domingo, 1 de setembro de 2013

Casa de suspeitos - O saco de gatos da Casa Civil

Ex-assessor suspeito de pedofilia e estupro é preso no Paraná, mas órgão ligado à Presidência ainda emprega servidor acusado de tentar furar uma blitz de trânsito

Paulo de Tarso Lyra e Karla Correia

A Casa Civil está novamente no centro das atenções por denúncia de irregularidades praticadas pelos servidores. A ministra Gleisi Hoffmann foi convidada pela Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara para dar explicações sobre o ex-assessor da pasta, Eduardo André Gaievski, preso ontem depois de passar nove dias foragido, acusado de pedofilia e aliciamento de menores durante o período em que foi prefeito de Realeza (PR). Além disso, o subchefe de Articulamento e Monitoramento da pasta, Luis Antonio Tauffer Padilha, teve a carteira de habilitação cassada após furar um bloqueio policial em Brasília. E o subchefe de assuntos jurídicos, Ivo Corrêa, é pressionado pela oposição a dar explicações na Comissão de Ética da Presidência por já ter sido diretor de relações governamentais do Google.

Ontem, por volta das 6h, Eduardo André Gaievski foi detido por policiais civis em Foz do Iguaçu (PR) e transferido para Curitiba. Ex-prefeito de Realeza, no sudoeste do Paraná, ele deixou o cargo de assessor especial da Casa Civil em 24 de agosto, logo depois de ter um mandado de prisão preventiva expedido contra ele. Petista, Gaievski é investigado por estupro de vulnerável. Segundo o advogado Natalício Farias, que representa a família de três supostas vítimas, Gaiesvski teve ajuda de outras mulheres para levar meninas de 13 e 14 anos a motéis. Os favores sexuais eram retribuídos com dinheiro e cargos na prefeitura. Na última segunda-feira, a Executiva do PT no Paraná suspendeu Gaievski do partido. As investigações estão a cargo do Ministério Público do Paraná em Foz de Iguaçu e da Polícia Civil.

Tauffer Padilha, cuja retenção da habilitação foi publicada no Diário Oficial do Distrito Federal de 23 de fevereiro de 2012 por ter tentado romper uma barreira policial durante uma blitz de trânsito, não é um servidor qualquer. Apontado como um dos cabos eleitorais da chefe da Casa Civil, ministra Gleisi Hoffmann, durante as eleições para o senado em 2010, Padilha ocupa atualmente o mesmo cargo exercido por Miriam Belchior — atual ministra do Planejamento — durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Na época, ela era responsável por assessorar a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A condução do PAC migrou para o Planejamento com Miriam Belchior, o que, em tese, esvaziou um pouco a subchefia de Articulação e Monitoramento. Mas Padilha ainda exerce o papel de negociações com prefeituras, atua nas nomeações para o Ministério das Cidades e tem trabalhado para emplacar aliados na Autoridade Pública Olímpica (APO). Por meio da assessoria da Casa Civil, Tauffer Padilha disse que não furou o bloqueio de trânsito e que recorreu da multa.

Já Ivo Corrêa teve sua atuação como diretor do Google publicada pelo Correio na edição de 15 de julho. A reportagem mostra que ele abdicou do cargo de servidor do Ministério do Planejamento para trabalhar como diretor de Relações Governamentais do Google. Quando foi nomeado para a subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, passou a analisar, entre outras questões, o marco civil da internet o que, em tese, configura conflito de interesse.

A assessoria da Casa Civil respondeu que, para a contratação de qualquer servidor em cargos de confiança na administração pública federal, o governo realiza uma pesquisa com instrumentos de uso estrito dos órgãos de inteligência. A investigação se dá antes do ato da nomeação e não existem monitoramentos posteriores, tampouco previsão de revisão destes procedimentos. Segundo a nota, no caso específico de Gaievski, ainda é preciso ser levado em conta que o processo corria em segredo de justiça.

Memória

Alvo de denúncias

Desde que o PT assumiu o poder, em 2011, a Casa Civil da Presidência da República tem sido um foco de problemas para o Palácio do Planalto. O primeiro titular da pasta, José Dirceu, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 10 anos e 10 meses de prisão por comandar o esquema do mensalão. Nomeado para o cargo no início da gestão de Dilma Rousseff, Antonio Palocci caiu após as denúncias de que teria tido uma evolução patrimonial de 20 vezes, saltando de R$ 375 mil para R$ 7,5 milhões entre 2006 e 2010, quando foi deputado federal.

No fim do segundo mandato de Lula, a então ministra Erenice Guerra também foi obrigada a deixar a pasta. Em setembro de 2010, denúncias divulgadas na imprensa acusaram Israel Guerra, filho de Erenice, de participar de um esquema de tráfico de influência, em que cobraria propina de 6% para facilitar negócios com o governo.

Antes mesmo do mensalão, no entanto, a Casa Civil já produzia escândalos. Foi de lá que saiu a primeira crise do governo Lula. Em 2004, veio a público a gravação de um vídeo em que o então subchefe de Assuntos Parlamentares do Planalto aparecia cobrando propina do bicheiro Carlinhos Cachoeira para o PT e para si. A gravação era de 2002, quando Waldomiro presidia a empresa de loterias estaduais do Rio de Janeiro, a Loterj, no governo de Anthony Garotinho. Quando o vídeo foi divulgado, Waldomiro elaborava uma medida provisória para legalizar os bingos do país, que acabou abortada. Em 1º de março de 2012, a Justiça do Rio condenou o servidor a 12 anos de reclusão, três anos de detenção e multa de 170 mil reais. Ele ainda pode apelar em liberdade da sentença.

Fonte: Correio Braziliense

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