terça-feira, 16 de maio de 2017

A hora e a vez de Antonio Palocci | Raymundo Costa


- Valor Econômico

Santana era uma espécie de ministro sem pasta de Dilma

Os depoimentos de João Santana e Mônica Moura atingiram mais Dilma Rousseff, o que é natural, uma vez que a convivência do casal foi mais prolongada e íntima com a ex-presidente da República. O PT, no entanto, entende que agora é que vem muito chumbo grosso contra Lula, sobretudo a partir da delação do ex-ministro Antonio Palocci, talvez não o último, mas um elo fundamental entre o ex-presidente e as empreiteiras, segundo as delações divulgadas.

Não há expectativa de que Palocci possa desistir da anunciada delação. O criminalista José Roberto Batocchio, defensor do ex-ministro, já redigiu e está enviando para Curitiba os documentos relativos ao sub-estabelecimento da causa. Nem mesmo a possibilidade de o Supremo Tribunal Federal (STF) mandar soltar o ex-ministro anima os militantes petistas.

A causa divide o Supremo. Nas contas de advogados próximos ao PT, Palocci contaria com quatro votos garantidos. Precisaria de mais dois para ganhar a liberdade. Mas o ambiente no STF não favorece muito as previsões. A rigor, o habeas-corpus de Palocci deveria ser julgado na 2ª Turma. Mas depois de negar - e perder - o pedido de liberdade de três outros acusados na Lava-Jato, o ministro Edson Fachin preferiu jogar a ação de Palocci direto para o plenário do tribunal.

Uma decisão heterodoxa que grudou em Fachin, relator dos processos da Lava-Jato, a pecha de mau perdedor e deixou o tribunal numa sinuca de bico - foi o plenário do STF que deu o poder para a Turma decidiu sobre pedidos de habeas-corpus.

Há convicção nos meios lulistas de que João Santana e Mônica Moura ainda vão atirar contra todos, mas vão acertar muito mais em Dilma do que em Lula. Santana fez apenas uma campanha de Lula, que foi a da reeleição, em 2006. Com Dilma foram duas campanhas eleitorais, a de 2010, quando foi chamado a eleger o "poste", e a de 2014, a da reeleição, justamente aquela hoje em questão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No seu depoimento, Mônica Moura fala em "convívio íntimo" com o Palácio da Alvorada. A amizade que Santana cultivou com Dilma fazia com que ele fosse consultado sobre assuntos diversos pela ex-presidente da República, inclusive aqueles que nada tinham a ver com propaganda e comunicação.

Quem acompanhou de perto a decisão de Dilma de se candidatar à reeleição, quando Lula estava pronto para reassumir o que considerava de direito, conta que foram João Santana e outros áulicos do entorno de Dilma que a convenceram a enfrentar Lula e se candidatar a um novo mandato. O argumento era que Dilma fora eleita e devia o primeiro mandato a Lula, mas que no segundo mandato Dilma seria reeleita por ela mesma.

Dilma elevou Santana à condição de ministro sem pasta. O jornalista e publicitário mandava muito no governo, telefonava para ministros e há registro de que tentou influir na indicação até de ministros do STF e STJ.

Santana e Mônica eram detestados no PT. Ele porque levava a comunicação a prevalecer sobre a política, o que esvaziava o partido. Ela pelos métodos arrogantes, pretensiosos e grosseiros como cobrava as dívidas. O PT dizia que Santana não tinha o talento de Duda Mendonça mas cobrava três vezes mais. E quem fazia a negociação de preços - como o próprio casal reconheceu nas delações - era Mônica, em geral de forma grosseira. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari, preso em Curitiba já mais de dois anos, reclamava reiteradas vezes do jeito que Mônica fazia as cobranças.

Arrogância e pretensão foram o espaço que Dilma deu para o casal. Intimidade que agora deve se voltar contra a ex-presidente e seu entorno. Mônica já falou de Giles Azevedo, um dos mais próximos e discretos auxiliares de Dilma, de Franklin Martins, que até hoje passara ao largo das delações, e de Mônica Monteiro, mulher de Franklin. Não deve demorar muito para o país saber quem Dilma achava bonito ou feio.

A situação ficará pior se o que Mônica falou sobre as mensagens cifradas que trocava com a ex-presidente forem confirmadas. Santana foi preso sem telefone celular e notebook, muito embora estivesse voltando de uma viagem de trabalho à República Dominicana. Mas técnicos em informática já informaram os petistas que os rascunhos podem ser recuperados, mesmo que tenham sido apagados.

Santana tem mais a falar de Dilma do que de Lula porque sua relação com o ex-presidente - à exceção de 2006 - tratava muito mais das campanhas eleitorais no exterior. Dilma não tinha o mesmo diálogo com os aliados da Venezuela e de El Salvador, para citar apenas dois exemplos.

Vista a partir do PT, evidentemente, a liberação do sigilo das delações do casal parece uma tentativa de apagar o bom desempenho que Lula teve na última parte de seu depoimento a Sergio Moro, prestado na véspera. Que Lula levasse as coisas para o lado político é considerado normal; Moro pareceu na defensiva ao dar trela ao falatório do ex-presidente dizendo, entre outras coisas, que ele também era criticado nas redes sociais,.

Por esse depoimento, no qual falou sobre o tríplex do Guarujá, Lula continuaria a subir nas pesquisas, segundo se entende no território petista. Mas se o depoimento de Lula sobre o apartamento no Guarujá já deu tanta confusão, é bem possível imaginar o que vem pela frente nos outros quatro inquéritos a que o ex-presidente responde e - sobretudo - com o depoimento de Antonio Palocci. Não há como o ex-ministro falar sem ter que responder a perguntas incômodas sobre Lula. Palocci falando, Vaccari ficará em silêncio?

Por mais que Dilma tenha sido a estrela das delações de João Santana e Mônica Moura, Lula é o fim do caminho da Lava-Jato. E por melhor que tenha se saído em seu depoimento a Moro, o fato é que tropeçou feio quando admitiu que se encontrou com Renato Duque e perguntou a ele sobre contas no exterior. Qual o motivo de sua curiosidade?

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