quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Celso Ming - A prostração da indústria


  • O governo e qualquer um sempre pinçarão suas explicações favoritas para o atual fiasco da indústria

- O Estado de S. Paulo

O pote despencou e se estilhaçou? Sempre haverá um rosário de explicações para o acontecido: estava no lugar errado porque alguém o deixou lá; o menino espantou o gato que trombou com o pote; o gato só entrou na cozinha porque a empregada não lhe deu comida…
O governo e qualquer um sempre pinçarão suas explicações favoritas para o atual fiasco da indústria. Desta vez, até a estiagem foi mencionada pelo gerente da coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo, para explicar mais uma queda mensal na produção industrial.

E, no entanto, o mau desempenho não começou anteontem. O processo que os dirigentes do setor chamam de desindustrialização vem lá de trás. É o resultado de escolhas equivocadas e de outras omissões que a qualquer momento poderiam ser mais bem avaliadas para um diagnóstico abrangente.

O resumo da ópera é o de que a indústria brasileira não tem competitividade, está tecnologicamente atrasada e ficou alijada das cadeias globais de valor. E, se nada se fizer para virar esse jogo, fica difícil de desenhar um futuro melhor.

Uma das propostas equivocadas formuladas recorrentemente para salvar a indústria é produzir uma substancial desvalorização da moeda (alta do dólar) para derrubar o preço do produto brasileiro em moeda estrangeira e criar mercado para ele.

É inegável que a desvalorização cambial será parte importante de qualquer terapia de recuperação da indústria. Mas é um equívoco pensar que o câmbio está aí só para compensar a baixa competitividade, cuja natureza é mais abrangente.

Um programa sério de recuperação tem de passar por investimentos maciços na infraestrutura, hoje precária, que afunda o setor em custos. Tem de passar, também, por uma corajosa revisão do atual sistema altamente protecionista que tenta preservar todos os níveis da produção, desde a matéria-prima até o produto acabado. Como a matéria-prima de um setor é produto acabado de outro, os custos se compõem em cascata e tornam proibitiva toda a indústria.

Se um dia funcionaram, já não funciona mais as reservas de mercado interno. A produção mundial opera dentro do sistema de cadeias globais de valor, em que o importante já não é mais garantir mercado cativo, mas participar do processo de produção e distribuição em todo o mundo. Quem está fora dessa rede fica condenado à periferia.

Desde o início da crise de 2008, o governo do PT trata a prostração da indústria como se não passasse de um caso de ressaca depois de uma noite de porre. Por isso, distribuiu programas limitados de desoneração tributária, créditos subsidiados, imposições de conteúdo local e, finalmente, promessas, muitas promessas, de derrubada dos juros e de, lá na frente, sabe-se lá como, promover uma generosa desvalorização cambial.

E não é demais relembrar: os dirigentes da indústria têm boa dose de responsabilidade pela penúria em que estão porque aceitaram o jogo clientelista e abanaram o rabo a troco de qualquer pedacinho de osso que lhes foi atirado.

Até agora, nem o governo nem os dirigentes do setor levaram a sério a prostração em que hoje está a indústria.

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