sexta-feira, 12 de maio de 2017

Injustiça e conformismo | José de Souza Martins

- Valor Econômico | Eu & Fim de Semana

Num momento da história política brasileira de revisão e de revogação de direitos sociais penosamente conquistados, sob argumento de suprimir supostos privilégios e de racionalizar e atualizar as relações de trabalho e o direito à seguridade; num momento de minimização dos que, por muito menos do que valia e vale seu trabalho à luz da riqueza que criaram, carregaram nos ombros, até aqui, a pesada cruz do desenvolvimento econômico brasileiro; num momento como este o tema da injustiça não pode ser deixado de lado. A injustiça social é ardilosa e dissimulada sob argumentos que a apresentam como justa e necessária à saúde da economia.

O governo advoga em favor do economicamente racional e lucrativo, mas a sociedade, completamente desamparada pelos governos e pelos partidos políticos, não consegue advogar em favor dos seus direitos sociais. Nem da distribuição justa e equitativa dos benefícios privados advindos do lucro não raro descomunal, como se vê nas cotidianas notícias sobre as apurações de corrupção na política e em empresas que mais ganham corrompendo do que produzindo. Não é a regra, mas está no fundamento do sistema econômico.

Tem gente falando que a Previdência Social nos levará ao precipício. Não tem ninguém falando que a malandragem política e a corrupção já nos colocaram à beira do abismo.

As medidas governamentais, nas supostas reformas trabalhista e previdenciária, fortalecem o capitalista, mas debilitam o capitalismo. São lucrativas, mas anticapitalistas. Em outros países, episódios como os do retrocesso nos direitos trabalhistas e nos direitos previdenciários e o simultâneo favorecimento dos beneficiários de iniquidades conhecidas, como os grupos sindicais corporativos e os políticos igualmente corporativos, derrubariam governos e mandatos.

Casos de episódios conexos, como o da barbárie destes dias contra os índios Gamela, do Maranhão, derrubariam o ministro omisso, a quem cabe a tutela e a proteção das populações indígenas, e, talvez, o governador do Estado. Coisa de um país retrógrado de donos de gado e gente, como diz a canção.

No entanto, tudo se passa entre nós como se a injustiça fosse mera e involuntária violação do que é essencial à sobrevivência social das minorias e dos desvalidos, tratados como gente conformista porque de somenos.

Não existe final feliz na história social do consórcio de injustiça e conformismo. O conformismo brasileiro foi, na escravidão, criado a poder de crendice, tronco e chibata, que amansaram os então cativos, dando-lhes uma personalidade básica peculiar e submissa. A cultura da sujeição prolongou-se na história do país, alcançando os trabalhadores livres que substituíram os escravos com a abolição da escravatura e com a imigração. É esse um traço forte do caráter nacional brasileiro. Mesmo quem se insurge não raro o faz de maneira carneiril, a isso reduzidos por seus próprios líderes.

Há indícios de que, socializados nessa cultura, os pobres, com as adversidades, "sofrem menos" do que a classe média, que é a classe social que mais reclama e mais conhece meios e manhas para escamotear a injustiça, sem superá-la. Apenas substitui o inconformismo pelo mau humor social, de eficácia relativa e geralmente pequena. Seu inconformismo é tosco porque, como no caso de agora, não abrange todos os que são vítimas das injustiças e violências. A classe média não sabe pensar politicamente suas adversidades, reais e supostas, por não saber pensar as dos outros. Seria o único meio de traduzir o inconformismo num projeto de superação do que a ela e a todos nós atormenta.

A classe média não conhece os segredos desse mundo invertido, o mundo dos contrários e avessos, o dos injustiçados. Já os pobres sabem que tudo tem o seu lado oculto. Seu mundo é o mundo do duplo, da coisa e da sobrecoisa, do que se vê e do que não se vê, mas se intui. A classe média está condenada a viver na linearidade sem ocultações reconhecíveis do mundo materialista das coisas, das mercadorias, do que tem preço. O mundo em que não se imagina porque o imaginário foi capturado e é manipulado por especialistas em manipulação do conhecimento cotidiano, do senso comum, por gente que pensa por ela.

A classe média é imaginária e politicamente pobre porque se desvencilhou dos signos e marcos da memória que a vinculava aos antepassados. Já os que fizeram a transição da ascensão social sem fazer em sua história pessoal e familiar a faxina da memória, que não varreram da vida testemunhos simples, um retrato, um rosário, uma Bíblia, uma carta, um objeto, uma planta, uma lembrança, sabem o que são, sabem onde estão, sabem-se como modo de saber quem são os que os manipulam e enganam.

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José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de “A Sociologia como Aventura” (Contexto), dentre outros.

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