terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A política de sempre - Merval Pereira

- O Globo

Tivemos de tudo no dia em que prefeitos e vereadores de mais de 5 mil municípios tomaram posse para novos mandatos. A crise falou mais alto, e vários prefeitos reduziram o secretariado, cortaram despesas, a ordem de não gastar prevaleceu, inclusive nas duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Mas a velha política teima em não nos abandonar.

Brigas de soco em Catanduva e cadeiradas diversas em várias cidades. Prefeitos de Ipatinga (MG), Timóteo (MG) e Tianguá (CE) assumiram mandatos com base em liminar polêmica do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, que suspendeu uma decisão também polêmica da Justiça Eleitoral.

Os três tiveram o registro negado porque foram condenados antes de vigorar a Lei da Ficha Limpa, de 2010. Na época, a condenação implicava inelegibilidade pelo prazo de três anos. Depois da Lei da Ficha Limpa, o prazo mudou para oito anos, e o TSE decidiu que a pena retroagiria. Como o Supremo ainda não se definiu sobre o caso, Gilmar Mendes sustentou a liminar no seu entendimento, que fora voto vencido.

O prefeito de Osasco Lins chegou diretamente de Miami, onde estava foragido, para tomar posse, depois de para pagar R$ 300 mil de fiança. Como seu patrimônio declarado à Justiça Eleitoral é de pouco mais de R$ 250 mil, ele justificou o pagamento da fiança dizendo que tomou um empréstimo bancário, que vai além de seu mandato de quatro anos.

Preso no fim de dezembro, no âmbito da Operação Caça-Fantasmas, que investiga um esquema de fraudes envolvendo a contratação de funcionários fantasmas na Câmara da cidade, ele agora, como os demais, está protegido pelo foro privilegiado. Assim como o ex-ministro petista Edinho Silva, que se elegeu prefeito de Araraquara mesmo sendo investigado pela Operação Lava Jato pela acusação do empreiteiro da UTC Ricardo Pessoa de tê-lo pressionado para que doasse para a campanha presidencial de Dilma Rousseff.

São casos pontuais que se espalham pelo país, mas nas duas maiores cidades, São Paulo e Rio de Janeiro, tivemos também exemplos de como a campanha eleitoral pode levar a estelionatos eleitorais de diversos níveis. O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivela, ficava irritado sempre que era chamado de bispo da Igreja Universal, ou de pastor.

Dizia que era um senador licenciado da Igreja, e tentava esconder seu parentesco com o líder evangélico, bispo Edir Macedo, que é seu tio. Pois no discurso de posse ele despiu-se da laicidade que usou durante a campanha para declarar-se "pastor", fazer uma homenagem explícita a Macedo, definir-se a favor da família formada "por um homem e uma mulher", tudo de uma vez só, de cambulhada, dando graças a Deus nada menos que sete vezes.

Já em São Paulo, o prefeito João Dória, que se vendeu durante a campanha como um gestor apolítico, fantasiou-se, e a seus assessores, de gari e foi limpar ruas que anteriormente já haviam sido vistoriadas pelos verdadeiros profissionais da limpeza pública.

O gestor moderno retrocedeu alguns anos para igualar-se a políticos populistas como Jânio Quadros no primeiro dia do que prometia ser uma gestão pública modernizadora. É claro que tanto ele quanto Crivela têm quatro anos pela frente para mostrarem que o primeiro dia não será o modelo de todo o mandato, mas bem que é preocupante um começo tão distante do que prometiam.

Fiocruz
O fato de a nomeação para presidência da Fiocruz da pesquisadora Tania Araújo-Jorge, que foi a segunda mais votada, não ter saído no Diário Oficial da União, é um sinal de que talvez o bom-senso tenha prevalecido.

A vencedora da votação interna foi Nísia Trindade, com 2.556 votos em primeira opção (59,7 %) e 534 votos em segunda opção, e todos os setores ligados à Fiocruz, sejam de que tendência política forem, querem que o presidente Michel Temer respeite a eleição e indique a mais votada para o cargo.

Qualquer outra decisão será mais uma trapalhada política, desta vez comandada pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros.

Barbárie
Muito além da barbárie acontecida no presídio de Manaus, onde a guerra entre facções rivais provocou um homicídio em massa com requintes de crueldade, essa situação mostra como o governo está perdendo, se é que já não perdeu, o controle da segurança pública.

A ideia de que essa é uma questão estadual já está superada pelos fatos, e se o governo federal, e as Forças Armadas, não entrarem com tudo no combate a essas facções, o país estará à mercê dessas gangues, cada vez mais fortalecidas pelo tráfico internacional de drogas.

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