terça-feira, 22 de abril de 2014

Raymundo Costa: A reeleição de Dilma, a Petrobras e o PT

Compra de refinaria expõe interesses e divisão no PT

- Valor Econômico

O índice de aprovação do governo Dilma Rousseff caiu para 34% de "ótimo" e "bom", segundo a última pesquisa Ibope. É o limite que os especialistas consideram mínimo para um governante pensar na reeleição. Há um ou dois meses, esse percentual seria o bastante para incendiar o movimento "Lula 2014", já em curso nas redes sociais, com uma adesão bem abaixo do que seria previsível. Mas no momento a preocupação do PT é outra ou pelo menos está dividida entre a reeleição e a crise da Petrobras, sendo que uma permeia a outra.

É possível que o movimento pela volta de Lula na internet não tenha deslanchado porque o ex-presidente segura as iniciativas do gênero. Há uma semana, Lula recebeu a visita de um antigo companheiro do movimento sindical. O ex-presidente já conhecia o resultado da pesquisa Ibope. "Nós vamos perder a eleição, você precisa voltar", provocou o amigo. Se quer voltar, Lula não abriu o jogo: "Nós não vamos perder não, mas também não dá para voltar", disse. "E se for para perder, nós vamos perder com ela".

Lula, segundo seus interlocutores, diz que não pode fazer mais do que já está fazendo por Dilma. Em conversas com a sucessora, pediu para ela não se preocupar com o "Volta, Lula", porque se trata de um movimento que acabará naturalmente. "A gente tem que passar despercebido, até uma hora em que os do 'Volta, Lula' vão entender: 'Volta, Lula', não. É você". O ex-presidente, no entanto, entende que Dilma é quem tem que defender o seu governo. "Depois eu e o PT". Nessa ordem.

Em 2010, Dilma era desconhecida e Lula foi o seu garantidor. Agora, a presidente é conhecida e grande o bastante para tomar a frente da campanha da reeleição, defender o que fez e dizer o que pretende fazer em eventual novo mandato.

Confirmada como candidata e com a promessa reiterada do apoio de Lula, Dilma ainda precisa conquistar o PT. No atual governo, a presidente e o partido quase sempre operaram em sintonias diferentes. Mas foi o julgamento do mensalão, no segundo semestre de 2012, que quebrou uma relação já trincada. Pressionada, Dilma se recusou a prestar solidariedade aos réus condenados na AP 470. As pesquisas de opinião recebidas no Planalto indicavam que a presidente não deveria ficar contra a opinião pública. As manifestações de junho de 2013, quando Dilma perdeu 30 pontos de aprovação, encorajaram o PT (e Lula) a "cercar e tomar conta" do governo.

O "Volta, Lula" ganhou corpo, desde então. De início, quando era advertida para a movimentação de auxiliares próximos ao ex-presidente, Dilma cortava a conversa na raiz. "Não quero falar disso", dizia. Depois, a presidente passou a falar que as notícias sobre a eventual troca do candidato do PT não passavam de uma intriga destinada a dividi-los. Primeiro, com sinceridade; mais tarde, por cálculo político. O pior, para Dilma, nem era saber da conjuração no PT, mas que Lula também falava mal do governo.

Lula, na realidade, nem tentava disfarçar. No fim de 2012, o ministro Aloizio Mercadante, hoje na Casa Civil, sondou o ex-presidente sobre o "Volta, Lula". Ouviu de volta críticas como a de que a presidente se afastara dos políticos e não falava com os empresários, entre outras recorrentes. Lula não falou na conversa com Mercadante, mas é certo, por exemplo, que atribui a candidatura de Eduardo Campos (PSB) a presidente à falta de gosto de Dilma para fazer política.

Dias depois Lula pediu que as críticas que fez a Dilma fossem relevadas. Ela era a sua candidata, tanto que concordou em fazer o lançamento da candidatura da presidente à reeleição, a pedido dela, o que ocorreu em fevereiro de 2013, antes, portanto, das manifestações populares de junho.

O contexto ajuda a explicar a reação da presidente, quando o caso da refinaria da Petrobras em Pasadena, no Texas (EUA), bateu à porta de seu gabinete. Dilma já se sentia desconfortável com o "Volta, Lula". A sugestão de que fora conivente com um mau negócio deixou-a enraivecida. Fontes próximas da presidente contam que ela escreveu com raiva a nota na qual diz que só aprovou o negócio de Pasadena por ter recebido "informações incompletas" de um parecer "técnica e juridicamente falho".

Uma reação do tipo que teve o ex-presidente João Figueiredo depois da explosão da bomba do Riocentro, em maio de 1981, quando pediu que as bombas fossem atiradas contra ele. Figueiredo estava pessoalmente furioso, seu governo virtualmente acabou naquele 1º de maio, mas nada podia fazer, pois os circuitos da bomba passavam por dentro de seu governo. Recado ou não, o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli reagiu, nos bastidores, com a faca nos dentes: não havia como a presidente dizer que não sabia do que acontecia na Petrobras.

Os ânimos só foram acalmados depois da conversa que Dilma teve com Lula no último 4 de abril, a primeira depois que o negócio de Pasadena voltou à ordem do dia. Gabrielli recuou e compareceu a uma reunião da bancada do PT na Câmara, na qual defendeu a posição da presidente da República. O ex-diretor da área internacional da empresa, Nestor Cerveró, que insinuara revelações bombásticas, isentou Dilma de alguma responsabilidade.

Dilma apanha na Petrobras mais por suas virtudes que por seus defeitos. Fontes próximas da presidente reconhecem que ela não tinha como desconhecer os problemas da gestão de Gabrielli, abençoada por Lula, seu grande eleitor. Dilma e a presidente da Petrobras, Graça Foster, contrariaram muitos interesses montados em torno da maior estatal brasileira.

No dia 15, quando falou no Senado, Graça Foster não recorreu a meias palavras para dizer que a compra da refinaria de Pasadena fora um mau negócio para a Petrobras. No fim de semana, Gabrielli saiu da sombra. Em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" afirmou que Dilma "não pode fugir da responsabilidade dela", à época. Há irritação no PT, mas Dilma pode ter comprado a boa briga. Falta saber se terá condições de levá-la adiante.

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