sábado, 25 de fevereiro de 2017

Retrato dos defeitos - Míriam Leitão

- O Globo

Nos últimos dois dias o IBGE divulgou retratos do mercado de trabalho e foram tristes fotos. O desemprego vai piorar, é o que dizem os especialistas. Ele está a caminho de 13% nos próximos meses. Pode melhorar no fim do ano. A crise jogou o país no desemprego, e ele tem uma dinâmica com duas perversidades: atinge mais quem é mais vulnerável e demora a ser revertido.

Na quinta-feira, o IBGE divulgou o dado novo, que é mais amplo, e mostra, além dos desempregados, os que estão parados por desalento e os que estão apenas fazendo trabalhos em menor tempo do que gostariam. Esse conceito da subutilização da mão de obra abarca 24 milhões de brasileiros. Quem está em desalento é porque desistiu de procurar emprego ou, às vezes, sequer tem dinheiro para ficar circulando por aí com seu currículo. Este jornal ressaltou ontem outro recorte: o dos 2,3 milhões de pessoas que estão procurando emprego há mais de dois anos. São resistentes, duros na queda, se estão na estatística é porque ainda buscam o emprego fugidio.

Ontem foi o dia da divulgação da taxa que mede o número de pessoas que nos últimos 30 dias procurou emprego e não encontrou. São 12,9 milhões de brasileiros desempregados. Eles encontraram portas fechadas no trimestre de novembro, dezembro e janeiro, 3,3 milhões a mais do que um ano antes. O desemprego é um trem que vai avançando nos seus trilhos e só para de crescer quando chega ao fim da viagem. Quando ele começou a aumentar, o economista José Márcio Camargo disse que chegaria a 13%. Parecia exagero. Ontem, ele voltou a afirmar que chegará a 13% até abril. Já está em 12,6%.

É mais difícil reverter a atual situação porque a economia não tem onde se segurar. Não há investimento aumentando porque os governos estão em dificuldade fiscal em todos os níveis administrativos e porque há um número considerável de empresas endividadas e em dificuldade de crédito, algumas pela recessão, outras porque estão envolvidas em investigações anticorrupção, ou as duas coisas. As famílias não podem aumentar o consumo, apesar de a queda da inflação aliviar o orçamento, porque também têm dívidas.

O sistema bancário brasileiro é outro complicador. Nada justifica que no atual contexto, depois de a Selic ter caído dois pontos percentuais e a taxa de captação ter sido reduzida, os bancos aumentem a taxa de juros. É pior do que não repassar a queda da taxa básica, é aumentar os juros que cobram, no movimento inverso da Selic. Não há explicação técnica, econômica, financeira para tal disparate. Os bancos brasileiros são eficientes em se defender, em proteger seus ativos e patrimônio, em reduzir seus custos, mas têm um comportamento corsário em relação à economia.

A tragédia é maior para quem sempre esteve exposto às desigualdades brasileiras. A taxa de desemprego é grande para todos, mas é maior para pretos e pardos. O desemprego entre pretos é de 14,4%, entre os pardos é de 14,1%. Entre os brancos é de 9,5%. Isso mostra o racismo no mercado de trabalho que sempre esteve presente e que fica pior nos momentos em que os empregos são escassos. 

Há explicações como a diferença de escolaridade ou a crise na construção civil, mas, em um mercado com poucas ofertas de vagas, o empregador escolhe preferencialmente homens brancos. O desemprego é também maior em três pontos percentuais entre as mulheres do que entre homens. É altíssimo em relação aos jovens. Chega a 25% entre os que têm entre 18 e 24 anos. Chega a 39,7% no grupo que tem entre 14 e 17 anos, mas nesse caso mostra outra anomalia. Essas crianças deveriam estar estudando em vez de estar procurando emprego. Se estão na estatística é porque declararam ao pesquisador que procuraram emprego no último mês. São anos de formação e na escola é onde deveriam estar.

A legislação trabalhista protege apenas quem já está no mercado de trabalho. Dá, por exemplo, ao sindicato o poder de ir à Justiça para requerer o reajuste pela inflação dos dois últimos anos. E, como a taxa está em queda, a Justiça acaba concedendo aumento real. Mas não há proteção para os realmente vulneráveis. O nervo exposto da crise é o desemprego, e os números exibem os vários defeitos do Brasil.

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