quinta-feira, 30 de maio de 2013

Politização torna coleta de provas mais difícil, diz PF

Para agentes, embate entre governo federal e oposição atrasa identificação dos boatos sobre o Bolsa Família

Pagamento antecipado pode ter estimulado corrida aos bancos, mas ação de telemarketing ainda é alvo de apuração

Matheus Leitão

BRASÍLIA - Estimulada por integrantes do governo e da oposição, a tentativa de politizar a investigação sobre o boato do encerramento do Bolsa Família tem prejudicado as apurações e diligências feitas por agentes da Polícia Federal.

Segundo a Folha apurou, os investigadores reclamam, nos bastidores, que o viés político do caso dificulta sobretudo a coleta de provas nos Estados em que houve saques em massa dos benefícios.

Instaurado para descobrir a origem da falsa notícia sobre o fim do programa social, que teria causado corrida aos bancos nos dias 18 e 19, o inquérito corre em meio ao acirramento das declarações de conteúdo político.

Já no primeiro dia a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) escreveu no Twitter que os boatos "devem" ter sido criados pela oposição ao governo Dilma Rousseff.

A declaração, embora posteriormente suavizada pela ministra, tem gerado reações da oposição, que chegou a pressionar o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, para uma solução rápida do caso.

Vaivém

Para a corporação, outro fator que causou constrangimento dentro da polícia foi o desencontro de informações prestadas pela Caixa Econômica Federal publicamente e para os investigadores.

Em um primeiro momento, o banco estatal afirmou que liberou o benefício após a confusão provocada pelos boatos, e com o único objetivo de aplacar o pânico dos beneficiários do programa.

Após a Folha revelar que uma dona de casa em Fortaleza (CE) conseguiu retirar seu pagamento de forma antecipada, o banco admitiu que houve mudança no calendário de repasses na véspera da eclosão das falsas notícias em 13 Estados do país.

Varredura

A PF tem ouvido pessoas atendidas pelo programa em todos os Estados em que houve corrida às agências da Caixa. As regiões Norte e Nordeste são os principais focos da investigação policial por ora.

Os depoimentos têm levado os investigadores a nomes novos, que estão sendo ouvidos em seguida.

Os agentes esperam chegar à origem da boataria para tentar responder se a difusão da falsa notícia ocorreu de forma articulada ou não.

Linha cruzada

Investigadores que apuram o envolvimento de empresa de telemarketing no Rio no caso descobriram que um beneficiário do programa recebeu a suposta ligação em uma linha telefônica ilegal, procedente do morro do Alemão.

A linha irregular cria obstáculos para o rastreamento da chamada. Para os investigadores, a suspeita é que o telefonema tenha sido feito por uma central comunitária instalada na favela.

Uma operadora informou à PF que o telefone do beneficiário cadastrado no Bolsa Família estava desconectado por falta de pagamento.

O fato de a Caixa ter adiantado o dinheiro é uma das linhas de investigação.

De acordo com os policiais, a antecipação não explica a boataria generalizada, mas pode ter gerado "ilações" a respeito. Para a PF, o adiantamento do pagamento pela Caixa pode ter contribuído para o aumento dos saques.

Fonte: Folha de S. Paulo

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