terça-feira, 8 de setembro de 2015

Dilma admite que ações do 1º mandato levaram à crise

• Em discurso na internet, presidente fala da necessidade de ‘remédios amargos’, mas ‘indispensáveis’

Dilma reconhece erros do primeiro mandato e reavalia gasto social

• Em mensagem divulgada pelo Palácio do Planalto nas redes sociais, presidente fala sobre a crise pela qual o País passa no momento

Ana Fernandes e Gustavo Porto - O Estado de S. Paulo

Em vídeo postado pelas redes sociais, como estratégia para evitar os panelaços, a presidente Dilma Rousseff fez um discurso de mea-culpa, com reconhecimento da gravidade da crise, e ao mesmo tempo já colocando uma argumentação de união e tolerância para fazer a "travessia".

"Se cometemos erros, e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente", diz a presidente, vestida com um terno azul claro e com um quadro em tons azuis ao fundo. "As dificuldades são nossas e são superáveis. O que eu quero dizer, com toda franqueza, é que estamos enfrentando os desafios, essas dificuldades, e que vamos fazer essa travessia."

A presidente lembra que há dificuldades na economia pelo mundo, mas admite também que a crise é consequência da estratégia do governo brasileiro nos últimos anos. "As dificuldades e desafios resultam de longo período em que o governo entendeu que deveria gastar o que fosse preciso para garantir o emprego e a renda do trabalhador, a continuidade dos investimentos e dos programas sociais. Agora temos de reavaliar todas essas medidas e reduzir as que devem ser reduzidas."

Dilma afirma que a situação exige "remédios amargos", mas "indispensáveis". "As medidas que estamos adotando são necessárias para botar a casa em ordem, reduzir a inflação por exemplo", reforça. E, em diversos momentos, destaca que a saída é a união do povo. "O esforço de todos nós é que vai nos levar a superar esse momento", diz em um trecho do discurso. "Devemos, nessa hora, estar acima das diferenças menores, colocando em segundo plano os interesses individuais ou partidários", complementa em outro.

Em dia de novos protestos contra seu governo, tanto de movimentos pró impeachment, como de movimentos sociais que criticam o ajuste fiscal com cortes a programas de moradias, Dilma aparece em um vídeo que não tem vermelho em nenhum ponto, afastando a associação com o PT.

Em sua fala, Dilma se coloca como a liderança adequada para conduzir o País na saída da crise. "Me sinto preparada para conduzir o Brasil no caminho de um novo ciclo de crescimento, ampliando as oportunidades para nosso povo subir na vida, com mais e melhores empregos", afirma.

A presidente reitera as conquistas dos últimos 12 anos, sem contudo citar sua legenda. Lembra que milhões foram tirados da miséria e alçados à classe média, mas lembra que ainda há muito a se fazer, por exemplo, na educação, e que isso passa por correções na economia. Mas frisa que não abrirá mão da "alma e caráter" de seu governo, que é gerar oportunidades via programas sociais. "Nenhuma dificuldade me fará abrir mão da alma e do caráter do meu governo. A alma e o caráter do meu governo é assegurar, neste país de grande diversidade, oportunidades iguais para a nossa população. Sem recuos, sem retrocessos."

Independência. Dilma destaca a celebração da Independência do Brasil e, com o gancho, elogia a capacidade do brasileiro de "lutar e conviver com a diversidade, tolerante em face às diferenças e respeitoso na defesa de ideias". A fala funciona como uma vacina contra manifestações de volta à ditadura militar que, apesar de minoritárias pelo País, ganham destaque nos desfiles da data de hoje. Segundo a presidente, a população deve permanecer "firme na defesa da maior conquista alcançada e pela qual devemos zelar permanentemente: a democracia e a adoção do voto popular" - referência também à legitimidade de seu mandato, conquistado nas urnas.

Dilma encerra a mensagem dizendo que a independência "acontece todos os dias" e exaltando a autoestima do povo. "Hoje, mais do que nunca, somos todos Brasil."

Refugiados na Europa. A presidente aproveitou o pronunciamento divulgado nas redes para falar da "tragédia humanitária" envolvendo refugiados. Dilma lembrou a imagem do menino sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, cujo corpo foi encontrado em uma praia turca, dizendo que comoveu a todos e deixou um desafio para o mundo. A presidente reiterou disposição do governo brasileiro "de receber aqueles que, expulsos de suas pátrias, para aqui queiram vir, viver, trabalhar e contribuir para a prosperidade e a paz do Brasil".

"Nós, o Brasil somos uma nação que foi formada por povos das mais diversas origens, que aqui vivemos em paz. Mesmo em momentos de dificuldade, de crise, como a que estamos passando, teremos os nossos braços abertos para acolher os refugiados", afirmou, destacando uma posição política do País e também mostrando em paralelo que a situação do Brasil não é tão grave em face a tragédias que acontecem pelo mundo.

Edinho. O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Edinho Silva afirmou que a divulgação do pronunciamento de Sete de Setembro da presidente da República Dilma Rousseff ter sido divulgado apenas pela internet em redes sociais é uma forma de valorizar outros modais de comunicação que não seja a televisão. "Eu e a presidente Dilma concordamos que temos de valorizar todos os modais e as redes sociais são importantes".

Edinho evitou comentar que a falta de um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão durante o feriado esteja relacionada aos possíveis protestos e panelaços que pudessem ocorrer. "É importante a convocação de rede de tevê, mas isso não pode ser banalizado. E também não significa que não terão novos pronunciamentos", concluiu

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