domingo, 19 de julho de 2015

Gustavo Müller - Vácuo na centro-esquerda

- O Globo

• Lula e um setor do PT ensaiam uma saída ‘à esquerda’, com o criador negando a criatura como se fosse possível retornar ao estado anterior ao pecado original

O historiador alemão Geoff Eley, na sua obra “Forjando a democracia”, traça um histórico das esquerdas europeias, ressaltando a importância da experiência da negociação parlamentar para a construção do que veio a ser a social-democracia. Na mesma linha de raciocínio, Adam Przeworski, em “Capitalismo e social-democracia” destacou o papel das coalizões parlamentares na conquista do que o autor denominou de “bases materiais do consentimento”. Obviamente a consolidação de uma centro-esquerda abrigada no constitucionalismo liberal não representou um antídoto infalível contra os totalitarismos, mas assegurou reformas sociais que produziram estabilidade política.

Já na América Latina a trajetória esquerdista assumiu rota diversa. Num continente marcado por quarteladas e populismos, não foi possível a consolidação da arena parlamentar, fator agravado pela forma de governo presidencialista. Inserido neste contexto, o Brasil possui uma característica diferenciada desde a sua formação: o centralismo do Estado, que permitiu a este antecipar-se perante os movimentos da sociedade civil.

Nosso primeiro esboço de partido de massa foi o PTB, gestado no útero do Estado Novo. Com o regime militar o MDB passou a incorporar setores de centro e uma esquerda democrática que optou por ocupar os parcos espaços institucionais de resistência. A redemocratização e a dissolução do bipartidarismo permitiram a criação do PT, partido representante de uma esquerda, não necessariamente afeita ao constitucionalismo liberal, e o surgimento do PSDB como partido de centro-esquerda, fruto de uma dissidência do PMDB.

Enquanto o PT deitava raízes nos movimentos sociais, o PSDB, percebendo o esgotamento do ciclo desenvolvimentista, propunha o “choque de capitalismo” como uma solução para a modernização do Estado e da economia. Este modelo não destoava da centro-esquerda que tentava se reinventar na Europa.

O ponto em comum entre a centro-esquerda europeia e o PSDB estava na aceitação de algumas medidas de corte liberal, mas a diferença fundamental estava no fato de que o PSDB no governo teve que promover reformas estruturais mais profundas que as feitas na Europa até então. Por conta disso, o que seria uma proposta de centro-esquerda acabou sendo taxada de neoliberal. Por sua vez, o PT em 2002 ensaiou uma inflexão ao centro, aceitando o tripé econômico deixado pelo governo anterior como condição básica para novos avanços sociais. Durante parte do primeiro mandato de Lula o PT adotou o receituário tucano, e mesmo depois de se render ao antigo desenvolvimentismo, o PSDB não foi capaz de reocupar seu lugar de partido social-democrata, deixando que seu conteúdo programático fosse esvaziado por marqueteiros que operam em um mercado eleitoral exacerbado.

Com a profunda crise em que se encontra o governo Dilma, Lula e um setor do PT ensaiam uma saída “à esquerda”, com o criador negando a criatura como se fosse possível retornar ao estado anterior ao pecado original, e enterrando definitivamente quaisquer possibilidades de adoção dos princípios da centro-esquerda. Por outro lado, o PSDB também recusa seu legado buscando um protagonismo oposicionista guiado pelas circunstâncias.

Como resultado deste atraso na formação de uma moderna social-democracia, liberais extremados, que nada aprenderam com a crise de 2008, ganham espaço. Enquanto isso permanece não apenas o vácuo na centro-esquerda, mas a dúvida a respeito de um possível distanciamento dos partidos políticos em relação ao centro, e indo rumo aos extremos.
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Gustavo Müller é professor de Ciência Política da Universidade Federal de Santa Maria (RS)

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