domingo, 20 de novembro de 2016

Esquerdas e corrupção - Celso Ming

- O Estado de S. Paulo

• Movimentos que se dizem de esquerda e, portanto, pretendem que sejam identificados com os interesses do povo, estão miseravelmente omissos e silenciosos

No Congresso está em curso ladina e persistente operação abafa destinada a aprovar leis que livrem a cara dos políticos corruptos.

Não é à toa que essa iniciativa parta de campeões nacionais do caixa 2 e de propinas de todo tipo. No entanto, os movimentos que se dizem de esquerda e, portanto, pretendem que sejam identificados com os interesses do povo, estão miseravelmente omissos e silenciosos ou, talvez, até mesmo engajados nesse projeto, como se a luta contra a corrupção não fosse aspiração popular nem bandeira das esquerdas.

O PT, por exemplo, que nasceu comprometido com a ética na política, não sabe de que lado está e se afunda em contradições. Em agosto, quando se defendia contra o impeachment, a presidente Dilma garantia que “é fundamental a continuidade da luta contra a corrupção”. É o que está registrado, preto no branco, na Mensagem ao Senado Federal e ao Povo Brasileiro. Mas foi a própria Dilma que, em junho de 2015, afirmou que “não respeita delator”, querendo com isso desclassificar investigações da Justiça. Convém relembrar que foi a caneta da presidente Dilma que sancionou a lei que criou o estatuto da delação premiada que, afinal, se tornou um dos principais instrumentos que desvendaram a enorme rede de corrupção no País.

Além de insistir em que a operação Lava Jato é arbitrária e seletiva, o presidente Lula tudo vem fazendo para sabotar o trabalho do juiz Sérgio Moro. Recorreu contra ele na ONU, acusando-o de abuso de poder, parcialidade e violação de direitos. Agora, seus advogados tentam desmoralizá-lo, apontando-o no Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas como “juiz de uma república de bananas”.

Certas esquerdas do Brasil não reconhecem os valores republicanos. Aferradas a dogmas destituídos de sentido, continuam encarando as instituições democráticas como instrumentos da burguesia usados para expropriar renda dos trabalhadores e perpetuar a dominação de classe. Gente que pensa assim segue justificando a tomada das repartições do Estado e a apropriação de recursos públicos como inevitáveis operações de expropriação da burguesia. Essa enganação já não cola porque a companheirada sempre acaba desviando para benefício próprio os recursos supostamente tomados para financiamento da “causa”.

A novidade é a de que os valores da população brasileira começam a mudar. Ela já não enxerga a corrupção com a mesma indiferença do passado ou como relativamente inócua desde que não atrapalhe os projetos de seu interesse - dentro do princípio do “rouba, mas faz”. Começa a vê-la como lesiva a suas necessidades. Entende que os cortes de salários ou os aumentos de contribuição dos funcionários para a previdência não podem compensar os desmandos de governos corruptos que desviaram dinheiro em proveito próprio. Ou, então, que os serviços públicos de saúde, de educação e de segurança viraram a calamidade mostrada todos os dias pelo noticiário da TV porque tem muita gente metendo a mão nos recursos do povo.

Quem deixa corromper ou deixa rolar processos de anistia a corruptos faz parte do mesmo esquema, não importa de que lado do espectro ideológico se considere.

Turma da pesada
Quem imaginou que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, reveria as posições radicais manifestadas na campanha começa a se decepcionar com as primeiras indicações para cargos-chave do governo.

Xenofobia
O senador republicano Jeff Sessions, convidado para a Secretaria da Justiça, é conhecido pelas suas posições racistas e xenófobas. O novo estrategista-chefe de governo, Steve Bannon, notabiliza-se pela defesa de políticas nacionalistas de extrema direita. E o futuro diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), o deputado republicano Mike Pompeo, é ardoroso crítico do acordo dos Estados Unidos com o Irã.

E o embargo?
Pompeo é mais um reforço em favor da denúncia do acordo. Pergunta inevitável: se é para revogar o acordo, por acaso o governo Trump estará disposto a restabelecer o embargo comercial contra o Irã?

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