. Mas é assunto de que se pode tratar sentado.

Depois de três insucessos nas urnas, Lula aposentou a proposta pendendo à  esquerda e, tangenciando a direita, numa carta aos brasileiros e, por uma visão mais objetiva, chegou à   presidência da República e à  reeleição com a maior facilidade. Ao preço da uma carta-manifesto que o brasileiro não precisou ler, porque foi o óbvio que viabilizou o acesso de Lula ao poder e deixou o petismo na sala de espera do Planalto.

O mandato do qual a presidente Dilma já deu conta da metade (enquanto o antecessor se recupera do que não fez nos dois que lhe couberam) valeu opinião pública favorável e não disfarça preferência por um toque de moralização política e administrativa. 

A questão vai ser resolvida no curso da sucessão, se o que se apresenta como oposição não chegar às vias de fato eleitoral. Por enquanto, não parece provável  uma candidatura oposicionista digna de esperança.

Quando Lula resolveu  o problema  com o PT mediante lançamento da candidatura Dilma Rousseff, não percebeu que estava criando outro, obviamente muito mais delicado. Fazer um candidato é mais fácil do que desfazer uma candidatura. O problema decorrente veio a ser a hipótese da reeleição da presidente, graças às pesquisas. Lula cuidou de não deixar, entre o criador e a criatura, respectivamente ele e Dilma, espaço para intermediários. Assumiu a paternidade da candidatura e, contra seus hábitos, fez hora extra e trabalhou em regime de dedicação exclusiva. Botou para correr os intermediários de oportunidades. E
tratou de passar adiante, como quem não quer nada, a versão de que a presidente iria fazer o papel de rainha da Inglaterra e a ele caberia governar por intermédio dela. Dona Dilma, porém, aproveitou a oportunidade e tratou de ter eleitorado próprio, com indicações preciosas na formação do seu governo para contar com o eleitorado que chegava, de mala e cuia,  para engrossar a classe média.

 A conseqüência não se fez esperar e a ética voltou a ter cotação em alta na bolsa  (e em baixa no bolso).  Cada pesquisa mensal de opinião pública distinguia a presidente com números de fazer inveja. E fez..

O ex presidente fez de conta que estava ciente e  passou a andar em círculos, como sintoma de que perdera o fio da meada. E tantas fez que não deixou aumentar a distância entre a presidente e ele.  

A candidatura  Dilma dispõe do suficiente para atender mais depressa  às aspirações da classe média, que havia  se estabelecido com peculiaridades universais e nacionais perfeitamente assimiláveis. Ficou demonstrado que Dilma vê mais claro e mais longe. E assim o tempo cumpre a sua parte sem atropelar a vida alheia. e o lastro da democracia.

O resto não passa de conseqüência antecipada, nem altera os equívocos presumíveis. O ponto de partida da candidatura Dilma Rousseff foi o bloqueio social e político do terceiro mandato de Lula. Já deu para perceber no eleitorado os primeiros sinais de que o Brasil pode ser o mesmo, mas o brasileiro já se apresenta politicamente como democrata funcional, tem peso nas pesquisas de opinião e vota com desembaraço eletrônico.

Por essa fresta, que não preocupa o patrocinador da candidatura Dilma, os dois – o padrinho e a candidata natural à próxima reeleição _   levaram a classe média, que tem mais de velha do que de nova, a se refazer com a brisa moralizante, embora sem convicção suficiente para  a limpeza completa de dentro para fora do governo.  

O que aconteceu até a metade do governo Dilma e o que deverá  ser o saldo a ser compartilhado entre o padrinho e a candidata, pode não ser previsível, mas o prejuízo será alto. Assim que se consumar o último capítulo desta história prolongada, as versões  terão o sabor de verdades tardias.

Fonte: Jornal do Brasil

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