terça-feira, 16 de setembro de 2014

Merval Pereira: A mais difícil

- O Globo

A 19 dias do primeiro turno, tudo indica que o PT ter á a eleição mais difícil desde 2006, quando surpreendentemente o candidato do PSDB Geraldo Alckmin teve uma votação não prevista pelas diversas pesquisas. Recebeu no primeiro turno 41,5% dos votos válidos, contra 48,5% de Lula. Pesquisa Datafolha previa uma situação próxima do empate técnico no início do segundo turno: Lula tinha 49%, contra 44% de Alckmin.

Depois de uma campanha desastrosa no segundo turno, quando caiu na armadilha petista sobre privatizações e fantasiou-se com os logos das estatais para mostrar quão estatizante era, Alckmin foi menos votado do que no primeiro turno e terminou a eleição com 39% dos votos. Desta vez, a vantagem de Dilma no primeiro turno é semelhante à daquele ano, mas no segundo turno é Marina, que está na frente até o momento, embora em situação de empate técnico mais clara ainda. Hoje sai mais uma pesquisa Ibope, que pode trazer novidades. Os truques petistas estão sendo repetidos eleição após eleição: os adversários acabarão com o Bolsa Família, privatizarão todas as estatais .

Está um pouco mais difícil obter eficácia desta vez, seja pelo desgaste do truque, seja porque é mais complicado colocar um rótulo de exploradora insaciável em uma ex-companheira petista, negra e de origem humilde. Por isso a "elite branca" está identificada na pessoa de Neca Setubal, que o PT chamava de educadora quando participou de um debate para montar a proposta de governo de Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo, e agora chama de banqueira por ela estar coordenando o programa de Marina. O PT assume o papel de protetor dos pobres e oprimidos nas campanhas eleitorais e, no governo, coloca um banqueiro internacional oriundo do PSDB, Henrique Meirelles, para tomar conta do Banco Central. Na propaganda do PT , os banqueiros são seres asquerosos que só querem roubar a comida das criancinhas.

Na sabatina com a presidente Dilma, estranhei que ela tenha acusado sua adversária Marina de ser "sustentada" por banqueiros, e ela respondeu que se baseava no que era noticiado, que Neca Setubal havia sustentado a criação do instituto de Marina. Seria a mesma coisa que dizer que o ex-presidente Lula é sustentado por empreiteiras, que pagam a maioria de suas palestras no exterior e ajudaram a financiar seu instituto. O que o PT faz é tentar manipular o eleitorado, criando fantasmas, como ontem na fracassada demonstração diante do prédio da Petrobras a favor do pré-sal.

Foi-se o tempo em que o povo aderia aos seus chamados. O que se via mais ontem eram sindicalistas guiados pelas centrais sindicais que o governo sustenta, aí, sim, com verbas generosas, e pode acionar a qualquer momento para suas demonstrações de força. O "abraçaço" na Petrobras não mobilizou a população, porque as acusações de corrupção petista na estatal estão bem divulgadas e documentadas, impedindo que se alastrem as acusações distorcidas com relação ao pré-sal. Mas a disputa assimétrica do momento só ser á equilibrada no segundo turno , se Marina chegar lá e obtiver re cursos para os 20 dias de campanha com o tempo igual de propaganda oficial ao da sua adversária .

A presidente Dilma tem a vantagem de ter sua imagem já incorporada à liturgia do cargo, apesar de sua fala não conter um mínimo de coerência com essa mesma liturgia. Mas sua presença é permanente, e Marina terá que mostrar que sua figura franzina esconde uma liderança carismática. Suas conexões com os principais líderes internacionais devem servir para mostrar, especialmente para o eleitorado menos esclarecido, que ela não é uma "pobre coitadinha" despreparada, que não aguenta os percalços de uma campanha presidencial, como insiste em dizer a presidente Dilma. O debate frente a frente também será esclarecedor para a definição do eleitorado.

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