terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dora Kramer: Abalar o andor

- O Estado de S. Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso costuma dizer que no Brasil a sociedade se movimenta a partir de algum curto-circuito, produto de uma faísca qualquer em geral decorrente de algo imprevisível.

É a análise do sociólogo, que poderia se encaixar na onda de preferência do eleitorado por Marina Silva, mas que certamente não seria conveniente ao discurso do político engajado na campanha do tucano Aécio Neves.

De qualquer modo, a tese permanece e suscita uma indagação. Seria Marina capaz de desencadear o tal curto-circuito renovador ou sua força se encerra no brilho da faísca?

Nas próximas cinco semanas o esforço da campanha do PSB será o de consolidar a primeira hipótese no coração do eleitorado, enquanto o PT e o PSDB vão apelar para a racionalidade do público a fim de demonstrar que a segunda é a mais correta.

Em resumo, na versão dos adversários o voto em Marina Silva seria um contrato de alto risco para o Brasil. Se o eleitor vai se deixar convencer são outros quinhentos.

Muitos políticos experientes e vários analistas de pesquisas não querem ainda emitir opiniões definitivas em público, mas nos bastidores a impressão predominante é a de que a onda veio para ficar e ela está eleita.

Isso não significa que nas campanhas as toalhas já tenham sido jogadas. O PT aposta na força do governo. O PSDB desenvolve o raciocínio de que Marina estaria vivendo o auge do entusiasmo pelo desejo do "novo" e que a partir de agora a tendência do eleitor seria a de prestar mais atenção a questões objetivas de governabilidade.

Os dois adversários já abandonaram o tratamento cerimonioso e desde o fim de semana passaram a citar Marina nominalmente em suas críticas. O tucano dedicou o horário eleitoral do sábado a levar o público a refletir sobre dois tipos de escolha: a emotiva e a realista.

Começou por atacar a questão do voto útil, dizendo: "Não basta tirar o PT do poder". Fez um gesto de delicadeza - "respeito muito a Marina" - a fim de não se atritar com os eleitores dela, mas pôs em dúvida sua capacidade de governar.

Tanto tucanos quanto petistas agarram-se à esperança de que Marina neste mês e alguns dias até a eleição seja levada a descer do altar em que se encontra entronizada, pela necessidade de se confrontar com o mundo real.

O combate será no campo das cobranças de conteúdo. Aí suas contradições, acreditam, ficariam expostas como vulnerabilidades graves para o exercício da Presidência.

Mau momento. Candidato ao Senado pela Bahia, integrante da ala do PMDB anti-PT, Geddel Vieira Lima atribui a "setores insanos do partido" a notícia de que os pemedebistas aliados a Aécio Neves já estariam se movimentando para aderir à candidatura de Marina Silva.

"Eleição em dois turnos obedece a um ritual. Se o meu candidato (Aécio) não passar para o segundo turno, aí discutimos uma posição. Agora, com o processo do primeiro turno ainda em curso, tocar nesse assunto é puro oportunismo."

Aos fatos. A presidente Dilma Rousseff diz que está muito preocupada com o programa de governo de Marina, "no que se refere tanto à criação de empregos quanto à questão da indústria nacional".
Na realidade, "no que se refere" à candidata do PSB a preocupação da presidente é mesmo quanto à questão dos índices de intenções de votos das pesquisas.

Linha torta. A candidata do PSB usou sete palavras - "uma falha processual na editoração do texto" - e uma construção confusa para explicar a retirada do apoio a causas LGBT inscritas no programa de governo. Para falar claro bastaria um "erramos".

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