terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Legado do mensalão para o futuro do PT - Raymundo Costa

O legado do PT não deveria ser o mensalão

De amanhã até sábado, o PT realiza em Brasília seu 5º Congresso Nacional para discutir o "legado e futuro do projeto democrático popular" - o que fizeram os governos do partido nos últimos 11 anos e o que o PT reserva para depois das eleições de 2014. Cerca de 800 delegados são esperados para o encontro. Mas o primeiro item da pauta diz respeito ao passado, o mensalão, uma página que o PT tenta mas não consegue virar de sua história.

A abertura do congresso será na noite deste dia 12, com a presença da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as duas maiores expressões do PT. Dilma e Lula foram poupados da pajelança, mas não está inteiramente descartado que um deles fale do mensalão. O congresso começa para valer às 10h do dia 13, com a "solidariedade aos companheiros injustiçados". Estão escalados para falar os irmãos do ex-deputado José Genoino e de Delúbio Soares e o filho de José Dirceu.

À exceção de Genoino, que cumpre prisão em casa, Dirceu e Delúbio estão na Papuda, presídio em frente ao qual até dias atrás estava armado um acampamento de militantes petistas solidários aos companheiros encarcerados. A barraca mudou de lugar, agora está ao lado do Supremo Tribunal Federal (STF), e os acantonados ameaçam subir até o centro de convenções onde se realizará o 5º Congresso Nacional.

O acampamento reúne partidários de José Dirceu e outros condenados na Ação Penal 470, mas também jovens militantes da base petista. Entre eles muitos que foram cobrados, pela direção nacional, por serem surpreendidos pelas manifestações de rua ocorridas no mês de junho. Desta vez a direção e os jovens estão em direções opostas, uma vez que em junho líderes e liderados petistas foram igualmente surpreendidos pelas ruas.

A ideia de organizar um acampamento em frente ao presídio da Papuda surgiu entre jovens que se reuniram em frente à Polícia Federal, no feriado de 15 de novembro, para recepcionar José Dirceu e José Genoino, que, na véspera, se apresentaram à Polícia Federal em São Paulo. Um grupo variado, integrado por militantes de núcleos de jovens do PT, setores da Central Única dos Trabalhadores e correligionários e amigos de José Dirceu, especialmente.

O grupo cresceu depois que organizou um jantar de solidariedade aos políticos presos, em Brasília. Na primeira semana, os parlamentares que foram visitar os três encarcerados - além de Genoino e Dirceu, o ex-tesoureiro Delúbio Soares também se entregara à PF - transformaram a tenda armada no local num ponto para receber jornalistas e conceder entrevistas de solidariedade aos prisioneiros do PT.

No acampamento surgiu a ideia de "mil cartas" aos companheiros presos - estima-se que 300 já foram remetidas. Pelo menos duas caravanas estaduais de militantes petistas aportaram em frente ao presídio da Papuda. Um integrante da juventude petista está num encontro no Equador, onde tenta articular um movimento internacional de solidariedade.

Os jovens solidários aos petistas presos consideram "clandestina" a manifestação de solidariedade organizada para o 5º Congresso Nacional. Muito embora o deputado Rui Falcão tenha visitado os três na prisão, eles também consideram insatisfatória a posição assumida pelo PT. Condenam as declarações pendulares de Lula, postergando indefinidamente a promessa de provar que o mensalão "nunca existiu".

Dilma também não escapa das críticas. A presidente da República, desde o julgamento da Ação Penal 470, procura manter uma distância institucional em relação ao escândalo que consumiu o Partido dos Trabalhadores. Fez uma exceção, "pessoal", segundo se apressou a esclarecer, para mostrar preocupação com o estado de saúde do ex-deputado José Genoino, que em julho último submeteu-se a uma delicada cirurgia cardíaca.

Com a proximidade da abertura do 5º Congresso, a direção nacional do PT aumentou a pressão sobre a direção local e a Secretaria de Juventude do partido, inclusive com o "corte das marmitas" que o PT de Brasília estaria fornecendo aos acampados, uma prática usual nas grandes manifestações realizadas na Esplanada dos Ministério, mas negada pelos petistas do DF no caso atual.

A pressão do comando do PT é feita nos bastidores e até agora não teve resultados. Até agora. Os jovens que veem "presos políticos" em Dirceu, Genoino e Delúbio não arredaram o pé e se mantêm sitiados nas imediações do Supremo Tribunal Federal. Elementar, quando a própria direção inclui na pauta do 5º Congresso uma cerimônia de "solidariedade" aos condenados do mensalão.

O temor da direção nacional do PT é que o grupo faça caravanas em direção ao centro de convenções onde o PT realiza o 5º Congresso Nacional. A "marcha sobre o 5º Congresso", se efetivamente ocorrer, não deveria ser surpresa para companheiros graduados que passaram todo o julgamento da AP 470 colocando sob suspeição o julgamento do mensalão. No próprio texto em discussão no 5º Congresso o sistema judicial brasileiro é classificado de "elitista" e permeado por "interesses privados".

A pressão do comando nacional petista sobre os "jovens solidários" começou à época em que o acampamento ainda estava em frente ao presídio da Papuda. Sem êxito, até agora. Os jovens petistas se organizam por meio das redes sociais e e-mails. Mas este talvez seja o único ponto em comum com os jovens que tomaram as ruas em junho último.

À época, as reivindicações que deixaram surpresos a direção do PT e a juventude petista eram a melhoria do transporte público, a manutenção dos poderes de investigação do Ministério Público e um "padrão Fifa" para a saúde, educação e segurança pública. O legado do PT não deveria ser o mensalão. O 5º Congresso é uma ótima oportunidade - talvez a última - para o partido entrar em sintonia com as reivindicações de junho e assim passar um bom exemplo para suas gerações futuras.

Fonte: Valor Econômico

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