domingo, 23 de abril de 2017

‘Não será a corrupção que poderá parar esse país’

Temer diz que o Brasil trabalha para melhorar ambiente de negócios

Em entrevista à imprensa espanhola, presidente elogia o trabalho do juiz Sérgio Moro à frente da Lava-Jato, mas lamenta que 24 senadores e 39 deputados estejam sendo alvo de investigações

O presidente Michel Temer afirmou ontem à imprensa espanhola que o Brasil não vai parar por conta do “efeito de atos de corrupção”. Ele admitiu ser “triste” o fato de 60 parlamentares estarem sob a mira de investigação, mas ressaltou que é preciso esperar para ver se os políticos serão ou não condenados, e que o país trabalha para melhorar o ambiente de negócios. Temer disse que Sérgio Moro cumpre “adequadamente” seu papel como membro do Judiciário e evitou falar sobre a Lava-Jato: “Qualquer consideração negativa que eu faça será muito ruim neste momento porque poderá importar na ideia de que se quer acabar com a Lava-Jato.”

‘País não para por delação’

Presidente afirma que atos de corrupção não vão afetar reformas e ação dos investidores

Eduardo Barretto e Catarina Alencastro | O Globo

-BRASÍLIA- Após a divulgação de uma série de delações devastadoras e de pedidos de investigação que atingem oito ministros de seu governo, o presidente Michel Temer afirmou que o país não ficará paralisado pelo “efeito de atos de corrupção”. Temer também disse que o juiz federal Sérgio Moro cumpre seu papel “adequadamente” e admitiu que é “triste” o fato de dezenas de parlamentares estarem sob a mira da Justiça. Depois de colaborações premiadas de 78 exexecutivos da Odebrecht, as investigações da Operação Lava-Jato chegaram ao núcleo do governo e envolveram 63 deputados e senadores. Temer foi citado em dois inquéritos, mas enquanto for presidente tem imunidade temporária por atos cometidos antes do mandato.

— O Brasil não para. Não será a corrupção que poderá paralisar o país — declarou o presidente à TV espanhola TVE ontem, dois dias antes de receber o primeiro-ministro do país, Mariano Rajoy. Temer deu entrevista ainda à agência Efe, também da Espanha.

O peemedebista tem uma agenda de reformas em curso no Congresso, com destaque apara a trabalhista e a da Previdência, e tenta levá-la adiante em meio à crise causada pela Lava-Jato. Desde o último dia 12, dia seguinte à divulgação dos pedidos de abertura de inquérito pelo relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, o ministro Edson Fachin, Temer busca aparentar normalidade, garantindo que o prosseguimento dos trabalhos dos Poderes é um “conceito simples da administração pública”.

Questionado se era triste ver boa parte do Parlamento brasileiro sendo investigada, o presidente concordou:

— Sim, me parece (triste), não posso dizer outra coisa. Mas em relação a essas investigações, tem de se esperar que o Poder Judiciário condene ou absolva essas pessoas.

DISCRETO ELOGIO A MORO
A reportagem da TV espanhola destacou que o escândalo de corrupção que “sacode o Brasil respinga em Temer”, e que a corrupção na política está “laminando a credibilidade do Congresso”.
O juiz Sérgio Moro, que conduz a Lava-Jato na primeira instância judicial, para pessoas sem foro privilegiado e que não exercem cargos públicos, conduz seu papel “adequadamente”, disse Temer, sem se ater a detalhes. Apesar do discreto elogio, Temer afirmou que uma crítica a Moro seria “muito ruim” neste momento.

— (Moro) cumpre o seu papel como membro do Poder Judiciário, como devem fazer todos aqueles que integram o Judiciário. Ele cumpre seu papel adequadamente. Qualquer consideração negativa que eu faça será muito ruim neste momento porque poderá importar na ideia de que se quer acabar com a Lava-Jato — afirmou o peemedebista.

Perguntado se o crime de caixa dois é condição para todo político ser eleito no Brasil, como disse Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira, em delação, Temer rebateu, afirmando conhecer “muitos” políticos que não fizeram caixa dois. O presidente também enfatizou que a construtora era “produtora” dos pagamentos a políticos não declarados oficialmente.

— É uma opinião da Odebrecht. A Odebrecht é que acha que todos os políticos se serviram do caixa dois. Aliás, ao assim se manifestarem, dizem que eles são os produtores do caixa dois — disse Temer à Efe.

Como costuma fazer, Temer não poupou os governos petistas, mesmo sem citar nomes. O presidente falou do “desastre” causado pelo “populismo” no “passado”. Temer foi vice-presidente da ex-presidente Dilma Rousseff por cinco anos. Em vinte dias, completa-se um ano que Dilma foi afastada e Temer assumiu, ainda interinamente, o Planalto.

Temer voltou a chamar uma crise do governo, desta vez a causada pela lista de Fachin, de “acidente”. Ele defendeu que investimentos estrangeiros no Brasil não serão afetados, pois os empresários “sabem” que o país toma medidas “necessárias” para melhorar o ambiente de negócios. Além de minimizar a instabilidade política com a Lava-Jato, Temer também procurou reduzir o impacto das delações. Fachin autorizou investigações para oito ministros e 63 parlamentares, como consequência de delações de 78 ex-executivos da Odebrecht.

— Não há nenhuma preocupação, percebo eu, das empresas em geral, dos investidores estrangeiros e mesmo dos investidores nacionais em relação a esse assunto. Do tipo: o Brasil não vai parar porque houve um acidente desta ou daquela natureza, uma delação de alguém. Isso não significa paralisação dos trabalhos legislativos e nem do governo.

Em janeiro, o presidente foi criticado por denominar de “acidente pavoroso” o massacre no presídio de Manaus, com 60 assassinatos brutais. Depois, manteve posição e publicou no Twitter sinônimos da palavra, justificando-se. Naquele mês, haveria mais 70 mortes bárbaras em prisões de Roraima e Rio Grande do Norte.

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