domingo, 13 de novembro de 2016

Partidos de esquerda não se entendem sobre frente eleitoral

• Principal divergência é nome do candidato a presidente em 2018

Fernanda Krakovics - O Globo

Partidos de esquerda discutem a transformação da Frente Brasil Popular, criada durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e composta também por movimentos sociais e centrais sindicais, em uma frente eleitoral para as eleições de 2018. O principal empecilho é definir um nome de consenso para disputar a presidência da República.

Integrantes da corrente majoritária do PT, a Construindo um Novo Brasil (CNB), dizem que o nome natural é o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo com as investigações da operação Lava-Jato. Já o PDT não abre mão da candidatura do ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes. Principal liderança da esquerda petista, o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro propõe a realização de prévias.

— Se o Lula se coloca como candidato, é difícil aceitar outro nome — disse o ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner (PT).

Em pesquisa Datafolha divulgada em julho, Lula liderava simulações de primeiro turno da eleição presidencial de 2018. O petista não garantia, no entanto, a vitória em um eventual segundo turno e poderia ser derrotado pela ex-senadora Marina Silva (Rede) ou pelo ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB).

Segundo o presidente do PDT, Carlos Lupi, a discussão sobre a formação de uma frente ainda é embrionária.

— A premissa básica é a candidatura do Ciro — disse Lupi.

Para o presidente da Central Única dos Trabalhadores no Rio (CUT-RJ), Marcelo Rodrigues, vencida a etapa de formação da frente e de construção de um projeto, o nome surgirá naturalmente:

— Uma frente prevê essas dificuldades, mas acho que há amadurecimento suficiente hoje das lideranças da esquerda para superar vaidades. Fundamental é termos um projeto unitário na esquerda.

O PT, o PDT e o PCdoB tentam convencer o PSOL a se integrar ao projeto. Apesar de ter feito oposição aos governos Lula e Dilma, o partido foi contra o impeachment da petista e, assim, acabou se aproximando dos demais. Uma das dificuldades para uma unidade formal, porém, é que o PSOL surgiu de uma dissidência do PT.

— A possibilidade existe na exata medida que conseguirmos construir uma pauta comum mínima, desde já, em relação a reformas do modelo econômico, tributário, político. E na medida também que 2018, isto é, o fato eleitoral nacional, não esteja colocado. Seria colocar o carro na frente dos bois — disse o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que cobra ainda uma autocrítica do PT.

Além da definição da candidatura presidencial, há divergência quanto ao formato da “frente ampla”. Petistas negam que essa seja uma saída para esconder o PT, desgastado por escândalos de corrupção, depois do mau desempenho nas eleições municipais deste ano. Eles propõem que a frente mantenha a autonomia dos partidos, funcionando como uma coalizão.

Outros entusiastas, no entanto, preferem que a frente seja registrada como uma federação de partidos, com um nome único. A eventual aprovação da cláusula de desempenho, em discussão no Congresso, facilitaria esse formato.

— A frente é uma necessidade de luta, não é um biombo para esconder o PT. A esquerda está fragilizada. Ou ela se une em uma luta comum ou vai facilitar o trabalho dos adversários. E o PT precisa rever muitas de suas posições, a sociedade aguarda uma autocrítica — afirmou o ex-ministro Roberto Amaral, que deixou o PSB e está sem partido.

A autocrítica cobrada por ele e por integrantes da esquerda do próprio PT diz respeito ao fato de os governos Lula e Dilma não terem feito “reformas de base”, como a tributária, taxando os mais ricos, e a política, além do controle da mídia.

Citada como ponto de partida para uma frente eleitoral, a Frente Brasil Popular foi responsável pelas principais mobilizações de rua contra o impeachment. Fazem parte dela organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a CUT e a União Nacional dos Estudantes (UNE). A formação da frente tem feito parte das discussões internas do PT sobre os rumos do partido, que diverge até sobre a definição do caminho a seguir: “refundação”, “reconstrução” ou “renovação”.

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