quarta-feira, 26 de outubro de 2016

BC ainda não vê espaço para corte maior nos juros – Editorial / Valor Econômico

O Banco Central não vê no momento espaço para mais do que uma "flexibilização gradual e moderada" da política monetária. Pela ata da reunião mais recente do Comitê de Política Monetária, divulgada ontem, o BC perseguirá a meta em 2017 e 2018 e não vê "incompatibilidade entre os dois objetivos", ressaltando, se ainda fosse necessário, que 4,5% é seu alvo em ambos. O recuo da inflação de serviços fez uma pausa recente e as incertezas sobre seu ritmo no futuro é o principal fator que motiva a cautela da autoridade monetária. A trajetória do ajuste fiscal, que, para o Copom, traz riscos e oportunidades, é o fator coadjuvante que ditará a aceleração ou não do ritmo de distensão monetária iniciado com a queda da taxa Selic para 14%.

A maior recessão da história e uma taxa de juros extravagante para os padrões globais estão desinflando os preços, mas a inflação está longe de uma queda livre. Um bom percurso já foi feito: os preços avançaram 10,67% em 2015 e devem fechar 2016 um pouco abaixo dos 7%, com uma queda de mais de 350 pontos percentuais. Não é seguro que façam o trajeto adicional de algo como 250 pontos percentuais até os 4,5%, porque a inflação ficou muito tempo longe da meta e isso reforçou os mecanismos inerciais. A dúvida do BC ao olhar o comportamento dos serviços é de saber até que ponto esses mecanismos de inércia estão cedendo como é necessário para a consecução da meta. "A pausa se dá em níveis cuja manutenção produziria trajetória de desinflação em velocidade aquém da contemplada no cenário básico do Copom", registra a ata.

Outros progressos, porém, permitiram que o BC iniciasse o ciclo de redução de juros. O Copom constatou que não há "evidências" de efeitos secundários do choque dos preços dos alimentos nos demais preços da economia, uma das razões básicas para a manutenção do perto monetário. Há elevada capacidade ociosa e a "distensão" no mercado de trabalho e desaceleração significativa da economia podem abrir espaço a uma desinflação mais rápida. O cenário externo continua em seu "interregno benigno", até que o Fed decida por novo aumento de juros.

Os modelos do Banco Central projetam uma inflação de 4,3% em 2017 e 3,9% em 2018, com a manutenção da Selic em 14,25% e o câmbio em R$ 3,20. Havia assim alguma folga para a "flexibilização gradual e moderada", que deverá ser temperada, no entanto, pelas projeções do mercado, que para o BC "sugerem limites para essa flexibilização". Analistas financeiros vinham apostando em novos cortes de 0,5 ponto já em novembro, mas a média de suas projeções colocaram a inflação acima da meta em 2017 e 2018 - 4,9% e 4,7%, respectivamente. A ata do Copom obrigou-os a um ajuste de taxas ontem. A maior probabilidade agora é de um novo corte de 0,25 ponto percentual para novembro.

O BC avaliou o possível comportamento dos preços administrados e viu três indícios positivos. Um, a mudança na política de preços dos combustíveis. Os demais: redução mais forte nos preços da energia elétrica em algumas regiões e possibilidade de adiamento de reajuste das tarifas de transporte coletivo em algumas cidades. No sentido contrário, há o risco de aumento maior na energia decorrente de eventual mudança na bandeira tarifária.

O ajuste fiscal, no curto prazo, pode dar um alento baixista aos juros. A aprovação do aperto fiscal, via PEC 241, segundo o BC, "tem excedido as expectativas". O Senado deve começar a votar o texto na última semana de novembro e fazê-lo novamente em meados de dezembro. Mas o BC só vê a batalha como decidida ao fim de um processo longo e incerto. Seus efeitos sobre a inflação "dependem não somente do impacto de medidas de curto prazo sobre a demanda agregada, mas também da percepção de melhora da dinâmica das contas públicas no médio e longo prazos".

Como a forma escolhida para o ajuste é gradual por sua natureza, e depende de reformas difíceis, como a da Previdência, a cautela do BC terá de ser exercida em um horizonte mais longo. O jogo estará dado para 2017 com a aprovação do Orçamento, que considera os parâmetros da PEC 241. Por isso, o decisivo de fato será a intensidade das próximas quedas do IPCA e a dinâmica dos preços dos serviços. Hoje, o BC fará o que diz na ata, que é conservadora. Mas ela abre espaço para mais audácia nos próximos meses, se não houver más surpresas.

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