segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Eleita com folga, Bachelet quer reformas no Chile

Socialista obteve mais de 60% dos votos; entre as promessas estão ensino gratuito e reforma tributária

A candidata socialista Michelle Bachelet foi eleita a nova presidente do Chile com ampla vantagem. Com 98,16% das umas apuradas até o início da noite de ontem, Bachelet tinha 62,2% dos votos contra 37,8% da candidata governista Evelyn Matthei. Bachelet, que governou o país de 2006 a 2010, planeja uma ampla agenda de reformas. Ela propõe instituir um sistema educacional gratuito e promover uma reforma tributária para bancar as mudanças no ensino. Bachelet também quer elevar o valor das aposentadorias e mudar o sistema eleitoral. Mas o baixo comparecimento de eleitores às urnas pode dificultar a aprovação da reforma constitucional, segundo analistas políticos.

Chilenos elegem Bachelet em 2º turno com baixa participação do eleitorado

Guilherme Russo

SANTIAGO - Michelle Bachelet, líder da coalizão Nova Maioria, foi eleita ontem a nova presidem te do Chile em um segundo turno marcado pelo baixo comparecimento da população. A socialista, que já governou o país de 2006 a 2010, derrotou a conservadora Evelyn Matthei por uma diferença expressiva de votos - com 98,16% das urnas apuradas, Bachelet tinha 62,2%, contra 37,8% de Matthei.

A conservadora reconheceu a derrota no início da noite. "Meu desejo mais honesto e profundo é que tudo vá bem para ela. Ninguém que ame o Chile pode desejar o contrário", afirmou.

A presidente eleita participou ontem de uma comemoração em frente ao hotel onde estava seu comando de campanha na capital, Santiago. Diante do local, um palco foi montado e militantes começaram a chegar assim que os primeiros resultados foram divulgados.

"Ganhou a chefa! A que saber mandar. A outra não sabe nada!", disse o inspetor de transporte coletivo José Riquelme, de 44 anos. "É um grande triunfo para o povo chileno. Uma alegria enorme", afirmou o mecânico Marco Llanor, de 57 anos, que veio para a comemoração com o filho, a nora e a neta.

Um vídeo em que Bachelet era entrevistada por correligionários foi exibido no telão do palco. "Serei a presidente de todos os chilenos e todas as chilenas", disse a socialista.

A votação que confirmou a vantagem dada por pesquisas a Bachelet, no entanto, teve um comparecimento muito baixo. As filas que os chilenos enfrentaram para votar em 17 novembro não se repetiram no segundo turno da disputa.


Foram as primeiras eleições presidenciais no Chile sem voto obrigatório. No primeiro turno, pouco menos da metade dos votantes registrados foram às urnas: 6,7 milhões, em um universo de 13,5 milhões. Os números do segundo turno ainda não foram divulgados.

Desencanto. Nos centros de votação visitados pelo Estado em Santiago ontem, o movimento erabaixo. No Estádio Nacional do Chile, onde longas filas se formaram em novembro, não havia espera para votar. As urnas, de vidro emoldurado, tinham poucos votos às 13 horas - e uma mesária dormia sobre os registros de votação.

"Tem muito menos gente. No primeiro turno, esperei meia hora na fila, hoj e (ontem), não esperei nenhum minuto. O desencanto é muito grande com a classe política", afirmou o administrador de hotéis Cris-tián Verdugo, de 50 anos.

"Como agora o voto é voluntário, as pessoas deixaram de lado o comprometimento cívico, pois não existe mais essa obrigatoriedade", disse a dona de casa Natacha Moran, de 63 anos, após votar.

A mesma impressão tinham os eleitores que votavam em centros eleitorais que concentravam menos mesas. "Da outra vez, esperei uma hora. Hoje (ontem), não demorei nem três minutos. O voto deveria voltar a ser obrigatório", afirmou o motorista de ônibus Angel Arias, de 55 anos.

Analistas políticos chilenos ressaltam que uma baixa participação prejudicará Bachelet na implementação de suas principais promessas de campanha. Com a maioria que possui no Parlamento, de 55% nas duas Casas, sua coalizão tem votos suficientes para aprovar suas principais medidas - como a criação de um sistema educacional gratuito e de qualidade e uma reforma tributária que bancaria as mudanças na educação.

Para conseguir aprovar a reforma constitucional que pretende fazer, porém, a socialista precisará cooptar parlamentares da oposição, em busca da maioria qualificada necessária - para tanto, um grande número de votos do eleitorado chileno. daria a ela o cacife político necessário para convencer os conservadores a apoiá-la.

Diálogo. "Este é um dia muito importante. Espero que as pessoas possam participar e, com o seu voto, dar uma clara expressão de qual é o Chile em que queremos continuar vivendo.

Do ceticismo não se produzem as mudanças de que precisamos", afirmou Bachelet pouco após votar, na manhã de ontem, no Colégio Enrique Teresiano Ossó.

Evelyn Matthei adotou discurso conciliador. Pouco antes de votar, a candidata conservadora já havia reconhecido que uma vitória seria quase impossível. "Vou pedir diálogo a ela.

Que não haja arrogância de ne-! nhum lado", disse Matthei à emissora TVN. Ela afirmou que seria um "milagre" se ela fosse eleita. "Pela maneira que começamos, na última hora (...), seria uma façanha (vencer)."

A ex-dirigente estudantil Camila Vallejo, eleita deputada pelo Partido Comunista em novembro, pediu que o voto se torne obrigatório novamente no Chile. "Sou partidária da volta ao voto obrigatório, de que todos estejamos automaticamente inscritos nos registros eleitorais e tenhamos a obrigação de votar — mas, se não quisermos, possamos nos retirar do registro", disse no Estádio Bicentenário, onde votou ontem.

Agressão. O ex-candidato conservador à presidência chilena Pablo Longueira, que abandonou a disputa 16 dias após vencer as primárias da Aliança, em julho, foi agredido na manhã de ontem quando foi votar.

De acordo com a polícia, quatro pessoas foram detidas após cuspir no político gritou palavras de ordem contra ele. Poucos minutos depois, Matthei negou ao mesmo centro eleitoral para votar e, enquanto falava com a imprensa, foi interrompida por uma mulher que gritava críticas contra a candidata. Matthei pediu que ela falasse depois e não interrompesse o trabalho dos jornalistas.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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