domingo, 4 de janeiro de 2015

Governo terá base menos fiel no senado e uma oposição mais forte

• Planalto contabiliza 39 aliados certos; 22 independentes e 20 oposicionistas

Fernanda Krakovics – O Globo

BRASÍLIA – Diferentemente de seu primeiro mandato, a presidente Dilma Rousseff não deve ter um ambiente de calmaria no Senado a partir do ano que vem. O governo já se prepara para enfrentar uma oposição mais combativa e uma base aliada pouco fiel. Formalmente, os partidos que não apoiaram a reeleição da presidente Dilma somarão 29 senadores no próximo ano e a base aliada, 52. Na prática, porém, o governo trabalha com um cenário em que a oposição para valer contará com 20 integrantes no Senado e a base de apoio terá, a princípio, 39. Nesse mapeamento, 22 senadores serão independentes ou condicionarão seu apoio na votação de projetos ou em Comissões Parlamentares de Inquérito ao diálogo com o Palácio do Planalto, sem alinhamento automático.

Integrantes da base aliada afirmam, no entanto, que essa correlação de forças pode ser implodida pela operação Lava- Jato, da Polícia Federal, que investiga esquema de pagamento de propina a partidos políticos na Petrobras. Deputados e senadores esperam uma avalanche no Congresso. Até agora foram presos executivos de empreiteiras e ex-diretores da Petrobras.

Esses números da composição do novo Senado foram citados pelo ex-presidente Lula em reunião com os senadores do PT no mês passado. Lula não engole até hoje a derrubada da CPMF pelo Senado em sua gestão, e está preocupado com a nova composição da Casa.

- A nossa senadora eleita, Fátima (Bezerra, PT-RN) veio com vontade de brigar e o povo de Goiás deu de presente pra ela o (Ronaldo) Caiado (DEM-GO) para ela enfrentar logo de cara - incensou Lula, em evento do PT.

Aposta em defecções
Apesar de numericamente em desvantagem, a oposição estará mais qualificada, com o reforço de nomes de peso como José Serra (PSDB-SP), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Antonio Anastasia (PSDB-MG) e Ronaldo Caiado (DEM-GO). E os oposicionistas também apostam nas defecções na base aliada.

- A base do governo no Senado é encabulada, e a oposição vai trazer gente mais aguerrida. A oposição vai voltar a dar rumo às iniciativas do Senado - acredita o líder do DEM, José Agripino.

A oposição, no entanto, também tem suas deserções. O PTB, que desembarcou do governo na véspera da oficialização da candidatura de Dilma à reeleição para apoiar Aécio Neves (PSDB), já está de volta. O senador Armando Monteiro (PTB-PE) será ministro do Desenvolvimento.

Apoio sem "amém"
O PSB, que disputou a presidência da República com Marina Silva e terá uma bancada de seis senadores, adotará uma postura de independência, e não de oposição. A bancada do PSB da Câmara é mais oposicionista do que a do Senado, que tem como integrantes nomes historicamente ligados ao PT. Os defensores de uma postura independente argumentam que a oposição já tem um líder, o senador Aécio Neves (MG), e que o partido ficaria a reboque.

Derrotada na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, a senadora Ana Amélia (PP-RS) é uma das que continuará na linha de frente dos independentes da base aliada, com viés oposicionista.

- Para o Brasil, vai ser melhor o Senado vai ter uma oposição com mais visibilidade e mais protagonismo. Estamos sufocados com as medidas provisórias, é a UTI da relação institucional. O governo vai ter que ser mais competente politicamente - afirmou Ana Amélia.

No PDT, o senador Cristovam Buarque (DF) contará com o reforço de Reguffe (DF), eleito agora, na ala dos independentes. O presidente do partido, Carlos Lupi, relativiza a rebeldia de parte da bancada:

- O partido continuará a apoiar o governo, mas isso não quer dizer amém para tudo.

Debate mais qualificado
No PMDB, os independentes perderão Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE), que encerrarão seus mandatos, mas devem ganhar o reforço de Simone Tebet (MS), Rose de Freitas (ES) e Dário Berger (SC).

Em alguns casos, integrantes da base aliada fazem oposição ou adotam postura independente do Planalto por questões regionais.

- Não me considero de oposição, mas sou muito independente em relação às votações. O primeiro a saber quando não posso votar (com o governo) é o líder da minha bancada. No meu estado o PT é nosso adversário - disse Waldemir Moka (PMDB-MS).

Senadores do PT preveem que o debate será mais difícil tanto pelo resultado da eleição presidencial, que deu fôlego à oposição, quanto pelos quadros do PSDB e do DEM que foram eleitos. Mas os petistas também veem um lado positivo no time de estrelas que vai integrar a bancada oposicionista. Apostam que as negociações serão de mais alto nível.

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