quarta-feira, 18 de junho de 2014

Miriam Leitão: Estudar não é feio

- O Globo (17/6/2014)

Ao lado de Armando Monteiro Neto, da elite nordestina, o ex-presidente Lula reciclou seu surrado discurso e disse que os ricos perseguem o PT. Depois de 11 anos e meio de um governo que alargou os canais de transferência de dinheiro público para os grandes grupos empresariais, essa conversa de Lula não se sustenta nos dados e nos fatos. Mas é o que ele dirá para ver se cola.

A outra parte do discurso que Lula reapresentou no último fim de semana é mais nefasta. É a ideia de que estudar atrapalha, torna a pessoa insensível e deseduca. “Comeram demais, estu- daram demais e perderam a educação”, disse o ex- presidente em um dos vários ataques aos estudos.

A maioria do país condena a forma desrespeitosa com que a presidente Dilma foi tratada no estádio Itaquerão. Há formas aceitáveis de demonstrar desagrado ao governo. Aquela que foi usada no estádio não faz bem ao país, à democracia e desrespeita a instituição da Presidência da República. Merece repúdio.

Isso não dá ao ex-presidente licença para reutilizar todos os velhos truques das falsas dicotomias que são uma agressão à inteligência alheia. O governo do PT favoreceu grandes grupos, corporações e os muito ricos através de subsídios, participações acionárias do Estado em empresas familiares e a concentração de empréstimos subsidiados às grandes empresas. Isso foi visto em bases diárias. É um atentado aos fatos dizer que são os ricos que estão contra o PT.

O pior do discurso do ex-presidente Lula, já conhecido de outras campanhas, é a sistemática acusação ao estudo, aos diplomas. Ele ataca as pessoas “que estudaram mais”, mas isso tem pouca importância para cada pessoa em si. É deletério ao coletivo porque enfraquece o valor da educação como parte do processo de construção da prosperidade pessoal e do país.
Não há área onde estejamos mais atrasados, por erros que vêm de muito tempo, do que na educação. Nem há setor que no mundo atual seja mais importante para avançarmos. Por isso, o ex-presidente Lula deveria abandonar a compulsão que manteve durante o período que governou o país e, agora, ao tentar reeleger o partido pelo quarto mandato, de desqualificar a educação formal, porque dela precisamos muito.

Em 2010, num dis- curso durante a campanha da atual presidente Dilma, Lula foi sincero e disse que “as pessoas ricas foram as que mais ganharam dinheiro no meu governo”. Em 2006, ele já havia dito a um grupo de repórteres, com os quais viajou durante a campanha, que “os ricos ganharam muito dinheiro no meu governo”. De fato, basta ver como o BNDES tratou os maiores grupos empresariais nessa mistura infalível que anula os riscos e catapulta os ganhos: o banco vira sócio, compra debêntures lançadas por um grupo, para que ele, capitalizado, compre outras empresas. Em seguida, empresta dinheiro à empresa a juros menores do que os pagos pelo Tesouro. Para financiar essa farra, o Tesouro se endividou em R$ 400 bilhões no mercado.

Foram os grandes grupos que pegaram as maiores parcelas desses recursos. Foram as grandes empreiteiras as beneficiadas com as obras cujo valor inicial foi sendo aumentado pelos aditivos. Num dos casos, a Refinaria Abreu e Lima, houve tantas estripulias que um dos responsáveis está na cadeia, pelo temor de que ele fuja atrás do dinheiro que depositou em suas contas fora do país.

Basta um olhar nos grandes financiadores do PT para desmentir a ideia de que só os pobres apoiam o partido. Mas esse é um discurso conveniente até porque os ricos sabem o quanto ganharam e não se importam com essa contradição entre fala e fatos. O que realmente o ex-presidente deveria evitar é dizer que estudar é o caminho para a insensibilidade, para a grosseria que foi feita no estádio, para os maus modos. Essa defesa da falta de ensino escolar esteve presente em cada palanque que subiu ao longo dos anos que governou e nas campanhas que fez. Essa é a pior forma de prejudicar o país.

Se quiser, Lula que continue com sua estratégia de acusar ricos, cercado de ricos; que ponha a culpa na imprensa pelas revelações sobre os escândalos em série no governo ou na base de apoio, mas poupe a escola de seus ataques. O que o país mais precisa é de valorizar a educação, a escola, o estudo como parte do futuro que precisamos alcançar.

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