terça-feira, 12 de julho de 2016

Paes: Olimpíada é ‘uma oportunidade perdida’

• Prefeito diz que crise arranhou imagem do Rio e do país. Nas redes sociais, ele bate boca com internautas

“Se você ler os meios de comunicação internacionais, parece que tudo aqui é zika e pessoas atirando umas nas outras” Eduardo Paes Prefeito

Elenilce Bottari - O Globo

A menos de um mês para os Jogos, o prefeito Eduardo Paes disse ao britânico “The Guardian” que a Olimpíada “é uma oportunidade perdida para o Brasil”. Ele lamentou a crise política e econômica do país, e acusou a imprensa de exagerar os problemas do Rio: “Parece que tudo aqui é zika e pessoas atirando uma nas outras.” Paes já causara polêmica ao dizer que a situação da segurança no estado está “horrível”. Depois de criticar duramente o governo do estado, dizendo que estava na hora de tomar vergonha e fazer a sua parte, e de afirmar que a segurança do Rio é horrível, o prefeito Eduardo Paes voltou a dar declarações polêmicas. 

Em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, ele afirmou que os Jogos Olímpicos “são uma oportunidade perdida para o Brasil”. Ele se referia aos problemas, apontados pelo jornal, que o país vem enfrentando às vésperas do megaevento, como recessão, falhas na segurança, epidemia de zika, impeachment da presidente, cortes no orçamento, atrasos na infraestrutura e queixas sobre gentrificação, que teriam provocado danos graves às imagens do Brasil e do Rio.


— Esta é uma oportunidade perdida. Não estamos nos apresentando bem. Com todas essas crises econômicas e políticas, com todos esses escândalos, não é o melhor momento para estar nos olhos do mundo. Isso é ruim — comentou.

Paes, na entrevista, disse ainda que os problemas da cidade são noticiados de forma exagerada pela imprensa, o que acaba retratando o Rio injustamente no exterior:

— Isso me deixa louco. Se você ler os meios de comunicação internacionais, parece que tudo aqui é zika e pessoas atirando umas nas outras.

Investimentos em áreas pobres
Na entrevista de duas horas que concedeu a Jonathan Watts, o prefeito também refutou as acusações de que os investimentos feitos na Olimpíada tiveram foco nas partes mais ricas da cidade, especialmente a Barra da Tijuca.

— É loucura dizer que não teve investimentos nas áreas pobres. Se as pessoas dizem isso, não conhecem a geografia da cidade — disse Paes. — Nunca houve tanta transformação para as pessoas pobres (no Rio). Os Jogos Olímpicos são uma grande inspiração para fazer as coisas.

Segundo o jornal britânico, o prefeito disse que 75% do investimento total do governo da cidade foi para as áreas mais pobres das zonas Norte e Oeste, porque é de onde ele afirmou receber seus votos. Ainda de acordo com o “The Guardian”, a maior parte das 331 novas escolas e 90 novas clínicas de saúde também fica nessas áreas, assim como a maioria das novas vias, que, segundo o jornal, “reduzirão o tempo de deslocamento para as pessoas que vivem em favelas e trabalham na Zona Sul da cidade”.

A publicação diz que a maior parte das novas vias leva pessoas para a Barra e dali para outros bairros. Afirma ainda que o prefeito estaria promovendo a gentrificação da cidade, mesmo que isso signifique que muitos moradores tenham de deixar suas casas. De acordo com o jornal, críticos alegam que Paes removeu quase 50 mil pessoas, informação negada pelo prefeito. Ele diz que o número de realocações é de centenas, no caso de projetos ligados diretamente aos Jogos, e de poucos milhares, no caso das obras de BRT.

O BRT, aliás, faz parte do principal legado dos Jogos, que, segundo Paes disse ao jornal, está no setor dos transportes: “Em 2009, apenas 18% dos moradores do Rio usavam transporte público. Agora, o número é 63%.” Na entrevista, o prefeito afirmou acreditar que a cidade vá virar uma festa durante os Jogos, mas admitiu que, quando o “boom olímpico” acabar, a ressaca pode ser difícil:

— Nós não somos uma ilha. A crise já está nos atingindo. Mas acho que a economia pode subir novamente. Eu acredito no futuro desta cidade e do país.

O tom da entrevista foi menos mal-humorado do que o que Paes usou, na noite de domingo, em conversa nas redes sociais. Ele bateu boca com internautas pelo Twitter e, irritado com a crítica de um jovem chamado Caio, que afirmou que 90% do nojo que sentia de viver no Rio era por causa do Eduardo Paes, chegou a propor que ele deixasse a cidade. “Cultura inútil, meio lerdo, meio surdo (não fisicamente, mas para ouvir os outros). Se muda, pô!”, publicou o prefeito numa das postagens, para depois concluir que o internauta devia morar em Maricá. Pouco depois, consertou a nova gafe sobre a cidade, dizendo que pretendia ir esta semana ao município para pedir desculpas por tê-lo criticado numa conversa grampeada com Lula.

— Quando o prefeito disse para eu me mudar, não acreditei que fosse ele. Ele nunca havia respondido a nenhum post. Achei que fosse algum social media sem noção, uma invasão. Mas não, foi ele mesmo. E o pior: a expressão “meio lerdo, meio surdo” ele tirou do meu perfil. Eu, de fato, tenho problemas de surdez. Achei um absurdo ele brincar com isso. Ele poderia ter discordado, me criticado. Mas sugerir que eu me mudasse do Rio foi infantil — criticou Caio.

Tensão pré-olímpica
O humor de Paes, que parece estar sofrendo de tensão pré-olímpica, começou a azedar quando um flamenguista o acusou de prejudicar o clube rubronegro por ser vascaíno. Provocado também pelo internauta Matheus Esperon, que citou o relatório do TCU sobre as Olimpíadas dizendo que serão necessários R$ 100 milhões por ano só pra manter os parques da Barra e Deodoro, Paes respondeu de maneira informal: “Sei lá, pô. O TCU ñ fiscaliza quase nada da prefeitura. Pouca grana federal. Bem q eu queria”. Matheus reclamou da resposta de Paes: — “Pô, sei lá”? Isso é declaração de um prefeito para responder sobre um relatório do TCU?

A outro internauta, que também o criticava, Paes mandou um recado: “Deixa de ser mal- humorado, pô. Toma um chopp, joga uma pelada, dorme cedo, vai à igreja, dá uma namorada. Domingo pode”.

Além disso, em entrevista à AFP, Paes afirmou que, após a Olimpíada, vai para Madureira beber todas.

Especialista em dar suporte psicológico a atletas, a psicóloga Kátia Rúbio explicou que a tensão pré-olímpica é um estado bastante comum entre competidores. Indagada se esse seria o diagnóstico do prefeito, respondeu.

— Eu entendo de atletas. Não entendo nada de prefeitos — concluiu, rindo.

Procurado, Paes não quis falar.

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