segunda-feira, 3 de julho de 2017

Planalto mapeia votos para evitar traições

O Planalto intensificou o mapeamento de votos pró-Temer na Câmara. Enquete do GLOBO revelou que apenas 44 dos 513 deputados admitem abertamente rejeitar a denúncia contra o presidente por corrupção passiva. A defesa de Temer tentará, na Comissão de Constituição e Justiça, convencer deputados de que a conversa com Joesley não revela crime.

Temer intensifica corpo a corpo para vencer na CCJ

Apesar de laudo da PF, defesa ainda vai contestar aúdio com Joesley

Gabriela Valente, Maria lima e Geralda Doca, O Globo

-BRASÍLIA- Com a missão de evitar que a Câmara autorize o Supremo Tribunal Federal (STF) a julgar a denúncia contra o presidente Michel Temer, o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira deve ler esta semana, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), uma longa defesa, na qual sustentará a inexistência de crime e que o presidente foi vítima de grande armação. Aos deputados, ele ressaltará que Temer não pode ser julgado com base numa gravação, que, segundo sua argumentação, é adulterada, embora laudo técnico da Polícia Federal assegure que a conversa não sofreu qualquer edição.

Em paralelo à defesa técnica, o Planalto intensifica o corpo a corpo e o mapeamento dos votos dos aliados, para reduzir possíveis traições na hora da votação. E estimula o sentimento contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, autor do pedido de abertura de inquérito contra dezenas de parlamentares. Ontem mesmo, assessores de Temer lembraram que o PGR, ao afirmar no sábado, durante a 12ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, que “enquanto houver bambu, vai ter flecha”, mostrou que está agindo politicamente. A afirmação será usada contra Janot, como argumento de falta de isenção no processo.

Mariz, que também é amigo do presidente, passou o fim de semana mergulhado na defesa, que terá ainda detalhado apanhado da trajetória política do presidente. Michel Temer foi denunciado por corrupção passiva por Janot, há uma semana. Em sua defesa, o presidente atacou o comandante do Ministério Público Federal (MPF). Disse que sua denúncia é uma peça de ficção e que Janot reinventou o Código Penal ao acolher ilações.

— A gravação foi adulterada. E mesmo se não tivesse sido adulterada, o conteúdo não incrimina o presidente. O presidente é vítima de uma grande armação — sustenta o advogado.

ENQUETE REVELA CLIMA DE INCERTEZA
A tese da adulteração e de que não houve crime na conversa será reforçada em um ambiente de incerteza na Câmara. Afinal, a base aliada não saiu em defesa do presidente, conforme revelou levantamento feito pelo GLOBO, no qual apenas 44 parlamentares admitiram que votarão no plenário a favor do peemedebista. Temer precisa impedir que a denúncia receba o apoio de dois terços dos 513 deputados, ou seja, 342.

Mariz não compartilha do otimismo do Planalto sobre as chances de vitória no plenário. Argumenta que não encara a Câmara como um conjunto de parlamentares, mas olhará para eles como juízes.

— Vou fazer a defesa da mesma forma que faria no Supremo Tribunal Federal. Não acho que já ganhou ou que já perdeu — pondera o advogado, que não quer arriscar um resultado. — Placar? Isso não é futebol. Vou conseguir que a Câmara não autorize a abertura do processo.

O primeiro round da batalha na Câmara está marcada para amanhã, quando a defesa deverá ser apresentada por Temer. O presidente da Comissão, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), tem que escolher o relator logo no início da semana. O mais cotado para o cargo é o gaúcho Jones Martins (PMDB-RS).

Entre os tucanos, há divergências e o partido deverá se reunir para deliberar. Mas vários deputados já se manifestaram a favor da autorização. Jutahy Júnior (PSDB-BA), por exemplo, disse que já leu toda a denúncia e que os indícios contra Temer são convergentes e fortes. Ele disse que só não anuncia o voto a favor porque, antes, quer ver a defesa do presidente.

— Não é uma decisão ainda, é uma tendência, porque tenho obrigação de ouvir na comissão a defesa de Temer. Mas terá que ter fatos novos que justifiquem a não abertura do processo. O papel da CCJ não é decidir mérito, se Temer é ou não inocente, mas a admissibilidade e constitucionalidade da ação — diz Jutahy.

Outro tucano segue a mesma linha: — Voto para autorizar a investigação. O grande número de indecisos tende a votar a favor da investigação — afirma o deputado João Gualberto (PSDB-BA).

Na oposição, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) prevê que a defesa de Temer vai dizer que a principal peça da acusação, a conversa com o delator Joesley Batista, dono da JBS, não é válida, é ilícita. Mas ele diz que isso não se sustenta juridicamente, já que há várias decisões do STF que admitem como elemento de prova esse tipo de gravação.

— Sinceramente, vamos provar cabalmente, já na CCJ, que arquivar a denúncia, não aprofundar a investigação, seria um atentado à República. Todos os deputados governistas sabem disso, daí tantos estarem escondendo o jogo. Não querem bancar desde já o tremendo desgaste do engavetamento — frisa Chico Alencar.

Na mesma linha o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) diz que a enquete publicada pelo O GLOBO mostra que há muitos parlamentares esperando o relator para falar sobre como vão votar.

ENCONTRO NO DOMINGO COM MINISTROS
Temer passou o domingo na residência do Jaburu, onde recebeu ministros para atualizar-se dos fatos e se preparar para a disputa na CCJ. Almoçou com Antonio Imbassahy (da Secretaria de Governo) e com Moreira Franco (da Secretaria Geral da Presidência da República).

Segundo um interlocutor, Michel Temer está “tranquilo” e confiante na vitória, apesar de muitos aliados, integrantes da base governista, terem dificuldade para declarar voto contra a denúncia. No momento certo, destacou a fonte, os parlamentares votarão a favor do presidente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário