sábado, 5 de abril de 2014

Opinião do dia: Eduardo Campos

Há um sentimento generalizado de que depois de avanços sociais, a economia parou de melhorar. E está a perder terreno não só para a Índia, a Rússia, a China, a África do Sul, como também na comparação com outros países da América Latina, que continuam a crescer, apesar da crise internacional.

Elas escancararam a urgência aprofundar mudanças nas instituições e nas práticas políticas. Há um clamor coletivo de por novas respostas. São as demandas de quem não se contenta só em sair da linha da pobreza.

Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, na tramissão do cargo para o vice, O Globo, 05 de abril de 2014.

Para ex-diretores do Ipea, erro foi ‘grotesco’ e órgão perdeu o foco

Segundo eles, falha deveria levar à criação de procedimentos de revisão

Cristina Tardáguila – O Globo

RIO — Depois de o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) anunciar que havia se equivocado na divulgação dos resultados da polêmica pesquisa sobre violência contra a mulher, ex-diretores do órgão e especialistas em pesquisas de opinião se debruçaram sobre o assunto e deram duros vereditos sobre o caso. Para Edson Nunes, que foi vice-presidente executivo do órgão entre 1985 e 1994, o Ipea pode ter cometido esse “erro grotesco e banal” porque trabalhou “fora de seu foco”.

— Esse erro que acabaram de anunciar é grotesco e banal. É lamentável — disse Nunes, classificando a entidade como sendo uma das “de mais alta lisura e resistência” do país: — Uma pesquisa desse tipo tem que passar por muitas mãos e ser fartamente revista antes de ser divulgada.

Então, o primeiro ponto a ser apontado aqui é que a respeitabilidade do Ipea sofre muito com essa falha. Depois, que esse erro tem muito a ver com o trabalho em si. O Ipea não tem a tradição de fazer pesquisas de opinião. No Brasil, temos meia dúzia de entidades que fazem esse trabalho muito bem: o Ibope, o Datafolha, o Vox Populi... O Ipea trabalha com dados econômicos e parece que está fora de seu foco.

Nunes, que diz não ter memória de um desmentido desse porte no país, também critica a escolha do tema que foi pesquisado. Para ele, o assunto não estaria na seara de domínio dos pesquisadores do Ipea:

— Essa escolha foi péssima, e o resultado agrediu homens e mulheres. Tanto foi assim que todo mundo do ramo ficou com uma pulga atrás da orelha depois de ouvir os resultados da pesquisa e acabou indo atrás da metodologia deles para ver onde tinham errado. Mas, esse erro aí, nós nunca pegaríamos. Eles trocaram a pergunta 23 com a pergunta 24, e os resultados saíram trocados.

A deputada estadual Aspásia Camargo (PV-RJ), que presidiu o Ipea entre 1993 e 1995, também lamentou o erro cometido e revelado pelo instituto.

— Certamente o que aconteceu ali foi um misto de cansaço, com a existência de equipes pequenas, trabalhando sobre coisas muito complexas. Para mim, faltou um leitor externo que pedisse aos pesquisadores mais certeza sobre suas conclusões — ponderou ela: — Se eu ainda estivesse na presidência do instituto, sendo mulher e bisbilhoteira como sou, teria me trancado numa sala com esse trabalho e duvidado dele. A gente tem que desconfiar sempre das pesquisas, mesmo quando elas vêm de instituições sérias. Agora, acho importante refazermos um levantamento sobre violência contra a mulher. Ainda temos 26% de pessoas que acham que mulher que mostra o corpo merece ser estuprada. Ainda é um dado ruim.

O sociólogo Simon Schwartzman, que foi presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 1994 e 1998, destacou, por sua vez, a importância de o Ipea reconhecer publicamente sua falha:

— É importante que o instituto venha a público corrigir seu erro. Isso é para elogiar. Mas tem uma outra questão no ar: o instituto é da área econômica, e o tema da pesquisa é das ciências sociais. Isso quer dizer que o pessoal do Ipea não estava dentro da competência deles. Talvez tenham entrado num campo que não dominam muito bem.

Já o economista Sérgio Besserman, que também presidiu o IBGE, não acredita que o erro afete a imagem do Ipea. Para ele, o importante é reconhecer o erro com transparência e aproveitar a oportunidade para rever protocolos internos. Besserman explicou que, diferentemente do Ipea, os institutos que trabalham com pesquisa primária, como o IBGE, adotam procedimentos críticos antes de divulgar resultados. Ele lembra, porém, que, como o Ipea faz pesquisa analíticas, impor o mesmo cuidado ao órgão poderia ser interpretado como censura. Mesmo assim, a falha pode servir à criação de procedimentos que aumentem a segurança dos resultados. (Colaborou: Chico Otavio)

Em meio à crise da Petrobras, Dilma tem reunião de 3 horas com Lula

Encontro privado aconteceu em um hotel em São Paulo, depois que a presidente entregou obras do Minha Casa Minha Vida no interior

Germano Oliveira – O Globo

SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff teve um encontro privado de três horas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira em um hotel de São Paulo. Nem mesmo o presidente nacional do PT, Rui Falcão, participou do encontro, como costumeiramente tem acontecido. Dilma havia participado pela manhã de uma cerimônia de entrega de obras do Minha Casa Minha Vida em São José do Rio Preto, a cerca de 450 quilômetros da capital.

Foi o primeiro encontro entre Lula e Dilma desde que teve início a crise na Petrobras, que gerou quatro pedidos de CPI no Congresso. A reunião começou por volta das 15h30. Três horas depois, os dois deixaram o hotel sem dar entrevistas. Dilma seguiu para Brasília; e Lula foi para um evento em Osasco com o pré-candidato petista ao governo do estado, o ex-ministro Alexandre Padilha.

Lula se reúne com Dilma e diz que é preciso evitar CPI

Ex-presidente e sucessora traçam estratégia a fim de minimizar os danos das suspeitas que recaem sobre a compra de refinaria

Vera Rosa e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Em encontro de três horas, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversaram nesta sexta-feira, 4, a sós sobre a crise política e a tentativa da oposição de instalar uma CPI da Petrobrás para fustigar o governo na campanha eleitoral. Lula avalia que o Palácio do Planalto deve fazer de tudo para segurar a CPI, considerada uma "arma" perigosa na direção de Dilma.

A reunião entre a presidente e seu padrinho político ocorreu em um elegante hotel da zona sul de São Paulo e foi a primeira depois que veio à tona a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, pela Petrobrás. O negócio é investigado pelo Ministério Público Federal e pelo Tribunal de Contas da União por suspeitas de superfaturamento.

Na avaliação de Lula, Dilma está na defensiva e precisa reagir, intensificando viagens para mostrar que o governo está fazendo. Para ele, a campanha começa a esquentar agora, porque, lém do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Dilma terá em seu encalço o presidente do PSB, Eduardo Campos, que deixou o governo de Pernambuco nesta sexta.

Aécio e Campos serão adversários da presidente na disputa pelo Planalto e acertaram uma ofensiva conjunta para montar a CPI da Petrobrás. A estratégia do governo para inviabilizar a apuração do superfaturamento nos negócios da estatal consiste em apresentar sempre novos pedidos de CPI.

Após vários movimentos de idas e vindas do Planalto, a ideia agora é bater na tecla da necessidade de ampliar o foco das investigações - atingindo, por exemplo, o cartel do Metrô em São Paulo e denúncias de irregularidades no Porto de Suape, em Pernambuco -, para desgastar Aécio e Campos. Na prática, o governo conta com a proximidade da Copa e do calendário de campanha eleitoral para enterrar de vez a CPI.

Lula avalia que Dilma acabou puxando a crise para o Planalto quando disse que só votou favoravelmente à compra de Pasadena porque recebeu laudos incompletos sobre o negócio.

Na época, Dilma era ministra da Casa Civil e presidia o Conselho de Administração da estatal. Lula não gostou de ver sua sucessora praticamente apontando o dedo para José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás e indicado por ele para o cargo.

Sem avisar. A conversa desta sexta entre Dilma e Lula não constava da agenda presidencial. O compromisso só foi incluído ali à noite, quase cinco horas após ter ocorrido.
A portas fechadas, o ex-presidente mostrou a Dilma o roteiro que pretende percorrer nesse início de campanha, disse esperar que a cúpula do PT resolva os problemas para a montagem de palanques estaduais com o PMDB e prometeu ir logo a Pernambuco, Estado onde ele e Campos nasceram.

Dilma quer que o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), também participe do núcleo de sua campanha à reeleição, que é coordenada pelo presidente do PT, Rui Falcão, para ajudá-la na região Nordeste.

João Bosco Rabello: Contradição limita administração de crise pelo governo

- O Estado de S. Paulo

Estratégia de redução de danos, como demonstra a expressão, não elimina o desgaste de um governo ou de uma instituição cujas gestões questionadas na sua inidoneidade. Apenas diminui o efeito negativo ou evita repercussões piores ditadas por novas descobertas trazidas por investigações.]

É nesse contexto que vivem hoje Petrobrás e governo em razão de operações comerciais da primeira, com aval do segundo, uma delas posta em suspeita pela própria presidente da República, ao se dizer ludibriada por um resumo da compra de uma refinaria nos Estados Unidos, segundo ela omissa em pontos essenciais à sua aprovação.

O episódio estabeleceu um conflito entre Petrobrás e governo que explica as dificuldades oficiais para conduzir qualquer estratégia de administração de crise: a empresa ainda hoje defende a operação como um bom negócio, enquanto a presidente Dilma Rousseff sustenta o contrário, e reclama da omissão de dados indispensáveis à compra.

É essa contradição que constitui o fato novo a justificar o pedido de CPI pela oposição, dois anos após outra relativa à mesma operação da Petrobrás, que resultou em nada. Uma CPI que pode ser atropelada pela reação do governo no Congresso, tentando ampliar os focos de investigação para não apurar nada.

É a estratégia de redução de danos em curso, protelando as investigações a partir do caos. Pode dar certo, especialmente porque o objetivo principal é estreitar o tempo para as investigações para que seus resultados não afetem o projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Mas o êxito da estratégia governista tem por limite evitar o pior. O efeito político temido já é real: a oposição ganhou espaço e visibilidade sem fazer esforço em cima de denúncias graves, uma delas legitimada pela manifestação da presidente Dilma. O desgaste de evitar a CPI expõe diariamente o governo e amplifica as suspeitas sobre a Petrobrás.

Como demonstra a história recente, mesmo CPIs que tiveram seus resultados limitados por conveniência política suprapartidária – como a que levou o nome do contraventor Carlos Cachoeira -, produziram estragos irreversíveis.
Que o diga o governador do Rio, Sérgio Cabral, cuja popularidade despencou nas asas da Delta, empreiteira com a qual consolidou relações muito além do recomendável e que até hoje ameaça descarrilar seu projeto político no Estado. Cabral foi atingido por uma CPI criada pelos seus aliados governistas, à frente o ex-presidente Lula.

Essa imprevisibilidade é que leva governos a impedirem CPIs. Mas não os poupa do desgaste político. Nessa fase preliminar que caracteriza toda CPI – indo à frente ou não –, as informações vazam movidas por interesses contrariados ou por atores do processo que reagem em legítima defesa.

Ou por reações de agentes envolvidos nas operações que não se dispõem a pagar solitariamente a conta de esquemas em que tiveram a cumplicidade oficial. Foi o caso do ex-deputado Roberto Jefferson, que acabou na denúncia do mensalão.

E que parece, em princípio, ser o caminho escolhido pelo ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, identificado como o agente da fraude a que se refere a presidente Dilma Rousseff, ao se dizer induzida a erro na aprovação da compra de Pasadena.

Cerveró não parece ter condições de desmentir a presidente, mas certamente tem outros elementos para agravar a situação da Petrobrás e de parlamentares com influência política na empresa, base de todos os males do gênero que se percebe nas operações postas em suspeita.

É com esse cenário que o governo terá de conviver daqui em diante, com ou sem CPI. Os depoimentos de atores do processo, a começar pelo próprio Cerveró, ocuparão os noticiários, centralizarão as atenções, como ocorreria numa CPI. A diferença é que no contexto atual não há investigações, com quebras de sigilo e instrumentos outros próprios das comissões de inquérito.

É o que o governo tenta evitar. Mas a oposição ganhou um palanque, cuja legitimidade foi dada pelo próprio Palácio do Planalto.

Campos deixa governo de PE, critica Dilma e diz que vai ‘unir o Brasil’

Sem a presença da neoaliada Marina Silva, pré-candidato ao Planalto entrega cargo ao vice com discurso que tenta explorar antiga polarização entre PT e PSDB

Isadora Peron (enviada especial) e Angela Lacerda - O Estado de S. Paulo

RECIFE - Eduardo Campos (PSB) deixou nesta sexta-feira, 4, o governo de Pernambuco, Estado que comandava desde 2007, para se candidatar à Presidência da República. No discurso de despedida, no Recife, falou em "unir o Brasil", tentando explorar a já tradicional rixa entre petistas e tucanos.
Uma estrutura foi montada do lado de fora do Palácio Campo das Princesas, sede da administração pernambucana. Cerca de 2,5 mil pessoas acompanharam a cerimônia, que oficialmente foi organizada para dar posse ao vice-governador João Lyra. Na plateia, bandeiras do PSB, da CUT e do MST, e faixas de "Eduardo presidente".

O local virou uma espécie de feira de Caruaru, terra de Lyra.

Herdeiro. Campos começou a sua fala lembrando a história do avô, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, que foi deposto do cargo pelo regime militar. "Hoje, depois de dois mandatos, deixo o Palácio do Campo das Princesas pela mesma porta da frente, rumo a novas lutas a que me levam compromissos sociais, históricos e políticos", disse o agora ex-governador.

Ele criticou a gestão da presidente Dilma Rousseff, da qual seu PSB fazia parte até o fim do ano passado. "Há um sentimento generalizado de que o País, depois de um período de avanços sociais e econômicos, parou de melhorar", afirmou.

Ao lembrar das manifestações de junho do ano passado, disse que as pessoas foram às ruas para demonstrar descontentamento com os rumos os "descaminhos da economia e o recrudescimento da inflação".

Ao agradecer o apoio da sua mulher, Renata, e dos seus cinco filhos, ficou emocionado. Com a voz embargada disse que, por causa da política, muitas vezes teve de se ausentar do convívio familiar. Durante a manhã, Campos também havia chorado ao participar de uma missa.

Ausência. Campos lembrou no discurso a aliança com a ex-ministra Marina Silva, que não foi a Recife para a cerimônia. Marina se aliou ao governador em outubro do ano passado após ficar sem legenda para disputar a eleição deste ano. Ela não conseguiu assinaturas válidas para registrar seu partido, a Rede, e acabou abrigada pelo PSB.

Marina está nos EUA. Ela deve ser vice de Campos, formando assim uma chapa com dois ex-ministros de Luiz Inácio Lula da Silva. Ela do Meio Ambiente e ele da Ciência e Tecnologia.

Descolamento. Campos deixa o governo de Pernambuco como um dos governadores mais bem avaliados do País. Animado com o crescimento do PSB nas eleições municipais de 2012, passou o ano seguinte tentando viabilizar a sua candidatura ao Palácio do Planalto.

Em uma série de recentes encontros com empresários, apresentou-se como uma terceira via capaz de quebrar a polarização entre PT e PSDB.

Para sustentar esse discurso, saiu da base aliada em setembro e desde então tem ajudado a oposição a impor sucessivas derrotas ao governo no Congresso. Nem mesmo sob a promessa de apoio em 2018, Lula conseguiu convencer Campos de desistir de concorrer.

Campos se despede de Pernambuco e estado ganha novo governador

Júlia Schiaffarino, Ana Luiza Machado – Diário de Pernambuco

Pernambuco terminou a semana com um novo governador. Na tarde desta sexta-feira (4) assumiu o comando do estado João Lyra Neto em lugar de Eduardo Campos que se desincompatibilizou do cargo para concorrer à Presidência da República. No discurso de despedida, evitou o improviso, preferiu ler um texto que começou com referências ao avô e ex-governador Miguel Arraes. “Arraes saiu pela porta da frente e voltou duas vezes nos braços do povo… Hoje, depois de dois mandatos deixo o Palácio pela mesma porta da frente, rumo a novas lutas”, declarou Campos.

Já sem mandato, imprimiu o tom de presidenciável ao discursar. Fez críticas ao governo federal, falou em “aposentar a velha política”, citou a união com a ex-senadora Marina Silva, lembrou as inquietações das ruas e destacou que o país reinvidica uma nova agenda. Por fim, referiu-se ao que foi feito por ele em sete anos e três meses de governo como um exemplo a ser levado para o país. “O Brasil precisa e quer a União dos brasileiros. E, se Pernambuco se uniu, o Brasil também irá se unir… Sabemos que podemos fazer mais e com mais eficiência e rapidez”.

Atrás dele, estavam ex-governadores, outrora adversários políticos. Marcaram presença no evento Jarbas Vasconcelos (PMDB), Joaquim Francisco (PSB), Mendonça Filho (DEM) e Roberto Magalhães (DEM). A cerimônia de transição ocorreu na frente do Palácio do Campo das Princesas. Chapéus de palha, símbolo do governo de Miguel Arraes, foram distribuídos pelo cerimonial. Ao fim, como manda o protocolo, o novo governador acompanhou o ex-governador até o carro. Eduardo Campos seguiu para casa enquanto João Lyra recebia os cumprimentos ao som de bandas de pífano, tradicionais de sua terra, Caruaru.

Lyra
Esse mesmo protocolo seguido a risca por Eduardo Campos, porém, foi por diversas vezes quebrado de forma proposital por João Lyra Neto. Durante o discurso de transição, por exemplo, ele cedeu a vez para que Campos falasse ao final, quando o rito manda o novo governador encerrar a cerimônia. Ao discursar, Lyra disse, novamente, que iria mudar as regras pré-estabelecidas e avisou que deixaria de lado o texto preparado pela assessoria. Falou de improviso e ao olhar para Campos anunciou: "Agora, sou seu governador e governador do estado de Pernambuco".

João Lyra fez questão de enaltecer o trabalho do antecessor à frente do estado. Voltou a ressaltar que assumia o compromisso de dar continuidade às ações iniciadas por ele nos últimos anos e pediu para que o ex-governador o ajudasse na caminhada futura. "Agradeço por tudo nestes sete anos e três meses, por ter trabalhado com você e peço que você trabalhe comigo nesses nove meses", pediu.

O tom foi semelhante ao usado durante a cerimônia de posse, pouco antes na Assembleia Legislativa de Pernambuco, onde Lyra também discursou. Nessa ocasião, porém, foi mais demorado e aproveitou para anunciar novidades como a criação da Secretaria Estadual da Microempresa. O novo governador também destacou a preocupação em fomentar o desenvolvimento no interior de Pernambuco, bem como o desejo de incentivar o turismo interno. “Estou convencido de que os pernambucanos precisam conhecer mais Pernambuco”.

Ao sair da Assembleia, mais um protocolo quebrado. O governador João Lyra Neto dispensou o carro oficial e cruzou a ponte Princesa Isabel a pé, jutamente com a família, em direção ao Palácio do Campo das Princesas. No percurso, cumprimentou diversas pessoas e parou várias vezes para tirar fotos com os populares. A gestão Lyra segue até dezembro deste ano.

Aécio: erro é consequência de 'aparelhamento' do Ipea

José Roberto Castro - Agência Estado

O presidente nacional do PSDB e provável candidato da sigla ao Palácio do Planalto, Aécio Neves, atribuiu ao "aparelhamento das instituições públicas do País" o erro cometido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em pesquisa recente. "A constatação dos graves erros cometidos por recente pesquisa do Ipea nos revela mais uma face das consequências do aparelhamento das instituições públicas do País", escreveu o tucano.

Em sua conta no Facebook, Aécio colocou ainda em dúvida outras pesquisas feitas pela instituição. "Como confiar agora nos outros dados que vêm sendo divulgados pelo instituto, que já foi referência tão importante na vida nacional?", questionou o presidenciável.

Mais cedo, o Ipea divulgou nota admitindo que houve um erro na pesquisa divulgada no dia 27 de março que trazia a informação de que 65% dos brasileiros concordavam que mulheres com roupas curtas merecem ser estupradas. Na verdade, 26% dos entrevistados concordaram com essa afirmação e 70% discordaram total ou parcialmente.

Aécio diz que Dilma prepara bomba-relógio e que tarifas vão subir após as eleições

Para Aécio, o governo do PT focou suas medidas de controle da inflação nos preços controlados e, na hora que eles estourarem, a inflação vai chegar próximo de 10%

Juliana Cipriani, Leonardo Augusto – Estado de Minas

O senador Aécio Neves, pré-candidato do PSDB à Presidência da República, acusou nessa sexta-feira o governo da Presidente Dilma Rousseff (PT) de não ter aumentado os preços dos combustíveis, energia e transporte, medidas que considera necessárias para manter a economia do país, para não ser impopular, e afirmou que as tarifas fatalmente vão subir depois das eleições. “A presidente prepara uma bomba-relógio para depois das eleições, com reajuste de energia em razão de uma medida desastrada que ela tomou no setor e também do preço de combustíveis, porque a Petrobras está caminhando para a insolvência se não houver uma recuperação da gestão da empresa”, afirmou.

Segundo o senador, a Petrobras perdeu metade do seu valor, e a Eletrobras, mais do que isso. Para Aécio, o governo Dilma focou suas medidas de controle da inflação nos preços controlados e, na hora que eles estourarem, a inflação vai chegar próximo de 10%. “O que orienta a ação do governo hoje é a ação do calendário eleitoral. E quanto mais você demora na administração pública a tomar uma medida necessária o custo lá na frente é muito maior. O custo será muito maior para o Brasil com o adiamento de algumas medidas que já deveriam ser tomadas, mas não tomaram porque são impopulares”, disse.

Nesta semana, Aécio disse que, se eleito, estaria disposto a tomar medidas impopulares. Questionado sobre quais seriam essas ações ontem, durante a posse do novo governador de Minas Gerais, Alberto Pinto Coelho (PP), ele afirmou que uma delas seria “transparência e rigidez” na política fiscal. “A inflação tem que ser focada no centro da meta e não no teto, como hoje. O governo do PT foi leniente com a inflação”, afirmou. O tucano repetiu que, se eleito, pretende cortar pela metade o número de ministérios e proibir o contingenciamento de recursos para a área da segurança pública.

Segundo o pré-candidato, Dilma foi eleita por dois pilares que não se sustentaram. O primeiro, de que faria a economia continuar a crescer, e o segundo, sua fama de boa gestora. De acordo com ele, o legado da Copa do Mundo prometido pelo governo federal não virá. “Apenas 23% das obras anunciadas pelo governo e, portanto, comprometidas pelo governo não estão prontas. Porque o governo não quis? Não, porque o governo é incapaz”, afirmou.


Aécio disse que a “grande gestora” Dilma não visitou Minas Gerais, mas a presidente candidata. O tucano disse não ter dúvidas da probidade da petista, mas que, pelos indicadores da economia, sociais e de infraestrutura, há um enorme questionamento de que ela não estava preparada para assumir um país da complexidade do Brasil. O tucano voltou a criticar as visitas da presidente, que volta a Minas Gerais mais uma vez na segunda-feira.

Segundo Aécio, em poucos meses do ano, ela já veio mais ao estado do que nos 40 anos em que ficou fora. “Ela é sempre bem-vinda. Gostaria apenas que pudesse vir aqui não apenas lançando e anunciando, mas inaugurando e entregando obras, já que está no 12º ano de um governo do qual participou intensamente como ministra e agora como presidente”, disse.

Aécio afirma que ciclo do PT acabou e que ele sairá vitorioso das eleições

Segundo o tucano, o PSDB é o partido que mais têm condições de assumir essa nova etapa

Marcelo Ernesto – Estado de Minas

Aécio Neves voltou a fazer críticas a gestão da presidente Dilma Rousseff (PT) e demonstrou confiança na vitória nas eleições

O presidente do PSDB e presidenciável, senador Aécio Neves, afirmou nesta sexta-feira que está convencido de que vai sair vitorioso das eleições de outubro deste ano. Segundo o tucano, o fim do ciclo do PT à frente do governo federal está se aproximando. “A minha percepção e meu sentimento é que há um final de ciclo chegando, e o PSDB é quem terá as condições de liderar um início de um outro”, disse. A declaração foi dada pelo tucano na cerimônia de posse do novo governador de Minas, Alberto Pinto Coelho (PP). Ele assumiu no lugar de Antônio Anastasia (PSDB), que deixou o cargo para participar da coordenação de campanha de Aécio e também disputar vaga ao senado.

Aécio demonstrou confiança na vitória no pleito ao comentar sobre uma possível aliança nacional com o PP, partido de Pinto Coelho. “O que posso dizer, entrando na questão nacional, é que estou cada vez mais convencido de que temos avançado e que vamos vencer as eleições. Talvez não tenha dito com esta clareza. Cada vez me convenço mais de que há um cansaço de um governo que perdeu a capacidade de transformar, de ousar”, afirmou.

O tucano ainda comentou que pretende tomar algumas medidas que ele considerou como “impopulares”, entre elas, o corte no número de ministérios, além de mudar o perfil de político para mais técnico. “Quando vencermos as eleições, vamos cortar pela metade o número de ministérios, vamos colocar gente qualificada nos lugares certos, vamos estabelecer um programa de segurança pública audacioso, com maior participação de recursos da União. Vamos proibir o contingenciamento de recursos da segurança pública como ocorre hoje. Vamos enfrentar a reformulação do Código de Processo Penal e do Código Penal, para não estimular a impunidade e, a partir dela, a criminalidade como estamos assistindo hoje”, anunciou.

Graça e Lobão cancelam ida ao Senado para falar sobre compra de refinaria pela Petrobras

Dornelles não deve aceitar convite para relatar decisão sobre instalação da CPI em comissão no Senado

Júnia Gama, Isabel Braga – O Globo

BRASÍLIA - Em meio à guerra de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para investigar denúncias de irregularidades na Petrobras, a presidente da estatal, Graça Foster, e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, cancelaram os depoimentos que prestariam em comissões do Senado nos dias 8 e 15 de abril, respectivamente. A ida dos dois ao Senado era uma estratégia do governo para esvaziar a criação de uma CPI, mas como já há quatro requerimentos para instalar as investigações, o PT decidiu que Graça e Lobão não devem antecipar depoimentos.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), foi o responsável pela articulação. Há cerca de dez dias, quando a oposição ainda não havia protocolado pedido de CPI, Costa acertou com Graça e Lobão que eles deveriam prestar informações em comissões do Senado para tentar conter o movimento pró-CPI no Congresso. Como depois disso a oposição conseguiu apresentar pedidos para investigações tanto no Senado, quanto envolvendo as duas Casas, o próprio Humberto Costa deliberou junto a Graça e Lobão que a presença deles não deveria ocorrer antes de uma eventual CPI. Se não houver CPI, garante o senador, Graça comparecerá à CAE posteriormente.

—Na medida em que vamos ter uma CPI, não faz sentido trazer antes a presidente da Petrobras, que deve ser uma das primeiras a falar na CPI. Fizemos um acordo com a oposição de convidá-la para que ela fosse ouvida e eles se posicionassem sobre a necessidade de CPI. Como a oposição desistiu do acordo e apresentou logo o pedido de CPI, também não temos obrigação de cumprir o acordo — justificou Humberto Costa.

Humberto Costa afirma que, desde a semana passada, havia o entendimento de que Graça e Lobão não deveriam mais ir ao Senado fora do âmbito de uma CPI. O ofício cancelando o comparecimento da presidente da Petrobras na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no entanto, somente foi apresentado hoje, no mesmo dia em que o ex-presidente Lula se reuniu com a presidente Dilma Rousseff e marqueteiros em São Paulo para discutir, entre outros temas, a crise da Petrobras.

Na Câmara, o convite para Graça Foster foi aprovado na sessão da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, onde os líderes aliados fizeram acordo com a oposição, evitando a convocação do Lobão. A data foi acertada pelos líderes, mas oficialmente a presidente da Petrobras não confirmou ainda à comissão sua presença no dia 15 de abril.

Também não há ainda posição oficial do advogado do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró em relação à proposta feita pela oposição para que o depoimento, marcado para o dia 16 de abril, seja antecipado para o dia 9 de abril. A comissão já propôs oficialmente a antecipação, mas a resposta oficial da defesa de Cerveró ainda não foi dada. O PT trabalha nos bastidores para evitar a presença de Cerveró no Congresso.

A promessa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Vital do Rêgo (PMDB-PB), é que haja uma definição sobre a instalação ou não de uma CPI e sobre a abrangência dos temas que ela irá investigar na próxima semana. Vital prometeu para terça-feira a votação de um relatório sobre o tema no colegiado. Mas, o senador ainda não conseguiu um colega que aceite relatar a questão.

Dornelles deve recusar relatoria sobre a CPI na CCJ
Nesta sexta-feira, Vital do Rêgo disse que sua escolha para a relatoria é o senador Francisco Dornelles (PP-RJ), mas, por meio de assessoria, Dornelles sinaliza que não entrará na polêmica e recusará o convite.

A decisão da CCJ será submetida ao plenário do Senado, onde o governo tem ampla maioria para derrubar a CPI. Na quarta-feira, Renan Calheiros (PMDB-AL) rejeitou pedido da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) para impedir o início dos trabalhos da CPI, mas delegou a palavra final sobre sua decisão à CCJ e ao plenário do Senado. Renan também respondeu negativamente ao pedido do líder do PSDB, senador Aloysio Nunes (SP), para que fossem excluídos os adendos feitos por governistas nos objetos que serão investigados, como o cartel de trens em São Paulo e as obras do Porto de Suape, em Pernambuco, que atingem adversários da presidente Dilma Rousseff.

Com isso, se a CCJ e, posteriormente, o plenário, decidirem chancelar a decisão de Renan, a CPI a ser criada deverá abranger investigação ampla, que afetam estados sob influência de Aécio Neves (PSDB-MG) e Eduardo Campos (PSB-PE). Para a oposição, ampliar o objeto da CPI com temas que não têm conexão é uma manobra do governo para inviabilizar qualquer investigação envolvendo a Petrobras.

Veja também:

Com juros e inflação em alta, captação da poupança cai 70% em março, para R$ 1,8 bi

Saldo ficou em R$ 612,9 bilhões, de acordo com o Banco Central

Gabriela Valente – O Globo

BRASÍLIA - A caderneta de poupança captou R$ 1,8 bilhão em março, já descontados todos os saques feitos. De acordo com o Banco Central, o resultado é 70% menor do que a captação líquida registrada no mesmo mês de 2013, quando houve um recorde de R$ 6 bilhões.

Mesmo com uma captação líquida 70% menor que no mesmo mês do ano passado, os depósitos feitos pelos brasileiros em março contribuíram para que o saldo da poupança chegasse a R$ 612,9 bilhões. Sobre esse valor, os bancos pagaram nada menos que R$ 3 bilhões de rendimentos somente no mês passado.

Geralmente, março não é um bom mês para a aplicação mais popular do país porque as famílias quitam dívidas assumidas no início do ano como a compra do material escolar dos filhos. Neste ano, entretanto, há mais motivos para o brasileiro poupar menos.

Um deles é a inflação. Como os preços têm sido remarcados numa velocidade bem maior que a esperada pelo governo, não sobra dinheiro no fim do mês para aplicar.

Além disso, o aumento dos juros básicos (feito pelo BC para conter a inflação) deixam os fundos de investimento em renda fixa mais atraentes. Isso deve fazer com que grandes investidores, que se refugiaram na poupança no passado, regressem para as aplicações em títulos públicos.

No entanto, a caderneta de poupança ainda é vantajosa para pequenos e médios investidores. Os menores aplicadores não têm acesso às taxas de administração mais baixas.

Rolf Kuntz: Do lobisomem à lenda urbana da gerentona

- O Estado de S. Paulo

Lobisomens, vampiros, assombrações e mulas sem cabeça podem ter apavorado muita gente durante séculos, mas a nenhuma dessas figuras foi atribuído um desastre econômico. Nem mesmo a personagem histórica de Vlad III, príncipe da Valáquia, também conhecido como conde Drácula, o Empalador, foi associada ao descalabro fiscal, à estagnação produtiva, a um surto inflacionário ou à demolição de alguma empresa estatal. Ao contrário: era respeitado pela devoção à sua terra, pela coragem e pela severidade na punição dos crimes cometidos por seus, digamos, companheiros. Muito natural, portanto, ver o mundo mais uma vez curvar-se diante do Brasil, primeira economia, e das grandes, submetida a demolição por uma personagem lendária, a administradora Dilma Rousseff, às vezes descrita como gerentona.

O criador dessa lenda pode ter sido um gozador, mas a piada foi levada a sério por uma porção de incautos e até espalhada como verdade por muitos meios de comunicação. Os fatos claramente negaram o mito nos últimos três anos e três meses. Ainda continuam negando, a cada nova revelação sobre as consequências da política econômica - as perdas da Eletrobrás e da Petrobrás, por exemplo, e os estragos no Tesouro. O espetáculo poderia até ser engraçado, mas tem custado bilhões e ninguém sabe quanto ainda poderá custar.

A persistência da inflação, uma das derrotas mais notáveis da política econômica, virou assunto de um complexo estudo comparativo divulgado nesta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O trabalho inclui a análise de números de 26 países com regime de metas. O tema é especialmente importante, informa-se logo na apresentação, porque a persistência eleva o custo, em termos de produto, do esforço para levar a inflação até a meta.

Em outros países, incluídos vários emergentes, a alta de preços arrefeceu e os repiques se tornaram menos fortes depois de implantado o regime. O Brasil tem sido uma exceção e o trabalho é encerrado com a indicação de algumas explicações possíveis. Uma delas é a permanência de uma forte indexação. Outra hipótese aponta para uma baixa confiança dos participantes do mercado na eficácia da política monetária - ou na disposição das autoridades monetárias responder adequadamente aos choques de preços. Uma resposta forte é indispensável para conter os efeitos de segundo round desses choques e limitar, portanto, seus desdobramentos.

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, chamou a atenção precisamente para essa função da política, ao mencionar, em depoimento no Senado há poucos dias, o choque dos preços agrícolas e a necessidade de restringir seus efeitos ao curto prazo. O aumento de juros anunciado na quarta-feira, depois da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), deve ser parte desse esforço. Mas esse foi o nono aumento a partir de abril de 2013 e, até agora, o remédio parece ter sido insuficiente - mesmo levando em conta o efeito retardado da política de juros. De toda forma, o longo período de afrouxamento da política monetária, entre o fim de agosto de 2011 e abril do ano passado facilitou o recrudescimento da inflação. Mas a presidente Dilma Rousseff encontrou nessa política uma chance para se vangloriar de haver derrubado os juros no Brasil. Foi mais um numa longa série de erros.

O relaxamento dos juros foi apenas um dos equívocos da política anti-inflacionária. Os demais foram cometidos sem a participação do BC. O novo prejuízo da Eletrobrás, R$ 6,3 bilhões em 2o13, é mais uma consequência da administração tsunâmica implantada pela presidente Dilma Rousseff no governo federal. A contenção de tarifas imposta às empresas de eletricidade custou e continua custando um dinheirão ao Tesouro e às empresas do setor.

Os R$ 8 bilhões previstos no Orçamento da União para compensar as empresas serão insuficientes e será necessário levantar dinheiro de outras fontes. Além disso, será preciso elevar os preços para os consumidores nos próximos dois anos, porque o represamento das tarifas serviu somente para maquiar a inflação e apenas multiplicou os problemas. O aumento das contas em 2015 deverá ficar entre 8% e 9%, segundo noticiou o Estado.

Não está clara, no entanto, a arrumação necessária para compensar o estrago acumulado. Falta levar em conta, entre outros, um detalhe publicado na sexta-feira pelo Valor. Segundo cálculo apresentado por dois minoritários do Conselho de Administração da Eletrobrás, a empresa deixou de arrecadar R$ 19 bilhões em 2013. A perda resultou do esquema imposto pelo governo em dezembro de 2012, quando foram definidas as normas para renovação das concessões.

No caso da Petrobrás, ainda falta uma boa estimativa dos danos acumulados na gestão petista. A lista dos erros é enorme e inclui a compra das instalações de Pasadena, a construção da refinaria Abreu e Lima e as perdas causadas pelo controle de preços, mas esta lista é provavelmente muito incompleta. Uma boa CPI poderia ajudar no esclarecimento das perdas e de como ocorreram, mas o governo tem feito - e deverá fazer - um enorme esforço para impedir a elucidação de uma das histórias mais escandalosas da política brasileira.

Incompetência é apenas parte da explicação do desastre das estatais, do estrago nas contas públicas, da persistência da inflação, da estagnação econômica e dos erros cometidos na política industrial. A gestão de baixa qualidade reflete igualmente uma certa forma de ocupação da máquina governamental. O PT ocupou, loteou e usou o governo, em seus vários níveis, como se, por direito de conquista, se houvesse apropriado legitimamente desse aparelho. Se nada mais puderem fazer, os cidadãos inconformados talvez possam ainda recorrer a um expediente: perguntar se a tão falada função social da propriedade vale também para a máquina transformada em patrimônio privado pelo grupo instalado no poder.

Jornalista

Alberto Carlos Almeida: A avaliação do governo Dilma está no limbo

Valor Econômico

César Maia reapareceu. Durante 2009 e no início de 2010, ele defendeu o argumento complexo e mirabolante de que Lula não seria capaz de transferir votos para Dilma. Em seu ex-blog Cesar Maia, em abril de 2010, ao ilustrar a incapacidade de transferência de votos de Lula para Dilma, o ex-prefeito do Rio disse: "Em fevereiro do 2009 fiz uma análise do personagem Dilma Rousseff lembrando que a transferência de votos entre políticos de personagens diferentes é muito difícil. No caso de Lula e Dilma, trata-se de personagens antípodas. Aliás, o personagem Dilma - séria, tecnocrática, vertical, inflexível - foi criado pelo próprio Lula pós-mensalão. Lula, do ponto de vista da psicologia social, é um personagem feminino, próximo, amigo, acarinhável, vitimizável. Dilma é um personagem, do ponto de vista da psicologia social, masculino, distante, vertical. Talvez Patrus fosse um personagem com perfil mais próximo a Lula. Agora é tarde, Inês é morta".

Ler esse texto hoje, quando sabemos que Dilma derrotou Serra por uma margem de 12 pontos percentuais (em nenhuma eleição recente nos Estados Unidos o vencedor abriu uma margem tão folgada no voto popular), é um exercício revelador do desacerto da análise. O texto de Maia indicava que se tratava de um raciocínio sofisticado, inteligente, brilhante, genial. A realidade foi mais dura e simples. O eleitorado que avaliava o governo como ótimo ou bom, ao tomar conhecimento de que Dilma era a candidata governista, decidiu passar a votar nela.

Esse processo de aumento de conhecimento do candidato governista se acelerou e se massificou com o início do horário eleitoral gratuito. Todos os argumentos supostamente brilhantes foram anulados pela realidade, foram atropelados por um rolo compressor denominado conversão de avaliação positiva do governo em votos para o candidato governista.

Cesar Maia, em todo aquele período eleitoral, utilizou metáforas pouco conhecidas e tentou cunhar novos termos: luta de espadachins, jogo de xadrez, jogo go e também "jogo de coordenação", segundo ele uma expressão que significa processo de distribuição de informações e de troca de opiniões entre as pessoas até que a intenção de voto se transforme em decisão de voto. Foram muitas metáforas e muitos termos não usuais. O que realmente aconteceu é que à medida que o eleitorado tomou conhecimento de que Dilma era a candidata do governo, passou a votar em Dilma. Como a maioria aprovava o governo, a maioria decidiu, no decorrer do último ano, abandonar Serra e passar a votar em Dilma.

Os dados mostram que em janeiro de 2009, em segundo turno, Serra tinha 63% de votos de quem avaliava Lula como ótimo e bom. Essa proporção veio caindo desde então, atingiu 43% em maio de 2009, ficou estabilizado daí até dezembro e continuou caindo em seguida para 31% em maio de 2010 e 21%, apenas, em agosto. Dilma conheceu trajetória oposta à de Serra. Em janeiro de 2009, tinha somente 15% de quem avaliava o governo Lula como ótimo ou bom. Ela subiu para 39% em maio de 2009, ficou estabilizada em quase 50% no primeiro semestre de 2010 e subiu bastante depois que começou a propaganda na TV, convertendo em votos 70% do ótimo e bom de Lula. Óbvio e ululante.

Cesar Maia reapareceu e afirmou, na semana passada, que os erros de Aécio e do PSDB podem levar Dilma a vencer no primeiro turno. Será que mais uma vez o ex-prefeito do Rio vai errar em suas análises?

O Instituto Análise fez um levantamento de 104 eleições para governador ocorridas no Brasil entre 1994 e 2010. A partir de 1998 passou a haver reeleição. De lá para cá, 46 governadores eleitos quatro anos antes disputaram a sua reeleição. A primeira descoberta importante é que todos os governadores que disputaram a reeleição com a soma de ótimo e bom igual ou maior do que 46% foram reeleitos.

Sérgio Cabral está nesse grupo. Ele foi reeleito em 2010, quando sua avaliação positiva estava em torno de 60% no fim de setembro. Aécio Neves, em 2006, estava com mais de 65% de ótimo e bom; Eduardo Campos tinha em 2010, às vésperas da eleição, mais do que 70% de ótimo e bom. Aqueles que ficaram mais próximos do limite de 46% foram Joaquim Roriz em 2002; Cássio Cunha Lima, que tinha 47% em 2006; Roseana Sarney, com 48% em 2010; e Jarbas Vasconcelos, com 50% de avaliação positiva em 2002.

Igualmente importante é a conclusão desse mesmo estudo: todos que tiveram menos de 34% de ótimo e bom foram derrotados em seu objetivo de ser reeleitos - Miguel Arraes, em 1998; Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul, em 2010; José Bianco, em Rondônia, em 2002; e Valdir Raupp, no mesmo Estado, quatro anos depois; Ana Júlia, no Pará, em 2006; Germano Rigotto, no Rio Grande do Sul, no mesmo ano; e Paulo Afonso, em Santa Catarina, em 1998. Esses sete governadores não conseguiram ser reeleitos porque sua avaliação estava abaixo de 34% de ótimo e bom. Trata-se de uma avaliação muito ruim - quando isso acontece, o desejo de mudança é mais disseminado do que o desejo de continuidade. O eleitorado foi claro nessas sete eleições: queremos trocar de governo.

Atualmente, o governo Dilma tem 36% de ótimo e bom. Se ela estivesse disputando uma eleição para um governo estadual, não estaria na faixa cuja vitória é certa, acima de 46% de ótimo e bom, nem na faixa na qual a derrota é certa, abaixo de 34% de ótimo e bom. O atual patamar de avaliação do governo Dilma, entre 35 e 45% de ótimo e bom, a põe na faixa na qual 42% dos governadores que disputaram a reeleição foram vitoriosos, ao passo que 58% foram derrotados. Dilma é candidata à reeleição, mas não para um governo estadual. Ela é candidata a presidente. Assim, alguns poderiam argumentar que as eleições de governador são um parâmetro ruim para analisar uma eleição presidencial. Pode ser que sim, pode ser que não.

Nas duas reeleições ocorridas no Brasil, Fernando Henrique em 1998 e Lula em 2006, os candidatos foram vitoriosos com uma avaliação muito próxima dos 46% de ótimo e bom dos governadores reeleitos: Fernando Henrique tinha 43% às vésperas da eleição e Lula, 47%. Considerando-se as margens de erro das pesquisas, é possível que Fernando Henrique tivesse uma avaliação um pouco melhor, talvez 44 ou 45% de ótimo e bom. O fato é que a diferença entre os 43% de FHC e os 46% acima do qual todos os governadores foram reeleitos é irrisória. Os dois candidatos a presidente que disputaram a reeleição se encaixam na regra dos governadores.

O Instituto Análise também estudou as eleições para prefeito. Foi analisado qual é o patamar de ótimo e bom a partir do qual as chances de um prefeito ser reeleito é de 100% ou próximo disso. Ao contrário do que acontece nas eleições para governadores, há prefeitos que são derrotados mesmo com uma avaliação positiva na casa dos 60%. O inverso também ocorre com frequência: prefeitos com avaliação muito negativa, menor do que 34% de ótimo e bom, são vitoriosos.

Isso se dá porque o prefeito está mais próximo do eleitor do que o governador ou o presidente. Muitas vezes a vida pessoal do prefeito é bem conhecida em seu município - mesmo em lugares populosos, sabe-se onde o prefeito mora, que viagens ele fez no último ano, como é sua vida familiar etc. Isso faz que a avaliação de governo tenha outros competidores, todos bem menos impessoais do que simplesmente a aprovação ou desaprovação de um governo.

Os cargos de presidente ou de governador estão muito distantes do eleitor. São cargos que suscitam uma relação mais impessoal entre o representante e o representado. Dificilmente ele se encontrará com um deles em uma campanha eleitoral ou durante o mandato. A melhor maneira de escolher, a mais racional e mais eficiente, é por meio de um critério igualmente distante e impessoal. Eis que nesses casos a avaliação do governo tem um peso maior. É nesse sentido que talvez seja possível aproximar a eleição de presidente com as eleições de governador. Além disso, não devemos nos esquecer de que muitos de nossos Estados são, em área geográfica e população, maiores do que numerosos países.

O estudo de 104 eleições para governador e 2 para presidente serve de alerta para o governo Dilma. A avaliação do governo Dilma está no limbo. Considerando-se o estudo das eleições para governador, caso a avaliação caia de três a cinco pontos percentuais, a oposição tende a se tornar favorita para vencer. Caso a avaliação melhore de três a cinco pontos percentuais, vá para perto de 40% de ótimo e bom, e caso ocorra com Dilma o mesmo que ocorreu com Fernando Henrique e Lula - que melhoraram sua avaliação depois de agosto do ano eleitoral -, ela se torna favorita para vencer. Limbo vem do latim "limbus", que significa beira. O governo Dilma está entre duas beiras, na beira do inferno e na beira do céu. Já Cesar Maia não tem eira nem beira.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de "A Cabeça do Brasileiro".

Cristovam Buarque: Concerto das cidades

São monstrópoles, em vez de metrópoles

O Globo

O Brasil tem graves problemas, nenhum tão difícil de resolver quanto consertar nossas grandes cidades: insegurança, inundações, vidas perdidas na lentidão ou nos acidentes de trânsito, soterramentos, assassinatos, assaltos e sequestros, pobreza, drogas e condomínios cercados.

Durante algumas décadas, por ações ou omissões, tudo foi feito para induzir uma migração rápida, do campo para a cidade, como símbolo de progresso; não seguramos os habitantes no campo, porque não distribuímos terra aos lavradores, nem fizemos escolas e serviços médicos para suas famílias; e criamos um forte atrativo para as cidades por causa da industrialização e da construção civil.

Fizemos urbanização apressada, asfaltamos ruas e construímos casas onde não deveríamos, desorganizamos o espaço urbano, degradamos os serviços públicos e entregamos a cidade aos automóveis. Doenças e deformações de nossas cidades permitem chamá-las de monstrópoles, em vez de metrópoles.

Ao percebermos o desastre, passamos a buscar soluções na engenharia dos viadutos, das estradas, dos estacionamentos, roubando espaço e patrimônio. Ainda não percebemos que o problema é menos de engenharia para corrigir o desastre em cada cidade, do que de política para reorientar o projeto de desenvolvimento nacional. Menos do que o conserto de cada cidade é preciso um concerto nacional para reorganizar a distribuição demográfica no território nacional.

Não percebemos que qualquer solução para melhorar as cidades grandes passará pela melhoria das condições oferecidas nas cidades pequenas e médias. E que a solução vai exigir uma “desmigração voluntária” da população dessas cidades grandes para cidades de porte médio ou pequeno.

No governo do Distrito Federal, entre 1995 e 1998, houve uma pequena, mas bem-sucedida experiência de “desmigração voluntária”, com pagamento de salário por seis meses para incentivar o retorno de moradores às cidades de onde tinham imigrado. O custo de pagar um salário por algum tempo a uma família “desmigrada” era menor do que o custo da assistência social que ela necessitava; a reintegração na sua origem trazia mais conforto, do que a exclusão em que estava na cidade sem condições para realizar a inclusão plena. Lamentavelmente, a “desmigração” exigia investimentos sociais nas cidades para onde as famílias voltavam e isso dependia do governo federal, no plano nacional.

Este ano de eleições presidenciais seria um momento oportuno para que algum candidato, ou todos eles, se manifeste sobre o grave problema das nossas cidades, indo além da engenharia e da demagogia, assumindo que as cidades grandes não têm mais conserto e que é melhor e mais barato investir para que as pessoas possam viver bem nas cidades pequenas e médias do que manter o custo social e econômico nas monstrópoles.

Para sair de monstrópoles para metrópoles não bastam consertos locais de engenharia, é preciso um concerto nacional na política.

Senador (PDT-DF)

Washington Novaes* : Que poder real tem a sociedade?

- O Estado de S. Paulo

Dizem as últimas pesquisas de intenção de voto (Estado, 21/3) que "a maioria absoluta (56%) dos eleitores tem pouco ou nenhum interesse pelas eleições". E 64% "gostariam que o próximo presidente mudasse tudo ou muita coisa no governo". É um panorama muito preocupante. Porque ainda se pode agravar até a eleição, com vários fatores em cena - como a persistência da inflação, a economia em momento incerto, o quadro urbano sem perspectiva de melhoras, a violência em altos patamares, etc.

E por que não muda? Em entrevista recente na televisão, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal - que tem rejeitado convites para ser candidato a presidente -, mencionou a "erosão das instituições" como centro da questão. Fez lembrar a interpretação de vários estudiosos, já citada aqui, de que "o Estado se tornou grande demais e não consegue aproximar-se dos problemas do cotidiano do cidadão comum, ao mesmo tempo que é pequeno demais para resolver as grandes questões em âmbito nacional ou planetário".

De fato. Quem pode conformar-se com o caos urbano, o déficit da área do lixo (260 mi toneladas diárias, com mais de metade dos municípios ainda levando os resíduos para lixões, segundo o Ipea), o déficit no saneamento (8% da população sem água potável nos domicílios, quase 40% sem ligação com redes de esgotos, só 38% dos esgotos coletados com tratamento), a violência em níveis alarmantes (32 homicídios por 100 mil habitantes, ante 2/100 mil na Grã-Bretanha, 5/100 mil nos Estados Unidos)? Mas o poder público só está investindo em saneamento menos de metade do que seria preciso para universalizar água e esgotos até 2023, como prometera. Os municípios, que já esgotam o prazo para apresentar planos diretores de resíduos a fim de se candidatarem a recursos federais, não o fizeram e querem prorrogação. E o Senado rejeitou em comissão o projeto de baixar para 16 anos a maioridade penal.

Enquanto isso, multiplicam-se os incentivos e isenções de impostos para os "grandes", ao mesmo tempo que o estoque do que a administração tem a receber (tributos atrasados, contribuições para a Previdência e outros itens) ultrapassa R$ 1 trilhão - quase 25% do produto interno bruto (Folha de S.Paulo,15/3). Nove Estados, por exemplo, concederam em incentivos fiscais R$ 33 bilhões mais do que aplicaram em obras e serviços durante um ano. E isso na hora em que o governo federal destina a Estados amazônicos, para ajuda a centenas de milhares de desabrigados pelas inundações inéditas, irrisórios R$ 2 milhões.

Há quem pense com otimismo nas perspectivas brasileiras no comércio exterior. Mas a balança comercial está em déficit - US$ 6,2 bilhões em dois meses deste ano, segundo artigo do diplomata Rubens Barbosa neste jornal em 11/3 (A2) -, que pode aumentar, segundo a União Europeia, porque as exportações crescerão abaixo da média mundial nos próximos dois anos (Estado, 27/2). A Standard & Poor's rebaixou a nota brasileira em matéria de risco e pode fazê-lo novamente (25/3) - pelo menos é o que pensa o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola.

No entender de analistas políticos, até aqui a visão da maioria da população quanto à administração pública tem sido influenciada pela ascensão de parcela importante das pessoas de menor renda à "nova classe média". A renda dos trabalhadores no País passou de 39% do PIB em 2002 para 48% este ano (23/3), aumentando seu consumo e o nível de atividade da indústria e do comércio. Há, entretanto, ameaças no horizonte, com o aumento do custo da cesta básica e sua repercussão em praticamente todas as áreas. Taxas de juros estão subindo. Nos últimos 12 meses, esse item pesou com R$ 256,6 bilhões nas contas públicas, ou 5,2% do PIB (O Globo, 8/3). E a dívida chega a R$ 1,67 trilhão.

Em sua primeira campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama teve como slogan principal a frase "yes, we can" ("sim, nós podemos"), que representava exatamente a convicção de que a sociedade conseguiria mudar, com seu voto, o panorama da política e da administração norte-americana. O eleitorado acreditou, apoiou, votou. Mas, ao que parece, as mudanças não ocorreram na medida desejada, mesmo num país de Primeiro Mundo com os recursos dos Estados Unidos. A oposição de parte decisiva do Congresso e de muitos dos setores mais poderosos da economia levou à queda de prestígio do presidente. Hoje às voltas também com um quadro internacional complexo e ameaçador.

Parece claro que em todos os lugares - não somos exceção - será preciso chegar aos caminhos de maior delegação de poder das áreas governamentais para a própria sociedade. Já tem sido mencionada neste espaço, por exemplo, a possibilidade de se criarem conselhos de cidadãos que concebam e acompanhem a execução de todo o orçamento (em subprefeituras, por exemplo), fiscalizem a execução, punam quem não respeitar. Só que as corporações políticas têm demonstrado repúdio total e silêncio, na melhor das hipóteses, a propostas nessa direção, como já ocorreu na Câmara Municipal paulistana. Que dirá em outras áreas mais complexas ainda.

É preciso não esquecer que existe a possibilidade de o nosso quadro interno tornar-se mais problemático. De o panorama econômico ser menos favorável, como tantos analistas admitem. De as condições climáticas continuarem difíceis e influírem em setores como o da cesta básica, ou o dos exportações, ou nas condições de vida das populações, especialmente nas cidades maiores. E ainda, em função desses fatores, ou de protestos mais amplos (que a própria Copa do Mundo pode favorecer), enfrentarmos momentos sociais complicados, com repercussões políticas.

Não se trata de pessimismo, apenas de cautela. E da necessidade de conceber rumos adequados para o País.

*Washington Novaes é jornalista.

Merval Pereira: Gestão em xeque

O Globo

Volta ao centro do debate eleitoral a gestão pública, que durante muitos anos e outras tantas eleições o PT ridicularizou, demonizando a tese do “choque de gestão” como sinônimo de demissões em massa e desproteção dos trabalhadores, mas dessa vez em outra dimensão, menos favorável ao governo de Dilma Rousseff.

A incompetência da gestão pública do atual governo está cobrando um pedágio pesado dos cidadãos, sem trocadilhos fáceis. A situação de penúria de nossa infraestrutura está sendo enfrentada, com atraso, com as concessões à iniciativa privada da construção e manutenção de rodovias, portos, aeroportos, sem que haja perspectiva de que as obras necessárias estejam prontas a tempo de o país não passar vexame na organização da Copa e das Olimpíadas.

Vendida ao eleitorado como uma grande gerente, os fracassos na administração do país têm gerado conseqüências na sua popularidade, especialmente pela inflação crescente e o mal-estar provocado pelos péssimos serviços públicos nas grandes cidades, e devem impactar a intenção de votos nas eleições deste ano, em que Dilma ainda aparece como favorita.

Dois de seus principais adversários são ex-governadores que têm justamente na qualidade de suas gestões as bandeiras para tentar captar essa insatisfação do eleitorado. O senador Aécio Neves, do PSDB, ex-governador de Minas Gerais, e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, são destaques da nova geração de políticos e têm características comuns na visão do Estado e como levá-lo de volta à rota do crescimento econômico com desenvolvimento social.

São tão próximas as visões que se pode especular que o provável ministro da Fazenda de Aécio, Armínio Fraga, pode ser convidado por Campos em caso de sua vitória. Para o economista Claudio Porto, presidente da Macroplan, consultoria de atuação nacional especializada em planejamento de longo prazo e que já operou no planejamento estratégico de governos estaduais — com destaque para Minas, no governo de Aécio —, a visão de longo prazo deve ser uma das marcas fortes da campanha de Campos, credenciando-o a entrar no campo nacional para disputar os votos tanto dos eleitores de oposição como dos que se decepcionaram com os métodos de gestão do atual governo.

Porto, envolvido num projeto de longo prazo do governo de Pernambuco, ressalta que não há dúvidas de que as linhas gerais do pensamento e das práticas de Campos na área da gestão pública têm pontos em comum com as do candidato Aécio, “precursor, no nível estadual, de uma gestão meritocrática e orientada para resultados, que não evitou privatizações e criou metas e objetivos definidos para a execução orçamentária”.

O que mais anima Porto é um fato portador de futuro que está cada vez mais visível: a crescente valorização do planejamento e da visão de longo prazo como uma ferramenta de Estado e de governo, que ultrapasse as metas individuais de uma gestão.

Para corroborar essa análise, os dois futuros candidatos mantêm um programa de governo de longo prazo em seus estados.

Um dos principais movimentos de Campos foi o lançamento de uma visão de futuro de Pernambuco para 2035. As metas têm a Educação no papel central: em 20 anos, o objetivo é quase que dobrar o nível de escolaridade dos pernambucanos, alcançando média de 12 anos de estudo em 2035. A visão de longo prazo proposta pelo governador pernambucano se completa com três grandes focos, que vão além da economia: qualidade de vida, prosperidade e coesão social.

Em Minas, o ex-governador Antonio Anastasia, que deve ser o coordenador do programa de governo de Aécio e eventualmente futuro chefe do gabinete civil, lançou ao se desincompatibilizar do governo o livro “Do Choque de Gestão à Gestão para a Cidadania — 10 Anos de Inovações Gerenciais em Minas Gerais”, que relata os processos e instrumentos instituídos pelo modelo de governança pública que começou a ser implantado em 2003, no 1º mandato de Aécio.

Esse modelo, que tem como base o gerenciamento das ações governamentais, levou Minas a ser o 1º estado a tornar obrigatória a frequência de crianças com seis anos na escola. Em 2013, alunos da rede se sagraram, pela sétima vez consecutiva, campeões da Olimpíada Brasileira de Matemática. E escolas estaduais estão no topo do ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, do Ministério da Educação. l

Zuenir Ventura: Um país duro de digerir

É a sexta economia mundial, mas ocupa o 85º lugar em desenvolvimento humano. Apesar disso, pode se mostrar solidário diante de um desastre natural

Uma jornalista francesa fez esta semana uma entrevista conjunta com Roberto D’Avila e comigo, entre outros, para tentar entender o Brasil às vésperas da Copa do Mundo e das eleições. Não é tarefa fácil. A França de René Descartes é, além de cartesiana, claro, previsível. Bem antes das últimas disputas municipais, já sabia que os socialistas iam perder, que a oposição ia ganhar e que a extrema-direita ia crescer ameaçadoramente. Já nós, não sabemos nem quais serão os candidatos, nem se Dilma vai se reeleger ou se Lula vai voltar. Se não há certeza sobre o presente, como prever o por vir? Nossa desculpa para ela foi que, como disse o ex-ministro Pedro Malan, “no Brasil até o passado é imprevisível”. E tanto é verdade que todos nós, jornalistas, economistas, sociólogos, erramos de tal maneira em nossas antevisões que somos chamados de “profetas do passado” — só conseguimos acertar o que passou, assim mesmo, nem sempre.

Além de nossa colega, muitos tentaram nos decifrar. “É o país do futuro” (Stephan Zweig), “É o país dos contrastes” (Roger Bastide), “Não é um país sério” (Charles de Gaulle), “Não é um país para principiantes” (Tom Jobim). O Brasil parece se divertir em ser rebelde e irredutível às classificações.

Ambíguo, ele não é uma coisa ou outra, mas as duas. Não é isso ou aquilo, mas isso e aquilo. Complexo e surpreendente, ao mesmo tempo cordial e violento, generoso e mesquinho, honesto e corrupto, egoísta e solidário, trabalhador e preguiçoso, o país gosta de desmentir o que se diz dele, a favor ou contra. É capaz de infames perversidades, teve um dos sistemas de escravidão mais cruéis do mundo, cometeu atrocidades como as que estão vindo a público agora, nos 50 anos do golpe militar, é insensível aos seus milhões de miseráveis. É a sexta economia mundial, mas ocupa o 85º lugar em desenvolvimento humano. Apesar disso, pode se mostrar solidário e fraterno diante de um desastre natural, socorrendo vítimas e fornecendo-lhes alimentos e roupas, por meio de um voluntariado organizado ou não. Campanhas como as de transplantes e doação de órgãos, por exemplo, são, pelo recorde de adesões, referências mundiais.

Para ver como funciona outra importante característica nossa, a ciclotimia, que faz nosso astral e nossa autoestima oscilarem da euforia à depressão, sugerimos à jornalista voltar depois da Copa, quando o país será outro — melhor ou pior, já que aqui o evento não é apenas esportivo, mas também cívico, e “a seleção é a pátria de chuteiras” (Nelson Rodrigues). Se vencer, uma onda de otimismo se estenderá até a política. Se perder — Felipão já foi avisado — será o inferno, como foi em 1950, cujo trauma da derrota está enquistado até hoje em nossa memória coletiva.

Prefeitos opositores denunciam perseguição na Venezuela

Dos 76 eleitos, 23 são alvos de procedimentos abertos no MP ou no Judiciário, segundo a Associação de Prefeitos

Deputada cassada María Corina Machado voltou a pedir que a presidente Dilma se solidarize com a oposição venezuelana

O Globo

CARACAS — No mesmo dia em que o líder opositor Leopoldo López foi acusado pelo Ministério Público venezuelano por quatro crimes relacionados aos protestos no país, o também opositor Carlos Ocáriz, prefeito da cidade de Sucre — uma das que formam a região metropolitana de Caracas — denunciou uma perseguição contra políticos não chavistas eleitos no pleito municipal de dezembro passado. Segundo Ocáriz, desde então, 23 dos 76 opositores eleitos para prefeituras são alvos de procedimentos abertos no MP ou no Judiciário.

— Isto é muito grave para o Estado de direito e a liberdade democrática de nosso país. Pedimos que, na próxima visita de chanceleres da Unasul, possamos ter uma audiência privada com eles para explicar a perseguição de que os prefeitos são vítimas — disse, em reunião da Associação de Prefeitos da Venezuela, formada por opositores.

Segundo o Ministério de Relações Exteriores venezuelano, chanceleres de Brasil, Argentina, Equador, Colômbia e Suriname estarão na Venezuela segunda e terça-feira para dar continuidade ao “processo de acompanhamento e apoio ao diálogo com todos os setores da sociedade venezuelana”.

A opositora María Corina Machado, cujo mandato de deputada foi cassado com apoio de chavistas no Legislativo e no Judiciário, voltou a pedir que a presidente Dilma Rousseff se solidarize com a oposição venezuelana. María Corina esteve nesta sexta-feira em São Paulo, onde reuniu-se com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), após passar por Brasília.

— O governo deseja uma guerra do povo contra povo, mas o que há é uma guerra contra os civis por parte de um regime que é um dos mais corruptos de nossa História — disse a opositora, que volta neste sábado para Caracas.

María Corina voltou a negar que a oposição queira dar um golpe de Estado e criticou a influência do Executivo chavista sobre os outros Poderes.

— Não cremos em golpes. Golpe foi dado por Maduro quando, a partir da Presidência, controla todos os demais Poderes, viola a Constituição, viola os direitos humanos — acusou.
A opositora foi cassada por falar na Organização dos Estados Americanos (OEA) como integrante da delegação do Panamá. O governo afirma que atitude de María Corina foi inconstitucional, o que a oposição nega.

Em paralelo às denúncias de opositores, a procuradora-geral da Venezuela, a chavista Luisa Ortega Díaz, informou que Leopoldo López foi acusado pelos crimes de incitação à violência e associação para o crime, além de ser apontado como o mandante de danos a propriedades e de incêndio criminoso. No fim da tarde, milhares de militantes da oposição se reuniram numa praça de Caracas para defender a libertação de López, cujos 45 dias de prisão preventiva se esgotam neste sábado.

— Queremos ratificar a natureza antidemocrática deste governo — acusou Freddy Guevara, um dos dirigentes do partido Vontade Popular, de López. — Convocamos um protesto permanente de 24 horas contínuas. Não temos medo, será uma grande assembleia de 24 horas.
Segundo a procuradora-geral, 67 pessoas foram indiciadas por crimes em protestos. O presidente Nicolás Maduro declarou nesta sexta-feira que a depredação nas manifestações desde fevereiro deixou um prejuízo de US$ 15 bilhões.

O custo humano dos embates entre governistas, opositores e forças de segurança nas ruas também permanece alto. Segundo balanço do MP, 39 pessoas morreram e 608 ficaram feridas em manifestações. Os civis são maioria entre as vítimas: 31 mortos e 414 feridos. O restante é formado por militares, policiais e outros funcionários públicos. (Colaborou Germano Oliveira, de São Paulo)

María Corina admite plano de ser presidente da Venezuela

Em entrevista ao programa Roda Viva, deputada opositora reafirmou necessidade de 'tirar chavismo do poder'

Rodrigo Cavalheiro - O Estado de S. Paulo

A deputada opositora María Corina Machado reconheceu ontem sua ambição de ser candidata à presidência da Venezuela. Ela lidera, ao lado de Leopoldo López - preso há 45 dias -, o movimento que pede a renúncia imediata do presidente Nicolás Maduro, cenário que levaria a eleições em 30 dias.

"Todos os venezuelanos sabem que quero ser presidente. Mas a prioridade agora é tirar o chavismo do poder", disse a deputada no programa Roda Viva, gravado ontem a tarde, ao ser questionada se apoiaria Henrique Capriles em uma eleição antecipada ou disputaria prévias. O programa será transmitido às 22h de segunda-feira. María Corina admitiu "divergências democráticas" na oposição e afirmou que o chavismo enfrenta divisões muito maiores "até mesmo nas Forças Armadas".

Pela manhã, após reunião com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, a opositora disse que teme ser presa após sua cassação e acusou o chavismo de tentar desmobilizar a oposição ao deter líderes dos protestos. Ela disse esperar que sua visita ao Brasil mude a posição do governo de Dilma Rousseff sobre a Venezuela. "Um país que pretende ser líder na América Latina não pode ser apenas líder econômico, tem de ser também líder institucional na defesa dos ideais democráticos", afirmou. Alckmin elogiou a deputada e afirmou que não existe democracia sem oposição.

João Cabral de Melo Neto: Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).