quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Procura-se entusiasmo - Maria Cristina Fernandes

- Valor Econômico

• Desinteresse nas maiores capitais aumenta indefinição

Em oito das dez maiores cidades do país caiu o interesse pela eleição municipal. Este desinteresse aumenta a indefinição, torna as disputas mais imprevisíveis e transforma a edição de primeira página numa função de alto risco.

O Ibope começou a medir o grau de interesse do eleitor na disputa de 2012. Naquele ano esse colégio eleitoral das dez mais encontrou, em média, dois em cada dez eleitores completamente desconectados do resultado das urnas. Quatro anos depois, o desinteresse já ultrapassa a média de um quarto dos eleitores.

Disputas locais em cidades grandes sempre mobilizam menos. Uma explicação para isso é que as políticas públicas municipais afetam mais desigualmente a população do que aquelas conduzidas a partir do Palácio do Planalto. Enquanto a inflação afeta a todos, os postos de saúde não são percebidos da mesma maneira nem mesmo pela população que os utiliza.

O que há de mais grave nas planilhas do Ibope é que a fatia da população com menos interesse na campanha é justamente aquela que mais depende das políticas públicas municipais de educação, saúde e transporte. Mulheres de baixa instrução e com renda de até um salário mínimo são as que menos estão ligadas nas urnas. Em São Paulo e em Belo Horizonte mais de um terço dos muito pobres não está nem aí. No Recife, o desinteresse daqueles que vivem com salário mínimo é o dobro daquele registrado entre os que têm renda cinco vezes maior.

Se confirmarem o alto grau de abstenção, votos em branco e nulos nas regiões mais desprovidas das grandes cidades as urnas de domingo funcionarão como a prévia de um país, como muitos desejam, sem voto obrigatório. A decorrência natural do alheamento dos mais pobres do processo eleitoral seria a escassez de políticas públicas a eles direcionadas num processo em que seria difícil identificar quem veio primeiro.

No Rio, que há apenas um mês teve suas belezas cantadas em verso e prosa para uma plateia global, 45% dos desvalidos estão na turma do não-tô-nem-aí, a maior fatia entre as metrópoles. Em 2012, quando a cidade ainda vivia a expectativa da Copa, da Olimpíada e de suas unidades pacificadoras, o desinteresse já era maior que a de outras grandes cidades. Quatro anos depois, cresceu bem mais que a média. Em grande parte porque os R$ 3,80 para acessar o BRT que ficou de herança oneram a vida de quem, sem as oportunidades da era dos espetáculos, se sustenta com um salário mínimo.

O interesse caiu na proporção inversa do acirramento da disputa. No lugar de folgada reeleição do prefeito Eduardo Paes, a capital fluminense tem uma embolada disputa de quatro candidatos pela segunda vaga ao segundo turno. Se é que dá para confiar em pesquisas numa disputa com tamanho grau de alheamento. Dois dos mais experientes especialistas do país, com longa estrada no aconselhamento de presidentes, estão com as barbas de molho.


Marcos Coimbra vê as pesquisas na pior fase desde a redemocratização. Tabula questionários do Brasil inteiro e em lugar algum se sente à vontade para cravar resultado. Antonio Lavareda também tem se acautelado com o prognóstico de planilha. Mantém-se fiel à regra dos manuais que relaciona baixo interesse à alta volatilidade das intenções de voto.

A convergência quase se esgota no diagnóstico de que a conjuntura pautada pela escandalogia contribui para o alheamento. No mais, veem causas e consequências distintas para o fenômeno. O diretor do Vox Populi atribui o desinteresse ao pouco volume de campanha encurtada em que os candidatos têm mais exposição pelos telejornais e pelos debates do que pela propaganda eleitoral gratuita. O diretor da MCI tem uma avaliação oposta. Como o tempo somado dos comerciais, dos quais o eleitor dificilmente consegue se desvencilhar, passou de 30 para 70 minutos por dia, o desinteresse seria um sintoma do rechaço à mensagem dos candidatos.

As saídas também não poderiam ser mais distintas. Coimbra vê uma volta ao passado na política do aperto de mão, caminhadas, visitas a entidades. Diz que a internet só beneficia o candidato que vem de fora do sistema político, como o dirigente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil (PHS), de Belo Horizonte, que visitou um hospital de madrugada e fez vídeo que, 24 horas depois, tinha sido visto por 600 pessoas. Não acredita que se manterão regras como a do financiamento que empobreceram o marketing eleitoral.

Integrante do grupo montado pelo presidente do TSE, Gilmar Mendes, para discutir legislação eleitoral, Lavareda desacredita de mudanças nesse quesito. Acha que não haverá clima no Congresso para restaurar um financiamento empresarial que a Lava-Jato diz ser, em grande parte, público. Cita o guru das campanhas eleitorais americanas, Paul Lazarsfeld, para apostar na diferença que militantes podem fazer nesta conjuntura de tanto desinteresse: "Nada produz mais voto que o entusiasmo".

Em São Paulo, aqueles que ainda não sabem a quem escolher, dizem que vão optar pelo voto em branco ou pretendem anulá-lo somam 39% dos eleitores. Em Belo Horizonte vão a 41% e, no Rio chegam a 47%. É o que mostram as espontâneas do Ibope, aquelas que mais guardam semelhança com a cabine, por não apresentarem a lista de candidatos ao eleitor. Sugerem um amplo mercado para o militante entusiasmado. Quem encontrá-lo ganhará um passaporte para o segundo turno.

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