segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Receita das empresas cai e mostra crise persistente

Por Juliana Machado - Valor Econômico

SÃO PAULO - No terceiro trimestre, pela primeira vez em mais de quatro anos, a receita líquida de 278 empresas de capital aberto no país apresentou queda nominal, de 3%, na comparação com o mesmo período de 2015, para R$ 335,3 bilhões, devido à combinação de fatores negativos como desemprego, juros e inflação altos e riscos no cenário externo. Somada a inflação, a queda real da receita passa dos 10%.

O levantamento feito pelo Valor Data exclui Petrobras e Eletrobras, que com baixas contábeis gigantescas distorcem os dados. Com as duas estatais, a queda na receita chega a 5%.

Neste cenário, as companhias precisaram fazer uma série de ajustes para driblar as dificuldades macroeconômicas. Com cortes de custos, redução de investimentos e racionalização de gastos, elas conseguiram, apesar da queda na receita, registrar crescimento de 7,3% no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) e de 17,4% no lucro antes de juros e impostos, com alguma recomposição de margens.

Além disso, efeitos financeiros positivos, com o impacto da desvalorização do dólar sobre a dívida, colaboraram com os resultados das empresas no trimestre. Embora as companhias ainda tenham apresentado despesas financeiras líquidas, no total de R$ 23,1 bilhões, o montante representa uma queda de 60% em comparação com as perdas nessa linha no ano anterior.

Com a combinação mais favorável dos resultados operacional e financeiro, o grupo analisado conseguiu reverter um prejuízo de R$ 4 bilhões registrado no terceiro trimestre de 2015 para um lucro de R$ 15,7 bilhões.

Por setores, o lado positivo foi marcada pelos balanços das siderúrgicas, como a Gerdau, que saiu de prejuízo para um lucro de R$ 91,9 milhões, além de petroquímicas, com a Braskem na liderança, e companhias aéreas. Na outra ponta, as construtoras foram o destaque negativo, com o prejuízo crescendo dez vezes, para R$ 2,1 bilhões, com o aumento dos distratos e retração nas vendas.

"Foram as expectativas que melhoraram desde o começo deste ano, não os balanços. E a grande questão é a demora cada vez mais marcada para recuperação da economia", diz o analista Carlos Sequeira, do BTG Pactual.

Faturamento cai pela primeira vez desde 2012
A previsão de que os balanços das empresas começariam a refletir em breve a possível retomada da economia não passou disso: uma expectativa. De julho a setembro, pela primeira vez em mais de quatro anos, a receita líquida de 278 empresas de capital aberto apresentou queda nominal de 3% na comparação com o mesmo período do ano passado, para R$ 335,3 bilhões, diante da combinação de fatores venenosos para os negócios: desemprego, juros e inflação altos e riscos no cenário externo. Se acrescentada a inflação, a queda real da receita passaria de 10%.

Os números desconsideram Eletrobras e Petrobras que, com baixas contábeis gigantescas no trimestre, distorcem os dados. Mesmo com as duas estatais, porém, a queda na receita permanece - de 5%, também em base anual. O levantamento é do Valor Data, considerando uma base de dados comparáveis desde o primeiro trimestre de 2012.


Por 18 trimestres seguidos, as empresas entregaram crescimento nessa linha, ainda que ela fosse insuficiente para cobrir a inflação. No ano, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador de inflação no país, já acumula alta de 5,78%. Em 12 meses, o avanço é de 7,87%, segundo as informações mais recentes, de outubro.

"Não esperamos mais atingir a meta de estabilidade na receita líquida no Brasil neste ano", afirmou a fabricante de bebidas Ambev, que passou a projetar queda nessa linha. "No curto prazo, a confiança do consumidor está melhorando e a inflação, desacelerando, porém é esperado que o ambiente de consumo no Brasil permaneça difícil no quarto trimestre."

Na sexta-feira, o Credit Suisse reduziu o preço-alvo para as ações da Ambev de R$ 21 para R$ 20, motivado pelo resultado abaixo do esperado no trimestre. A Ambev saiu de uma previsão de crescimento de um dígito simples na receita no início do ano para uma previsão de estabilidade no meio de 2016 e agora espera queda na receita.

Nesse cenário, as companhias precisaram fazer uma série de esforços para tentar driblar a persistência das dificuldades macroeconômicas. Assim, com cortes de custos, redução de investimentos e racionalização de gastos, elas foram capazes de, apesar da queda da receita, entregar um crescimento de 7,3% no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) e de 17,4% no lucro antes juros e impostos, com alguma recomposição de margens.

A administradora de shoppings centers Iguatemi foi uma das que fizeram controle de custos e despesas de tal forma que, em 2017, não vê mais espaço para melhoras nessas linhas na mesma intensidade. A companhia conseguiu redução significativa em cargos de gestão devido ao enxugamento de projetos e redução de funcionários, que ajudaram a diminuir as despesas administrativas em 23% em base anual.

Além disso, efeitos financeiros positivos, com o impacto da desvalorização do dólar sobre a dívida, colaboraram com os resultados das empresas no trimestre. Embora as companhias ainda tenham apresentado despesas financeiras líquidas, no total de R$ 23,1 bilhões, o montante representa recuo de 60% sobre as perdas dessa linha no ano anterior.

"Com o real mais forte, a dívida 'dolarizada' das empresas fica menor. É nas despesas financeiras que esse efeito aparece", explica o analista Carlos Sequeira, do BTG Pactual. A queda do dólar frente ao real ao fim do trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, foi de 18,3%, para R$ 3,25.

Com a combinação mais favorável dos resultados operacional e financeiro, as 278 empresas analisadas conseguiram reverter o prejuízo conjunto de R$ 4 bilhões registrado no terceiro trimestre de 2015 para um lucro combinado de R$ 15,7 bilhões agora, mesmo com o desempenho amargo da primeira linha do balanço.

Segundo Sequeira, a receita foi o principal ponto negativo do trimestre, mas não chegou a causar surpresa- o BTG era uma das casas que previam recuo do indicador de julho a setembro, de 3,9%.

"Não há dúvida de que vemos um reflexo do estado da economia, com uma recessão [queda do Produto Interno Bruto] que neste ano deve ficar em 3,3%", diz. "Foram as expectativas que melhoraram desde o começo deste ano, não os balanços. E a grande questão é a velocidade, com uma demora cada vez mais marcada de recuperação da economia."

Para o Santander, os resultados continuaram fracos neste terceiro trimestre. "Dos setores que acompanhamos, 74% registraram crescimento de receita abaixo da inflação nos últimos 12 meses", afirma o banco em relatório a clientes. Em relação ao lucro, 65% dos segmentos tiveram expansão menor que o avanço de preços da economia.

Na abertura por setores, a ponta positiva foi marcada pelos balanços das siderúrgicas, como a Gerdau, que saiu de um prejuízo para um lucro de R$ 91,9 milhões, além de petroquímicas, com Braskem na liderança, e companhias aéreas.

Do outro lado, as construtoras foram o destaque negativo do trimestre, com prejuízo conjunto crescendo dez vezes, para R$ 2,1 bilhões, diante do aumento dos distratos e recuo das vendas.

Além disso, segundo Paulo Nogueira Gomes, economista-chefe e estrategista da Azimut Brasil Wealth Management, dois grandes expoentes frustraram o mercado: a Petrobras, com o terceiro maior prejuízo de sua história, de R$ 16,5 bilhões, após baixas contábeis por petróleo e câmbio; e a Ambev, cuja receita líquida caiu 2,4%, para R$ 10,48 bilhões.

"As empresas fizeram mais esforços para reduzir custos. Mesmo assim, elas estão mais magras, diante da baixa demanda doméstica e do dólar médio menor no trimestre, que fez com que as exportadoras também sofressem", diz.

Para o futuro, analistas apostam que a lentidão da recuperação econômica faça do quarto trimestre mais um período de dificuldades para as empresas, que devem seguir com a estratégia de enxugar seu tamanho para não corroer a qualidade das demonstrações financeiras.

"O alívio que o câmbio deu sobre a dívida não deve se repetir, inclusive por novos riscos que foram adicionados ao cenário, como a eleição de Donald Trump [à presidência dos Estados Unidos]", diz Paulo Gomes, da Azimuth. "Minha leitura é cautelosa para o ano que vem, porque precisaremos aguardar os desdobramentos econômicos lá fora e também no Brasil."

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