segunda-feira, 25 de maio de 2015

Esquerda avança na Espanha e toma terreno do PP

• Partido pode perder comando de Madri e de Valência, enquanto Podemos e Cidadãos avançam

O Globo

MADRI E BARCELONA — O tabuleiro político da Espanha mudou neste domingo diante de uma amarga vitória do Partido Popular nas eleições municipais: foi a legenda mais votada, porém perdeu poder territorial e, pela primeira vez desde 1991, pode não governar a capital. Em Barcelona, a candidatura liderada pela ativista antirremoções Ada Colau deve protagonizar uma mudança histórica ao colocar a esquerda e uma mulher no governo da segunda maior cidade do país. Com quase todos os votos contados, a Espanha entra num processo de formação de coalizões, e não mais a será governada somente por um dos dois partidos tradicionais, o Popular e o Socialista Operário Espanhol (PSOE).

Nas eleições locais de 2011, socialistas e populares tiveram juntos 65,3% dos votos. Mas neste domingo conseguiram apenas 51%. Termômetro das eleições gerais do fim do ano, as negociações partidárias agora se mostram cruciais para as formações dos governos locais.

Madri e Barcelona podem ser governadas por coalizões de esquerda com alta afinidade entre si. Os acordos forjados nessas duas cidades podem repercutir ainda em outras, ampliando a derrota da direita. Diante das incertezas sobre o resultado das coalizões, Ada Colau desponta como a grande vencedora do pleito deste domingo ao liderar os votos em Barcelona: superou tanto a direita do PP quanto os independentistas catalães.

Ativista antirremoções e caloura na política, Colau desbancou o líder nacionalista Xavier Trias, prefeito da cidade pelos últimos quatro anos. Sua coalizão, Barcelona em Comú — que inclui os partidos Iniciativa, Esquerra Unida, Podemos, Procés Constituent e Equo — conseguiu 11 das 41 cadeiras do Parlamento regional. O Convergência e União (CiU), de Trias, acabou em segundo lugar com dez assentos, quatro a menos do que tinha. Os nacionalistas catalães haviam apresentado o pleito como uma prévia das eleições regionais de 27 de setembro, que pretendiam converter em um plebiscito sobre a independência da Catalunha. O CiU já havia admitido na campanha que perder a prefeitura seria um duro golpe no processo independentista.

Nova prefeita chegou a ser presa
Colau ganhou destaque ao participar de mobilizações contra a remoção de pessoas afetadas pela crise de suas casas e chegou a ser presa por protestar dentro de um banco.

— Este processo é uma revolução democrática que não pode ser parada na Catalunha, na Espanha e em todo Sul da Europa — disse Calou, ao comemorar o resultado. — Foi a vitória de Davi contra Golias.

Na capital espanhola, o PP obteve mais votos, mas Agora Madri, apoiado pelo Podemos, ficou em segundo com a diferença de apenas um vereador. Manuela Carmena, do Agora Madri, poderá ser a próxima prefeita se fechar um acordo com o PSOE, cujo candidato foi Antonio Miguel Carmona. Isso levaria o PP a perder o comando da capital pela primeira vez em mais de 20 anos.

— Recebemos a mensagem dos madrilenhos — disse Esperanza Aguirre, presidente do PP madrilenho. — Estamos conscientes de termos passado de 48% em 2011 para 34,4%.

Mesmo tendo liderado a votação em 11 das 13 regiões autônomas que foram às urnas e de ter obtido 28% dos votos, o PP perdeu eleitores em relação às últimas eleições e pode ficar com menos prefeituras se não conseguir um acordo com o Cidadãos, de centro-direita. Outra importante cidade que pode sair do controle dos Populares é Valência, a terceira maior do país. Em várias outras partes do país interessados em governar precisarão fazer coalizões, entre elas Aragão, Extremadura e Baleares.

No total, o PSOE ficou apenas dois pontos atrás do PP, mas também saiu chamuscado. Se o PP perdeu 2,55 milhões de votos em comparação com 2011, os socialistas perderam 775 mil em relação às eleições municipais e autonômicas. Só foi o mais votado nas comunidades de Astúrias e Extremadura. Para recuperar seu poder institucional, o partido de centro-esquerda precisará se coligar a legendas mais radicais, como o Podemos, e com outras candidaturas vinculadas aos movimentos sociais.

A vitória em Barcelona e a provável conquista de Madri são vistas como um resultado do movimento social dos indignados, ou 15-M, iniciado em maio de 2011. Dele surgiram partidos como o Podemos, que tem entre suas principais metas por fim à agenda de austeridade. O Podemos conseguiu representantes em quase todos os parlamentos regionais em disputa e seu apoio a candidaturas à prefeitura foi fundamental para o processo de desmontagem do bipartidarismo espanhol — mesmo que PSOE e PP continuem na frente das demais legendas.

Cidadãos rouba votos do PP
Apesar das derrotas, o Popular conseguiu manter a liderança de Cristina Cifuentes na Comunidade Autônoma de Madri, mesmo que com uma margem pequena e sem maioria. A lei espanhola prevê que, caso não aja acordos nem maioria, o partido mais votado deve governar.

Assim como o PSOE perdeu terreno para legendas de esquerda, o PP também viu o surgimento do Cidadãos, de centro-direita, levar parte de seus eleitores e conquistar cadeiras em quase todas as assembleias regionais.

Mesmo tendo ficado em segundo lugar e dependendo de partidos mais radicais para formar coalizões, o líder do PSOE, Pedro Sánchez, comemorou o resultado já pensando nas eleições de dezembro:

— Vamos assumir nossa responsabilidade, que será articular governos progressistas. Esse é princípio do fim de Mariano Rajoy como presidente do governo — disse Sánchez.

Resultado total
PP - 6.032.496  - 27,03%

PSOE - 5.587.084  25,03%

C' S - 1.461.258  - 6,55%


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