sexta-feira, 28 de outubro de 2016

PT deve perder único 2º turno que disputa em capitais

Por Marina Falcão - Valor Econômico

RECIFE - A provável vitória do prefeito Geraldo Julio (PSB) sobre o ex-prefeito João Paulo (PT) no Recife deve deixar o PT como grande derrotado das eleições municipais de 2016. Com o abatimento moral da figura do ex-presidente Lula, indiciado na Lava-Jato, o candidato petista driblou como pôde o debate nacional no segundo turno, mas não conseguiu se livrar da fadiga eleitoral da marca PT.
Único petista a disputar o segundo turno das eleições em uma capital e dono de um ativo político próprio construído ao longo de dois mandatos na Prefeitura do Recife (2011 a 2008), João Paulo travou uma disputa focada na discussão dos problemas estruturais e sociais da cidade.

Diferentemente do que ocorreu no primeiro turno, o ex-presidente Lula não pisou no seu estado natal para dar apoio ao petista na segunda fase da disputa. "Colocar Lula em um palanque hoje dá mais prejuízo do que benefício", diz Thales Castro, cientista político da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e da Faculdade Damas. Ele destaca a esmagadora derrota que a candidata do PT Olinda, Teresa Leitão, que calcou sua campanha na imagem de Lula.

João Paulo tem dito que a ausência de Lula se dá pela dedicação integral que o presidente tem dado a sua defesa na Justiça. Nos bastidores, um assessor da campanha do petista complementa que Lula está "low profile" para que seu nome fique menos em evidência no momento agudo das acusações.

Embora venha de duas amargas derrotas eleitorais, João Paulo foi o único nome que conseguiu reunir consenso dentro do diretório local para a disputa no Recife. Dois anos atrás, o petista perdeu a vaga no senado para Fernando Bezerra Coelho (PSB), em uma eleição marcada pela comoção em torno na morte do ex-governador Eduardo Campos, falecido em acidente aéreo em Santos. Em 2012, o PT perdeu a eleição para prefeito no Recife com a chapa liderada pelo atual senador Humberto Costa (PT), que trazia João Paulo como vice.

No domingo, o prefeito Geraldo Julio vai para votação com uma vantagem que lhe confere relativa tranquilidade. Segundo o Datafolha, Julio tem 50% das intenções de votos, enquanto João Paulo tem 34%.

Na opinião de Castro, não é possível minimizar os méritos do PSB no pleito municipal, ainda que o partido esteja lidando com um adversário em auto-combustão. "Ao que parece, Júlio aprendeu rapidamente as engrenagens da política e fez uma gestão bem-avaliada pela população", pontua Castro.

Recorrendo a imagem de Campos apenas em raras ocasiões, Júlio adotou um discurso de valorização exaustiva de três principais obras da sua gestão: a conclusão da Via Mangue, um corredor viário, a construção do Compaz, um centro de cidadania, e do Hospital da Mulher. Na tentativa se mostrar um gestor independente do seu padrinho político, o pessebista assumiu o comando da campanha e substituiu a tradicional marca "É 40" - com a inicial do nome de Campos - pela marca "G40".


O PSB tinha a expectativa de arrematar a reeleição no primeiro turno, o que não ocorreu, de fato, por muito pouco - Julio teve 49,3% dos votos. Na segunda etapa da eleição, nenhum fato novo surgiu para que houvesse uma reviravolta a favor do PT. Com o PSB no foco das investigações da Operação Turbulência, que apura financiamento ilegal das campanhas do partido, e o PT no centro da Lava-Jato, grandes polêmicas e escândalos ficaram fora de um debate político que não saiu da temperatura morna em nenhum momento.

Nas últimas semanas, consolidou-se o que já parecia óbvio após os resultados do primeiro turno. O PSB deve herdar a maior parte dos votos dados aos candidatos Daniel Coelho (PSDB) e Priscila Krause (DEM), terceiro e quarto colocados na disputa. Os números do Datafolha estimam que o prefeito receberá 43% dos votos do candidato tucano no primeiro turno, enquanto João Paulo absorverá 30%. O pessebista também será beneficiado com a maior parcela (59%) dos votos conferidos à candidata democrata. João Paulo, por sua vez, teria 23% dos votos da candidata.

Após duras críticas a gestão do PSB, Coelho e Priscila não subiram no palanque de Júlio, mas seus partidos declararam apoio oficial à reeleição do atual prefeito, em um ato antipetista.

Concretizada a derrota de João Paulo, o PT sai das eleições exaurido no Nordeste. De acordo com levantamento do Valor Data, o partido elegeu 113 prefeitos no primeiro turno, 72 a menos do que em 2012, uma queda de 39%. Diante disso, o partido, que era o quarto em número de prefeitos em 2012 (atrás de PMDB, PSB e PSD), com 10,3% de todos os prefeitos eleitos, agora é o sétimo (atrás de PMDB, PSD, PSB, PSDB, PP e PDT), com 6,3%.

Entre os oito maiores partidos na região, o que mais cresceu foi o PSDB, que avançou 21% em número de prefeitos e agora está quarta colocação no ranking de prefeituras no Nordeste, com fatia de 8,37% do total.

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